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Da libertação da mulher à desconfiança, como a pílula deixou de ser a escolha óbvia de contracepção

Durante muito tempo símbolo de libertação feminina e etapa quase obrigatória na trajetória contraceptiva, a pílula já não é o método mais utilizado em países como a França para evitar a gravidez. O declínio, alimentado por alertas das autoridades sanitárias, reflete também uma nova relação das mulheres com o próprio corpo e a contracepção.

2 out 2026 - 15h52
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Resumo
Antes símbolo de libertação feminina, a pílula anticoncepcional enfrenta um declínio histórico em países como a França e a Alemanha, sendo superada por opções como o DIU e a camisinha. Essa mudança reflete novas prioridades geracionais: a busca por reduzir a carga mental, a rejeição aos hormônios e o receio de efeitos colaterais e riscos à saúde. Hoje, as mulheres priorizam métodos mais naturais e autonomia sobre seus corpos, embora a pílula ainda mantenha relevância para tratamentos específicos.

Aurore Lartigue, da RFI em Paris

Mulheres dispõem de mais informações para tomar as próprias decisões sobre o melhor método contraceptivo.
Mulheres dispõem de mais informações para tomar as próprias decisões sobre o melhor método contraceptivo.
Foto: © Unsplash- rhsupplies / RFI

"O que para nós foi uma libertação formidável claramente já não é mais visto da mesma maneira hoje": aos 79 anos, a ginecologista Danielle Hassoun recorda-se de uma geração que iniciou a vida sexual quando o aborto ainda era proibido na França.

Durante décadas, a pílula representou uma conquista: a possibilidade de dissociar sexualidade e maternidade e de escolher o momento de ter um filho. Ela também se estabeleceu como norma em um roteiro contraceptivo bem definido: preservativo no início da vida sexual, pílula quando o relacionamento se tornava estável e, depois de ter filhos, o dispositivo intrauterino (DIU). Até pouco tempo atrás, a pílula ainda era o principal método contraceptivo utilizado pelas francesas.

Essa época ficou para trás. Enquanto 55,8% das mulheres entre 18 e 49 anos que utilizavam métodos contraceptivos recorriam à pílula em 2005, esse índice caiu para 26,8% em 2023, segundo a pesquisa Contexto das Sexualidades na França (em tradução livre). Pela primeira vez, o DIU assumiu a liderança, com 27,7%.

O fenômeno vai além da França, embora a pílula não tenha ocupado o mesmo papel em todos os lugares. "É um movimento geral", segundo Caroline Moreau, pesquisadora do Inserm e professora da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos. Na Alemanha, por exemplo, 43% das mulheres com menos de 22 anos tomavam a pílula em 2015, contra 22% em 2024, segundo a operadora de saúde AOK. De acordo com outra pesquisa, a preferência agora recai sobre a camisinha.

Desconfiança crescente

Embora esse recuo não seja recente, a pesquisadora fala em uma "desafeição pela pílula", em um artigo publicado em maio passado. Esse declínio, perceptível desde meados dos anos 2000, explica-se, em primeiro lugar, por uma mudança geracional.

"As mulheres já nasceram com a pílula disponível; portanto, ela não é mais vista como uma libertação", explica ela. Para as primeiras usuárias, as alternativas eram escassas e o medo de uma gravidez indesejada pesava de outra forma, em um contexto no qual o aborto era proibido ou clandestino. Com o passar dos anos, a oferta de métodos contraceptivos se diversificou, tornando os efeitos colaterais e as limitações menos aceitáveis.

A queda acelerou-se, posteriormente, com a crise das pílulas de terceira e quarta gerações, em 2012. A ampla divulgação midiática sobre o risco aumentado de trombose provocou uma redução do uso desses medicamentos e alimentou, de modo mais geral, a desconfiança em relação à contracepção hormonal.

Além dos riscos graves amplamente noticiados, efeitos colaterais mais comuns também pesam na experiência das mulheres: sangramentos, ganho de peso ou outros desconfortos do cotidiano. Tratam-se de "pequenos incômodos" que nem sempre foram considerados pelos profissionais de saúde como motivos legítimos para mudar de método contraceptivo, aponta a socióloga Cécile Thomé em um artigo para o veículo AOC.

Para algumas mulheres, soma-se a isso a sensação de que a pílula foi apresentada a elas por muito tempo como uma escolha óbvia, e não apenas como uma opção entre outras.

Ruptura com a pílula

Laure, que prefere não revelar seu verdadeiro nome, começou a tomar a pílula aos 14 anos devido a irregularidades menstruais. Ela continuou usando o método por quase 15 anos, "mesmo durante longos períodos em que eu não estava em um relacionamento", conta ela, que hoje tem mais de 40 anos. "Eu poderia ter optado por outra coisa. Quando penso nisso hoje, me parece um pouco estranho eu ter continuado a tomar hormônios diariamente quando havia outras soluções."

Esse tipo de trajetória pode ter contribuído para alimentar a desconfiança atual, avalia Caroline Moreau. "Colocaram as pessoas para tomar a pílula sem questionamentos", lamenta ela, embora ressalte que a relação benefício-risco do medicamento continua favorável para muitas. "Mas a escolha é das mulheres, não dos médicos, e elas precisam ser informadas sobre todos os métodos que podem ser oferecidos."

