Consumo excessivo de carne e açúcar causa 15 milhões de mortes prematuras no mundo, diz Lancet
Como conciliar saúde, justiça social e preservação ambiental? Um relatório publicado nesta sexta-feira (3) pela organização internacional EAT e pela prestigiada revista científica The Lancet aponta que uma transição global nos padrões alimentares, com redução drástica no consumo de carne vermelha e açúcar, entre outros produtos, poderia evitar cerca de 15 milhões de mortes prematuras por ano e diminuir em mais da metade as emissões de gases de efeito estufa ligadas à produção de alimentos.
Como conciliar saúde, justiça social e preservação ambiental? Um relatório publicado nesta sexta-feira (3) pela organização internacional EAT e pela prestigiada revista científica The Lancet aponta que uma transição global nos padrões alimentares, com redução drástica no consumo de carne vermelha e açúcar, entre outros produtos, poderia evitar cerca de 15 milhões de mortes prematuras por ano e diminuir em mais da metade as emissões de gases de efeito estufa ligadas à produção de alimentos.
A pesquisa, conduzida por quase uma centena de especialistas em nutrição, saúde pública e meio ambiente, propõe a chamada "Dieta da Saúde Planetária", baseada em frutas, legumes, grãos integrais, oleaginosas e leguminosas, com redução drástica no consumo de carne vermelha, açúcar e alimentos ultraprocessados. O objetivo é garantir uma alimentação saudável para toda a população mundial, sem comprometer os recursos naturais do planeta.
O documento comprova que, atualmente, os regimes alimentares são sistematicamente desequilibrados. Em diversas regiões, há carência de alimentos frescos e integrais, enquanto o consumo excessivo de carnes, laticínios, açúcar e produtos industrializados se tornou a norma.
Essa realidade representa uma catástrofe sanitária e ambiental, agravada por uma profunda injustiça social: 30% da população mais rica é responsável por mais de 70% dos impactos ambientais causados pela alimentação, enquanto mais de 1 bilhão de pessoas ainda enfrentam a desnutrição.
No entanto, ao combinar os últimos avanços científicos, os pesquisadores mostram que é possível alimentar 9,6 bilhões de indivíduos até 2050, conciliando equilíbrio nutricional, justiça social e preservação do meio ambiente.
Mesmo com o abandono total dos combustíveis fósseis, o estudo mostra que os sistemas alimentares, por si só, podem comprometer os esforços climáticos, já que são responsáveis por cerca de 30% das emissões globais de gases de efeito estufa. A produção de carne bovina, em especial, é apontada como um dos principais vetores dessas emissões — devido, entre outros fatores, aos gases liberados pelos animais e à produção de ração para o gado.
Poucas pessoas fazem a relação entre alimentação e clima
Apesar da gravidade do problema, a cobertura midiática sobre o impacto da alimentação no clima ainda é insuficiente. Um levantamento da organização Sentient Media analisou 940 reportagens sobre a crise climática em grandes veículos de imprensa dos Estados Unidos e do Reino Unido. O resultado é alarmante: menos de 4% dos textos mencionam o papel da pecuária. Em contraste, mais de 60% abordam as emissões de carbono, cerca de 50% tratam dos combustíveis fósseis e um terço fala sobre o setor de transportes.
Essa lacuna na cobertura jornalística contribui para a desinformação. Uma pesquisa do Washington Post e da Universidade de Maryland revelou que 74% dos norte-americanos acreditam que comer carne tem pouco impacto sobre o clima.
No entanto, reduzir o consumo de carne e aumentar a ingestão de vegetais, leguminosas e oleaginosas é uma das formas mais eficazes de combater o aquecimento global, especialmente nos países ocidentais, onde o consumo de proteína animal é elevado.
Diante dessas evidências esmagadoras, os pesquisadores advertem que transformar nossos sistemas alimentares é uma necessidade absoluta. Isso implica uma revolução nos padrões de consumo e a promoção de sistemas alimentares justos e ambientalmente responsáveis.
E no Brasil?
No Brasil, os desafios são imensos. Um estudo da USP e da UERJ revelou que a dieta brasileira, marcada pelo consumo elevado de carne bovina e produtos ultraprocessados, reduz em média 5,89 minutos de vida saudável por item consumido. Publicada em maio de 2025 no International Journal of Environmental Research and Public Health, a pesquisa aplicou pela primeira vez no Brasil o Health Nutritional Index (HENI), uma métrica que estima o ganho ou a perda de minutos de vida saudável com base nos alimentos consumidos diariamente — levando em conta também seus impactos ambientais.
Alimentos como biscoitos recheados e refrigerantes estão entre os piores colocados, enquanto peixes de água doce, banana e feijão aparecem como os mais benéficos.
Além dos impactos na saúde, o peso ambiental da alimentação no país é alarmante. A produção de alimentos responde por 74% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa, sendo que a cadeia da carne bovina sozinha emite 1,4 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente — mais do que o Japão inteiro. Se fosse um país, o "bife brasileiro" seria o sétimo maior emissor do planeta, segundo dados do Observatório do Clima.
Além disso, segundo o Relatório sobre o Estado da Insegurança Alimentar Mundial que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicado em 2024, o acesso à alimentação saudável também enfrenta barreiras econômicas. Entre 2017 e 2022, o custo diário de uma dieta saudável no Brasil subiu de US$ 3,22 para US$ 4,25, mas o número de brasileiros incapazes de pagar por essa alimentação caiu de 57,2 milhões para 54,4 milhões. Ainda assim, 25% da população não consegue manter uma dieta adequada.