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Abaixo-assinado para salvar a Casa da América Latina de Paris acolhe mais de 25 mil adesões

O futuro da Casa da América Latina de Paris, que comemora 80 anos nesta quinta-feira, está ameaçado. A entidade corre o risco de ser despejada de sua sede histórica, que está à venda. A comunidade latino-americana na França se mobiliza e um abaixo-assinado que pede a intervenção do presidente Emmanuel Macron para garantir a permanência da instituição no local já recebeu mais de 25 mil assinaturas.

15 out 2026 - 16h00
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Resumo
Um abaixo-assinado com mais de 25 mil adesões pede a intervenção do presidente Emmanuel Macron para salvar a Casa da América Latina em Paris. O Banco da França pôs à venda por € 100 milhões os dois palacetes históricos que abrigam a instituição desde 1965, com previsão de fechar negócio ainda este ano. Artistas, parlamentares e diplomatas mobilizam-se contra a perda desse espaço gratuito de intercâmbio cultural e diplomático, temendo o fechamento da sede histórica em meio a cortes na cultura.

Os dois palacetes do Boulevard Saint-Germain, no coração de Paris, que abrigam a Casa da América Latina desde 1965, foram colocados à venda por € 100 milhões (R$ 600 milhões) pelo Banco da França, proprietário do imóvel. A transação deve ser concluída antes do fim do ano. A maison, vitrine da diplomacia e da cultura latino-americana na França, que aluga o imóvel, não é contra a venda.

O abaixo-assinado foi lançado em meados de setembro, depois que o Banco da França anunciou a venda da sede histórica da Casa da América Latina de Paris.
O abaixo-assinado foi lançado em meados de setembro, depois que o Banco da França anunciou a venda da sede histórica da Casa da América Latina de Paris.
Foto: © Reprodução / RFI

O abaixo-assinado pede "solenemente ao Presidente da República, que chancela a instituição desde sua criação em 1946 pelo general de Gaulle, e ao ministro da Europa e das Relações Exteriores, que favoreçam uma solução capaz de garantir a continuidade das missões da Casa da América Latina em sua sede histórica".

A artista brasileira Livia Melzi frequenta a Casa da América Latina desde que se mudou para a França, em 2012. Ela, que também já teve obras expostas no local, durante a mostra "Le Brésil illustré. L'héritage postcolonial de Jean-Baptiste Debret" (Brasil Ilustrado. O legado pós-colonial de Jean-Baptiste Debret), lamenta a situação.

"Eu acho uma tragédia o que está acontecendo, porque o prédio já é um lugar histórico. Foi a casa do médico Charcot, foi frequentado por Sartre. Eu fico preocupada. O que vai acontecer com essa arquitetura? E para onde vai a Casa da América Latina? Para onde vai o acervo? Onde será esse novo lugar de encontro para os artistas latino-americanos?", questiona.

Redução de verbas para a cultura

A ex-deputada francesa de origem argentina Paula Forteza frequenta e colabora com a Casa da América Latina há anos. A fundadora da galeria Artivistas já organizou várias exposições e encontros no local, todos com entrada gratuita, como determina o regimento da instituição. Ela salienta que a venda do imóvel pelo Banco da França se insere em um contexto de redução de verbas para a cultura.

"Essa é uma decisão orçamentária, considerando o contexto financeiro e fiscal da França. Mas é uma decisão que pode ser contestada. Os orçamentos da cultura estão sendo reduzidos e inúmeros espaços culturais estão fechando em toda a França. Não podemos esquecer que todas essas atividades são abertas e gratuitas", informa.

O deputado Benoit Larrouquis, do grupo macronista na Assembleia Nacional e representante dos franceses que moram na América Latina, diz que vários parlamentares do país também estão mobilizados para salvar a instituição.

"Estamos dialogando com o governo e pretendemos levar o assunto ao presidente da República. Petições foram lançadas e têm obtido grande sucesso. Parlamentares [representantes] dos franceses que vivem no exterior e outros que conhecem bem a América Latina estão mobilizados para que uma solução seja encontrada", revela.

Impacto do abaixo-assinado

Livia Melzi espera que o abaixo-assinado impeça o fechamento da Casa da América Latina de Paris. "Eu assinei. Recebi a petição de vários amigos artistas também. Esse documento está circulando bastante entre a comunidade latino-americana. É importante fazer o possível para impedir a saída da Casa da América Latina desse lugar e entender o que isso significa politicamente para a nossa comunidade", ressalva.

Paula Forteza espera que o presidente francês irá intervir e garantir o futuro da Casa da América Latina. "Eu acredito que Emmanuel Macron acabará ouvindo a razão. Do ponto de vista geopolítico, seria um erro fechar um lugar como este. A França sempre foi defensora do multilateralismo, num momento em que a Europa tem dificuldades para afirmar seu papel no mundo", contextualiza.

O Banco da França é uma instituição independente. Mas, segundo o deputado Benoit Larrouquis, o presidente da República, que chancela a Casa da América Latina desde sua fundação, pode interferir no processo de venda.

"O Banco da França é soberano em sua decisão. Mas continua sendo o Banco da França, e isso tem um peso simbólico importante. Por isso, acredito que essas pressões acabarão produzindo resultados. Não acredito, e sobretudo não espero, que Emmanuel Macron venha a ser o presidente que fechará a Casa da América Latina", pondera.

Segundo a imprensa francesa, os 20 embaixadores latino-americanos na França, que se reúnem mensalmente na Casa da América Latina, teriam redigido uma nota alertando Emmanuel Macron sobre os riscos que ameaçam a instituição. Procurado pela RFI, o embaixador do Brasil em Paris, Ricardo Neiva Tavares, não quis conceder entrevista. Fontes diplomáticas brasileiras, que pediram anonimato, afirmaram que o Brasil não foi informado sobre a nota mencionada pela mídia francesa.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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