Um novo alerta vem agora aumentar a preocupação. Em 10 de setembro, a Agência Nacional de Segurança do Medicamento (ANSM) da França anunciou que enviaria uma carta às usuárias de contraceptivos à base de desogestrel para alertá-las sobre um risco aumentado de meningioma. O risco absoluto é muito baixo - cerca de um caso adicional para cada 67.300 usuárias de contraceptivos com desogestrel ou etonogestrel -, mas o anúncio ocorre em um contexto no qual a pílula já está com má reputação.

"É compreensível não querer correr riscos por uma medida preventiva. Não é a mesma coisa que tomar medicamentos para tratar uma doença", ressalta Danielle Hassoun.

Rejeição aos hormônios, carga mental

As redes sociais também ressoam essa desconfiança. Na Alemanha, onde o uso da pílula vem caindo drasticamente entre as jovens, hashtags como #pilleabsetzen ("parar a pílula") ou #hormonfrei ("sem hormônios") acompanham, há vários anos, os relatos de usuárias. Um estudo realizado no país e na Dinamarca mostra que esses relatos contribuem para mudar a percepção dos riscos: além da segurança médica, as discussões giram mais em torno do bem-estar, do humor, da libido ou da relação com o próprio corpo.

No entanto, nas consultas, a rejeição aos hormônios não é a única motivação. "O que prevalece para a maioria das pacientes que atendemos hoje é: 'quero reduzir minha carga mental'", observa Jennifer Saint-Martin Denys.

Clémence, de 25 anos, ilustra bem essas motivações. Quando escolheu seu primeiro método contraceptivo em um centro de planejamento familiar, aos 16 anos, foram-lhe apresentadas várias opções: pílula, DIU, implante e adesivo. "Tive a liberdade de escolher", recorda-se ela. Na época, a pílula parecia a solução mais simples.

O DIU ganha espaço e muda de imagem

Mas, após dois anos tomando a pílula, alguns esquecimentos, testes de gravidez e sustos a levaram a mudar de método. Uma amiga que havia optado pelo DIU a tranquilizou sobre a colocação, e ela acabou escolhendo um DIU de cobre.

"Eu não queria mais ter a carga mental da pílula", explica ela. "E também queria evitar hormônios. Buscava algo mais natural."

A trajetória dela reflete a mudança na percepção sobre o DIU. Hoje o método contraceptivo mais utilizado na França, o DIU foi, por muito tempo, reservado a mulheres que já tinham filhos. Havia receios ligados ao Dalkon Shield, um antigo modelo de DIU que, na década de 1970, foi associado a infecções pélvicas graves e problemas de fertilidade. Embora os dispositivos atuais não apresentem os mesmos riscos, o episódio deixou marcas duradouras nas práticas médicas.

Para algumas mulheres, o questionamento vai além. Algumas querem recuperar seu ciclo, identificar a ovulação ou simplesmente entender melhor o que acontece em seus corpos.

Marine, de 34 anos, usou sucessivamente a pílula, um DIU hormonal e depois um DIU de cobre, ao qual não se adaptou. Há três anos, decidiu "parar com tudo". Solteira na época, usava preservativos. Hoje, em um relacionamento, ela monitora seu ciclo com a ajuda de um aplicativo e usa preservativo nos períodos férteis. Ela sabe que essa estratégia é menos confiável. Mas, junto com seu companheiro, diz aceitar essa parcela de risco.

Desmedicalização, ciclo e novas prioridades

"A eficácia não é o único critério", lembra Caroline Moreau. O conforto, as restrições, os efeitos colaterais ou até mesmo a forma como a mulher encara uma possível gravidez também são levados em conta.

Durante muito tempo, dominar o próprio corpo significava, sobretudo, poder controlar o ciclo por meio de medicamentos, analisa a socióloga Cécile Thomé. Hoje, para algumas mulheres, esse domínio passa mais pela "compreensão do ciclo menstrual e sua aceitação".

Em 2023, 28,3% das mulheres que utilizavam métodos contraceptivos recorriam a métodos não medicalizados, sendo a camisinha a escolha da grande maioria. Apenas 8% utilizavam um método considerado natural, como o coito interrompido ou a observação e o cálculo do ciclo. No entanto, esse movimento de "desmedicalização" abrange realidades muito distintas: se para algumas mulheres, como lembra Caroline Moreau, trata-se de uma escolha deliberada, para outras, reflete, pelo contrário, dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Papel ainda relevante da pílula e limites dos métodos sem hormônios

O fato de a pílula não ser mais o padrão não significa que tenha perdido toda a sua relevância, alertam as especialistas ouvidas pela RFI. Alguns métodos contraceptivos hormonais podem oferecer benefícios médicos, nos casos de fluxo muito intenso de menstruação, adenomiose e endometriose.

Por outro lado, um método sem hormônios não é necessariamente adequado para todas. Um DIU de cobre, por exemplo, pode ser perfeito para uma mulher que deseja evitar hormônios, mas ser contraindicado para outra que já sofre com sangramentos intensos.

Com histórico familiar de trombose e problemas menstruais, Émilie usa há vários anos o Optimizette, à base de desogestrel. O alerta sobre o risco de meningioma a preocupa, mas as alternativas são limitadas. "Acabo tendo que escolher tomar algo que não é o ideal para evitar outros problemas", resume ela.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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