Mídia é o oxigênio para o terrorismo, defendem especialistas
- Gonçalo Valduga
Com o fim da Guerra Fria (1947 - 1990), quando se pensava em um mundo mais calmo e tranquilo, explodiu o 11 de setembro de 2001, apavorante precursor de uma nova era midiática, instalada no início da primeira década do século XXI e cuja duração ninguém se arrisca a prever. Desde que as televisões registraram em todos os cantos do planeta cada momento do trágico ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, iniciou-se uma relação mais íntima entre mídia e terrorismo, como apontam analistas estrangeiros e brasileiros ouvidos pelo Terra. Para eles, nos últimos dez anos, o terror passou a se alimentar da mídia, que é fundamental para a existência dele.
"Os meios de comunicação são o oxigênio do terrorismo. Sem eles, os terroristas seriam sufocados e morreriam", afirma o pesquisador Adam Lockyer, professor do Centro de Estudos sobre os EUA na Universidade de Sydney. Lockyer destaca que um dos principais objetivos do terrorismo é enviar a sua mensagem para o máximo de pessoas. "Se a mídia aprendeu a cobrir o terrorismo, diria que foi uma vitória para Osama Bin Laden. Se você quiser pará-los, a primeira coisa que deve fazer é enfraquecer a cobertura", diz.
Assim como Lockyer, o especialista em comunicação Jacques Wainberg, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), também acredita nessa conexão. "Existe uma relação umbilical entre terror e mídia. Se há um lugar onde a violência é bem-vinda é nas redações de jornal; a infelicidade do mundo é a felicidade da redação", afirma ele, ao explicar que o atentado é uma ação dramática feita por pessoas que querem incomodar a sociedade, atraindo a atenção da mídia. "O medo é a forma mais eficiente de conquistar a atenção das pessoas", define.
É de total interesse dos veículos de comunicação alcançar os instintos humanos básicos, principalmente com o impacto do medo, o mais visado pelos terroristas. Neste sentido, Adam Lockyer aborda a relação entre terroristas e guerrilheiros. "Guerrilheiros tentam ganhar a guerra, atacando o Exército e as instituições governamentais. E, embora sejam mais fracos, podem se tornar fortes o suficiente para enfraquecê-los. No caso dos terroristas, eles são ainda mais fracos e não conseguem enfrentar o Estado sem associar suas forças, de alguma forma, a segmentos da sociedade através da influência na opinião pública. Tudo o que podem fazer é influenciar a opinião pública", conclui.
A lógica é implacável, refere ele, para quem, quando uma bomba explode em um ônibus, a ação é uma tentativa de influenciar a opinião pública e, através disso, fazer o público influenciar o governo. "A mídia gosta disso porque gera um drama muito grande. Se o jornal tem imagens e artigos sobre um ataque terrorista devastador, você venderá mais jornais. Essa é a lógica", afirma.
Jacques Wainberg concorda com o colega australiano, em que a atenção das pessoas é o grande alvo da imprensa. Para ele, o medo é um propulsor da atenção, com um papel de lubrificante social. "Não é só a violência que vende, mas é ela, e nela se inclui o medo, que produz a ignição mais rápida. Ela atormenta, produz a incerteza, a ameaça da morte constante e as pessoas temem isso e querem sobreviver", afirma.
Parte do dia a dia
Para quem defende a televisão como grande agente de atuação do terrorismo, ao lado das redes sociais, nos últimos 10 anos, o tema foi incorporado ao dia a dia das pessoas. É o caso do sociólogo americano David L. Altheide, professor da Escola de Justiça e Pesquisa Social da Universidade Estadual do Arizona.
"De setembro de 2001 para cá, especialmente na televisão, os programas passaram a dar aos espectadores uma estrutura de referência de pensamento e informações consistentes sobre o terror", aponta. Para Altheide, "nós passamos da simples condição de reportar eventos violentos, para o exame, até aprofundado em matéria de causas, das características dos terroristas e particularmente da ameaça que representam".
Altheide anota que o terrorismo mudou a concepção de ser uma tática ou estratégia para uma condição do mundo, significando perigo. "A incerteza constante é violadora e não está restrita a poucos grupos. É uma forma de se referir cada vez mais a muitos inimigos ao redor do mundo", diz.