'Brasil cansou de ser tratado como invisível', diz Lula ao defender multilateralismo com chanceler alemão
Em seu segundo dia de visita à Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (20) que o Brasil participa da Feira de Hanôver "com a plenitude de um país que sabe o que é capaz de fazer", destacando o objetivo de aprofundar a parceria com a Europa, sobretudo com a Alemanha. Em seu discurso, Lula disse que o Brasil "cansou de ser tratado como um país de terceiro mundo" e criticou o enfraquecimento da ordem global construída após a Segunda Guerra Mundial. "O mundo não pode ser dirigido por mentiras nem pelo unilateralismo", enfatizou.
Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (20) em Hanôver que o Brasil pretende assumir protagonismo global na transição energética, durante discurso na Alemanha. Segundo ele, o país reúne condições estruturais para liderar a produção de combustíveis renováveis.
O presidente também destacou uma mudança de postura do país no cenário internacional.
"Nós estamos falando de um país que cansou de ser pequeno. Um país que cansou de ser um país em via de desenvolvimento. Um país que cansou de ser tratado como um país do terceiro mundo. Um país que cansou de ser tratado como invisível."
Lula acrescentou que o Brasil combina dimensão territorial, estabilidade econômica e credibilidade recente para sustentar essa ambição. "Nós somos uma grande nação, temos 215 milhões de habitantes, temos uma economia razoavelmente estável e conquistamos muita credibilidade nos últimos anos", afirmou.
Comparação de combustíveis e crítica a custos industriais
O presidente Lula propôs uma comparação direta entre combustíveis brasileiros e europeus ao defender a competitividade energética do país. Segundo ele, a iniciativa envolve inclusive montadoras e autoridades estrangeiras.
"O Brasil é o país que tem a sua matriz energética mais limpa do mundo do ponto de vista da energia elétrica. Quase 90% da nossa energia é renovável. Nós somos grandes produtores de biodiesel e de etanol", disse Lula, que criticou o custo adicional imposto por exigências tecnológicas na indústria automotiva.
"A gente (quer) tentar mostrar que nós não precisamos, a cada ano, pagar 15% a mais no preço do caminhão por conta do mix tecnológico para fazer com que o motor emita menos gás de efeito estufa. Porque o nosso combustível já emite menos", argumentou.
Multilateralismo e crítica ao cenário internacional
O presidente brasileiro criticou o cenário internacional atual e afirmou que há um enfraquecimento das regras multilaterais construídas após a Segunda Guerra Mundial. Em discurso, ele alertou para o avanço de uma lógica baseada na força econômica e militar nas relações entre países.
"Nesse momento em que o mundo está consagrado, em que o multilateralismo, sabe, está sendo destruído, em que aquilo que era a harmonia constituída depois da Segunda Guerra Mundial, para estabelecer a paz e harmonia entre os países, está sendo jogado fora com a tentativa da introdução do unilateralismo, ou seja, fazendo com que a força tecnológica, a força das armas ou a força do PIB seja o indutor das negociações entre países potentes e países pequenos", disse.
O presidente defendeu mudanças na governança global e a retomada do equilíbrio nas relações internacionais. "Não é possível que a gente não tenha noção de que nós precisamos mudar essa situação mundial", afirmou.
Digitalização, comportamento social e fake news
Lula também fez uma reflexão sobre o impacto da era digital. "Veja que eu falei humanidade humana. Porque a humanidade está virando algoritmo. A revolução digital está induzindo a humanidade a ter um comportamento, sabe, totalmente diferente daquilo para o qual os seres humanos foram criados, que era para conviver em comunidade e harmonia."
O presidente criticou ainda mudanças na forma de atenção e debate público. "Em muitos encontros a que eu vou, as pessoas estão no celular, não estão prestando atenção naquilo que você está falando. Ou seja, a era do argumento acabou. A era da verdade se esvaiu."
Ele ainda alertou para o avanço da desinformação.
"Nós estamos vivendo a era do fake news. A era em que, quanto menos verdade você falar, mais importante você passa a ser."
