'A luta continua': morte de idosa despejada de apartamento em Madri comove a Espanha
Maricarmen Abascal, a idosa de 87 anos que se tornou símbolo da crise da moradia na Espanha, morreu nesta quarta-feira (7). A causa da morte não foi divulgada. Ela estava internada desde seu despejo, em 23 de setembro, por sofrer de ansiedade severa e esgotamento. A idosa foi retirada em uma maca do imóvel em Madri onde vivia havia mais de 70 anos por policiais e assistentes sociais.
A morte de Maricarmen, idosa de 87 anos despejada após um aumento de 275% no aluguel em Madri, intensificou os protestos contra a crise habitacional na Espanha. O caso gerou comoção nacional, acampamentos pelo direito à moradia e a convocação de uma greve geral para 11 de novembro. Pressionado pela alta dos preços e pela rejeição de decretos no Congresso, o premiê Pedro Sánchez antecipou as eleições legislativas para 29 de novembro, tornando o tema o eixo central do debate político.
Maricarmen não podia mais pagar o aluguel após um reajuste de 275%. O caso gerou uma onda de protestos na Espanha e diante da crise, o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, anunciou na segunda-feira (5), a convocação de eleições legislativas antecipadas para o dia 29 de novembro.
A pressão popular levou a uma renegociação do valor do aluguel com a empresa proprietária do imóvel e Maricarmen deveria voltar para casa assim que saísse do hospital, mas ela não resistiu. "Maricarmen vive, a luta continua", entoavam centenas de manifestantes reunidos perto do Congresso, no centro de Madri.
Na praça Puerta del Sol, manifestantes pelo direito à moradia estão acampados há vários dias. O clima após o anúncio da morte da idosa era de luto, e velas foram colocadas entre as barracas. Manifestantes se abraçaram emocionados, após guardarem um minuto de silêncio pela aposentada, cujo despejo, em 23 de setembro, deu início às mobilizações.
"Mataram Maricarmen. Fizeram com que uma senhora de 87 anos passasse seus últimos dias angustiada e em um hospital", afirmou, com a voz embargada pela emoção, Nora Boumghait, profissional de marketing de 25 anos. "Se isso começou por ela, vai continuar por ela", declarou.
"Eu me identifico", contou, a poucos metros dali, Ashley Pérez, militar de 23 anos que, devido às dificuldades para encontrar moradia, não consegue viver com o filho. "Vamos continuar lutando não só por mim, mas pelo povo", prometeu."Foi uma morte que podia ser evitada, que simboliza o drama da crise habitacional na Espanha", declarou Dario Gomez, manifestante de 36 anos, em Madri.
As centrais sindicais espanholas convocaram na quarta-feira uma greve geral para 11 de novembro, pouco menos de duas semanas antes das eleições antecipadas. O aumento dos aluguéis e os despejos se tornaram temas centrais da campanha eleitoral.
"Exemplo de luta"
O Sindicato de Inquilinos destacou que Maricarmen é um "exemplo de luta" e a onda de reações após seu despejo "representam um antes e um depois na história deste país".
Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), o salário bruto mensal médio na Espanha é de cerca de 2.460 euros sem desconto dos impostos. No país, os salários costumam ser pagos em 14 parcelas ao longo do ano.
Para efeito de comparação, o aluguel de um apartamento de 50 m² em Madri custava, em média, € 1.170 (R$ 6.600) por mês em setembro, segundo o portal imobiliário Idealista. O valor corresponde a quase metade do salário bruto médio, bem acima da taxa de 30% da renda recomendada por órgãos públicos e especialistas em habitação.
Muitos espanhóis acusam plataformas de aluguel turístico, como a Airbnb, e fundos de investimento de impulsionar a alta dos preços ao adquirir imóveis e reduzir a oferta disponível para a população. Esses "fundos abutres", como são chamados pelos manifestantes e pelo governo de esquerda, concentram a indignação nos protestos e acampamentos que se espalharam pelo país.
A crise é ainda mais sensível porque a Espanha, que possui mais de 27 milhões de moradias para uma população de 50 milhões de habitantes, segundo o governo, é um país onde a cultura da casa própria é historicamente muito forte. Essa herança remonta, em parte, à ditadura de Francisco Franco, durante a qual um ministro da Habitação chegou a dizer: "Não queremos uma Espanha de proletários, mas de proprietários".
Todo mi cariño a la familia y a los seres queridos de Maricarmen. Un abrazo también a todos los que hoy sentimos esta pérdida como propia. Descanse en paz.
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) October 7, 2026
"Todo o meu carinho à família e aos entes queridos de Maricarmen. Um abraço também a todos nós que hoje sentimos esta perda como nossa", escreveu o chefe do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, no X.
Diante das crescentes mobilizações, seu governo promoveu na semana passada dois decretos com medidas para tentar conter a crise habitacional, mas os textos foram rejeitados na última sexta-feira pelo Congresso. "Quero transmitir meus pêsames à família e aos entes queridos de Maricarmen. Nem campanha, nem partidos, nem uso político. Chega de pedras no muro", escreveu, por sua vez, o líder do Partido Popular (PP, direita), Alberto Núñez Feijóo, no X.
Com agências
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