Agência francesa de medicamentos alerta para risco de tumor nas meninges associado a anticoncepcional
Cerca de 1,6 milhão de mulheres que utilizaram anticoncepcionais à base de desogestrel (Cerazette) receberão uma carta na França informando sobre um aumento do risco de desenvolver meningioma, um tumor benigno que se desenvolve nas meninges, as membranas que envolvem o cérebro.
A agência de medicamentos da França emitiu um alerta sobre o risco, considerado baixo, de desenvolvimento de meningioma associado ao anticoncepcional desogestrel. A probabilidade aumenta após cinco anos de uso contínuo, atingindo principalmente mulheres acima de 45 anos, mas regride com a suspensão do remédio. O órgão recomenda que as pacientes não interrompam o tratamento sem orientação médica e procurem atendimento caso apresentem sintomas neurológicos, como dores de cabeça persistentes.
O anúncio foi feito nesta quinta-feira (11) pela Agência Nacional de Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde (ANSM), órgão francês responsável por regulamentar e fiscalizar medicamentos. Segundo a ANSM, o risco é considerado "baixo". De acordo com a carta da agência, mulheres que apresentarem dores de cabeça persistentes, alterações visuais, fraqueza muscular, distúrbios de equilíbrio ou da fala, perda de memória ou crises epilépticas novas ou agravadas devem procurar um médico.
Nesses casos, poderá ser solicitado um exame de imagem cerebral, como a ressonância magnética. Esses sintomas podem estar relacionados ao surgimento do tumor. "O risco é baixo e não pode ser comparado ao do Androcur (acetato de ciproterona), que era 20 vezes maior após cinco anos de uso", afirmou Isabelle Yoldjianu, diretora médica da autoridade sanitária francesa, durante entrevista coletiva.
Segundo um estudo realizado em 2024 pelo grupo científico Epi-Phare, uma em cada 67 mil mulheres que utilizam desogestrel desenvolveram um meningioma relacionado ao anticoncepcional. Após cinco anos de tratamento, a incidência sobe para uma em cada 17 mil usuárias. O risco, superior ao observado entre mulheres que nunca utilizaram o medicamento, dobra após sete anos de uso, mas desaparece um ano depois da interrupção do tratamento.
Mulheres com mais de 45 anos correm mais risco
As mulheres com mais de 45 anos e aquelas que já haviam utilizado anteriormente, por mais de um ano, outro progestagênio considerado de risco estão mais sujeitas a desenvolver o tumor. Cerca de 90 mil médicos que prescreveram anticoncepcionais que contêm apenas desogestrel na dosagem de 75 microgramas também receberão uma comunicação oficial.
A ANSM recomenda que as pacientes não interrompam o método contraceptivo sem orientação médica, para evitar uma gravidez não planejada, e orienta que o tema seja discutido com o médico na próxima consulta de rotina.
Em entrevista à rádio RTL, o ginecologista francês Geffroy Robin explicou que, além de o risco ser baixo, os tratamentos à base de desogestrel, usado contra a endometriose e a menstruação abundante, "funcionam extremamente bem e melhoram a vida de muitas mulheres". Segundo ele, é preciso sempre considerar a relação entre benefícios e riscos. "Os benefícios são reais: a qualidade de vida da paciente melhora e os sintomas desaparecem", insiste.
Para o ginecologista, o envio da carta visa alertar sobre mais um possível efeito adverso, que deverá passar a constar nas bulas desses anticoncepcionais dentro de um ano. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) decidiu neste verão europeu incluir esse risco nas bulas dos anticoncepcionais à base de desogestrel, após uma solicitação da agência francesa. A ANSM também disponibilizou uma seção de perguntas e respostas em seu site e lembra que todo método contraceptivo deve ser reavaliado anualmente, de acordo com as necessidades e o estado de saúde da paciente.
Com AFP
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