Visita estratégica de Lula à Alemanha
Ontem, no primeiro dia da viagem, Lula e o chanceler alemão, Friedrich Merz, participaram da cerimônia de abertura da feira e hoje devem aprofundar a agenda de acordos bilaterais. Haverá consultas governamentais no Palácio de Herrenhausen, com a participação de sete ministros do Brasil e oito da Alemanha. O objetivo é ampliar ainda mais as relações em áreas como comércio, matérias-primas, defesa, digitalização, pesquisa e proteção climática.
No domingo, Merz recebeu o presidente brasileiro com honras militares em frente ao Palácio de Herrenhausen para uma reunião privada. Em seguida, eles participaram da cerimônia de abertura da Feira de Hanôver. Merz disse que, quando o acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia entrar em vigor, enviará um sinal "de que queremos essa cooperação com o mínimo de tarifas possível, idealmente sem nenhuma tarifa".
Lula defendeu uma reforma do Conselho de Segurança da ONU e fez críticas ao presidente americano, Donald Trump. Ele chamou de "loucura" a operação militar dos Estados Unidos no Irã.
300 empresas brasileiras e reposicionamento internacional
O Brasil chegou a Hanôver com uma estratégia de reposicionamento. A ideia é deixar para trás a imagem de país agrícola e se apresentar como uma potência industrial e tecnológica. O governo trouxe mais de 300 empresas e está apostando forte em áreas como energia renovável, mobilidade elétrica e digitalização. E o Brasil também traz números para sustentar o discurso.
Por exemplo, o país já é um dos líderes na América Latina em mobilidade elétrica e vem expandindo rapidamente a infraestrutura de recarga. Além disso, quase 90% da eletricidade do país já vem de fontes renováveis, o que é um argumento muito forte em um momento em que a Europa tenta acelerar a sua transição energética. Então a mensagem é clara: o Brasil quer ser visto não só como fornecedor de commodities, mas como um parceiro tecnológico relevante em setores estratégicos.
A relação entre os dois países é antiga e ganhou peso nos últimos anos. O Brasil é hoje o principal parceiro comercial da Alemanha na América Latina, e mais de 1.500 empresas alemãs têm operações no país, incluindo gigantes como Bosch, Siemens e Volkswagen. As subsidiárias alemãs geram aproximadamente 10% do PIB industrial brasileiro e criam 250 mil empregos no país. Ao mesmo tempo, a Alemanha é o principal parceiro do Brasil dentro da União Europeia. Só no ano passado, o volume de comércio entre os dois países chegou a cerca de 21 bilhões de euros.
E essa relação não é só comercial, ela também é estratégica. A Alemanha vê o Brasil como um parceiro importante em áreas como energia, matérias-primas e descarbonização. Já o Brasil enxerga a Europa como uma forma de diversificar suas alianças em um mundo cada vez mais polarizado. E aqui entra o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia como um fator fundamental.
Disputa alemã e chinesa pelo Brasil
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está marcado para entrar em vigor em primeiro de maio, ainda que de forma provisória. Isso porque o Parlamento Europeu pediu uma revisão judicial do tratado. Mas, para todos os efeitos, algumas tarifas já vão a zero a partir de maio, mesmo que essa revisão ainda esteja pendente.
Os alemães que, ao contrário da França, são amplamente favoráveis ao acordo, estão em contagem regressiva. A concorrência atual com a China é cada vez mais forte para os alemães no mercado brasileiro. Para se ter uma ideia, cerca de um terço das máquinas vendidas no Brasil hoje já vêm de fabricantes chineses, que competem principalmente no segmento de preços mais baixos.
As empresas alemãs, por outro lado, ainda têm vantagem em tecnologia e no chamado segmento premium, mas enfrentam dificuldades justamente por causa de custos mais altos. O acordo da UE com o Mercosul vai reduzir tarifas e fortalecer a posição das empresas europeias no Brasil.
Os alemães hoje pagam taxas de importação na indústria que chegam a 35%. Se o acordo acabar bloqueado judicialmente, a tendência é que os concorrentes chineses continuem ganhando espaço. Ou seja, o que está em jogo aqui não é só uma parceria bilateral, mas uma disputa global por influência econômica e política.
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