França: quem vai enfrentar Marine Le Pen no segundo turno da eleição presidencial de 2027?
O primeiro debate entre os presidenciáveis franceses mostrou uma corrida ainda fragmentada no país, a oito meses da eleição. Com Marine Le Pen autorizada a concorrer e à frente nas pesquisas, candidatos do centro, da direita e da esquerda disputam quem poderá enfrentá-la no segundo turno.
Com a elegibilidade recuperada, Marine Le Pen lidera as pesquisas para a eleição presidencial francesa de 2027 com cerca de 35% das intenções de voto. O primeiro grande debate com o empresariado evidenciou que a disputa atual busca definir quem a enfrentará no segundo turno. Enquanto o centro divide votos entre nomes como Édouard Philippe e Gabriel Attal, a fragmentação da esquerda e da centro-direita mantém aberta a briga, permitindo que Jean-Luc Mélenchon siga competitivo pela segunda vaga.
Thomás Zicman de Barros, analista político
A campanha presidencial francesa parece ter começado para valer na semana. Na quinta-feira (27), sete dos principais candidatos à sucessão de Emmanuel Macron participaram de um primeiro grande debate, organizado pelo MEDEF, a principal organização empresarial francesa, no célebre estádio de Roland-Garros.
Mas a disputa, pelo menos por enquanto, parece ser para saber quem ficará em segundo lugar, ou melhor, quem irá ao segundo turno com Marine Le Pen. A candidata do Reunião Nacional (Rassemblement National) aparece próxima dos 35% das intenções de voto, muito à frente dos adversários.
Le Pen voltou recentemente a ser elegível. Condenada no ano passado no caso dos funcionários fantasma no Parlamento Europeu, ela havia recebido uma pena de inelegibilidade imediata. Em julho, a Corte de Apelações reduziu a pena para 15 meses, período considerado já cumprido. Com isso, Le Pen voltou ao jogo eleitoral.
No debate do MEDEF, Le Pen tentou sobretudo tranquilizar empresários que ainda mantêm fortes reservas em relação a ela e ao seu programa econômico. Essa hostilidade já não representa necessariamente um veto absoluto: dependendo do adversário no segundo turno, parte do empresariado poderia acabar apoiando a líder de extrema direita, ainda que tapando o nariz. Ela procurou facilitar essa escolha, prometendo disciplina orçamentária e redução de gastos.
Flerte com a extrema direita
Édouard Philippe e Gabriel Attal têm uma relação bem mais confortável com esse público. Os dois ex-primeiros-ministros de Macron disputam boa parte do mesmo eleitorado de centro: Philippe, hoje mais bem colocado nas pesquisas, insistiu no rigor das contas públicas, e Attal teve alguns dos momentos mais bem recebidos da noite. Se ambos contribuem para a normalização de ideias da extrema direita, é Bruno Retailleau quem flerta mais abertamente com essa tradição, tentando apresentar uma espécie de lepenismo mais liberal.
O problema para eles está na divisão dos votos. Sobretudo Philippe e Attal concorrem diretamente pelo antigo e minguante eleitorado macronista. Quando aparecem juntos nas pesquisas, essa fragmentação pode abrir espaço para outro candidato chegar ao segundo turno.
Divisão da esquerda
Isso ajuda a explicar por que Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, continua competitivo. No MEDEF, a hostilidade do público era visível. Ao defender aumento dos salários, aposentadoria aos 60 anos e o cancelamento da parcela da dívida francesa nas mãos do sistema europeu de bancos centrais, teve como resposta risadas incrédulas da plateia. Mélenchon foi bastante atacado, mas tampouco estava ali para conquistar os empresários. O confronto fala a uma base eleitoral fiel e engajada, que o mantém firme na disputa pela segunda vaga.
É justamente uma base assim que falta à ecologista Marine Tondelier. Ela também marcou suas diferenças com os empresários, mas sua candidatura continua patinando nas pesquisas. Raphaël Glucksmann, eurodeputado que quer ser um candidato de centro-esquerda nas eleições, aparece melhor, mas ainda precisa vencer em outubro uma primária que se anuncia disputada. Além disso, custa a encontrar um discurso claro entre a esquerda e o centro, ocupando cada vez mais as ruínas de um inóspito "macronismo progressista", e tem grandes dificuldades para se impor como figura carismática e presidenciável.
O debate do MEDEF mostrou bem o ponto de partida da campanha: Marine Le Pen tem larga vantagem no primeiro turno, enquanto centro, direita e esquerda seguem fragmentados. No momento, a principal disputa é saber quem conseguirá chegar ao segundo turno contra ela.
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