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Como o Hezbollah resistiu a derrotas, se reorganizou e retomou ofensiva contra Israel no Líbano

O Hezbollah voltou a enfrentar Israel com intensidade ao retomar ataques nesta quarta-feira (3), surpreendendo analistas que previam seu enfraquecimento. A reorganização interna, o uso de drones de difícil detecção e o apoio contínuo de sua base explicam por que o grupo libanês mantém capacidade de combate mesmo sob pressão política e militar crescente na região.

3 jun 2026 - 10h12
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Paul Khalifeh, correspondente da RFI no Líbano

Treze meses de guerra, a morte de sua principal liderança e a destruição de parte de sua estrutura levaram analistas a prever o enfraquecimento do Hezbollah. O cenário, porém, se mostrou mais complexo. Mesmo após reveses militares, isolamento político e pressão interna no Líbano, o grupo apoiado pelo Irã voltou a atuar com intensidade no confronto com Israel.

No momento do cessar-fogo, em 27 de novembro de 2024, o Hezbollah era considerado derrotado. Para os israelenses, havia motivo para comemoração: nos 66 dias finais do conflito, o grupo xiita sofreu perdas significativas.

Tudo começou em 17 de setembro de 2024, com o que ficou conhecido como o "ataque dos pagers", que deixou fora de combate, em poucos minutos, cerca de 4.000 integrantes da organização apoiada pelo Irã. Dois dias depois, aparelhos de comunicação usados pelo grupo voltaram a explodir simultaneamente, provocando centenas de novas vítimas.

Dez dias mais tarde, o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, foi morto junto com o chefe militar Ali Karaki e outros comandantes. Em 5 de outubro, o sucessor designado, Hachem Safieddine, também morreu em um bombardeio israelense na periferia sul de Beirute, ao lado de vários dirigentes.

Nesse intervalo, Israel conseguiu eliminar quase toda a cúpula militar do grupo, incluindo o comando da unidade de elite al-Radwan. Uma geração inteira de dirigentes históricos foi desaparecendo ao longo da guerra.

Encerrados os combates, o Hezbollah passou a lidar com as consequências humanas, sociais e financeiras do conflito. Dezenas de milhares de xiitas ficaram deslocados, tendo perdido suas casas e meios de subsistência.

Para atender essa população, o grupo teve de mobilizar recursos elevados, com gastos de centenas de milhões de dólares em ajuda para moradia, reconstrução de imóveis parcialmente danificados e distribuição de alimentos.

Reorganização interna

Com o fim dos combates, o Hezbollah passou a lidar com uma crise humanitária entre sua base de apoio, com dezenas de milhares de deslocados no sul do Líbano e na periferia da capital. A resposta incluiu gastos elevados com moradia, alimentação e assistência.

Ao mesmo tempo, o grupo perdeu influência no cenário político. Mudanças no equilíbrio de poder levaram à retirada de seu candidato à presidência e à eleição de Joseph Aoun, apoiado por adversários.

No início de fevereiro, a organização também não conseguiu impedir a nomeação de Nawaf Salam como primeiro-ministro, nome associado a posições críticas ao Hezbollah e ao Irã.

A nova configuração abriu caminho para decisões relevantes. Em agosto, o governo avançou no desarmamento do grupo. Em setembro, adotou um plano para concentrar o controle de armas nas mãos do Estado.

Durante cerca de 15 meses após o cessar-fogo, o Hezbollah manteve formalmente a trégua. Israel, por outro lado, deu continuidade a ações militares, com bombardeios, ocupação de áreas e ataques direcionados.

Dados da missão da ONU no Líbano indicam milhares de violações no período e cerca de 400 integrantes do Hezbollah mortos. Em paralelo, o Exército libanês desmontou centenas de estruturas militares ligadas ao grupo.

Drones baratos e eficazes

A arma que alterou o equilíbrio no campo de batalha foi introduzida cerca de um mês após o início da guerra. Trata-se de drones FPV com fibra óptica, indetectáveis por radar e, portanto, capazes de driblar o sistema de defesa Domo de Ferro de Israel.

Esse equipamento de baixo custo é operado no modo FPV (First Person View, ou "visão em primeira pessoa"), ao mesmo tempo em que permanece conectado ao operador por um cabo de fibra óptica extremamente fino, com extensão entre 5 e 20 quilômetros, desenrolado durante o voo em vez de utilizar uma ligação por rádio convencional.

O drone é equipado com uma câmera que permite registrar ataques com boa qualidade de imagem. As gravações, posteriormente divulgadas no contexto da guerra de comunicação, têm efeito direto sobre o moral de soldados e civis israelenses. O equipamento também carrega uma carga explosiva do tipo RPG-7, capaz de atingir alvos humanos e veículos blindados.

O uso desses drones pelo Hezbollah passou a interferir de forma significativa nas operações do Exército israelense no sul do Líbano. As tropas permanecem em alerta constante e enfrentam dificuldades para consolidar posições de forma duradoura.

Durante os 15 meses em que manteve uma atuação discreta, o grupo esteve envolvido em um processo amplo de reorganização de suas estruturas militares. Uma nova geração de comandantes, menos conhecida pelos serviços de inteligência israelenses, assumiu funções estratégicas.

Novos armamentos foram incorporados, depósitos de munição foram reabastecidos e cenários de guerra assimétrica passaram a ser estudados. Estimativas israelenses indicam que cerca de 100 operadores são responsáveis por conduzir os drones FPV, produzidos em oficinas clandestinas no território libanês.

Apoio generalizado da população xiita

O Hezbollah também continua a contar com o apoio expressivo da comunidade xiita, em todas as camadas sociais. O grupo recrutou e treinou milhares de novos combatentes, formados sob a doutrina xiita husseinista - referência ao terceiro imã Hussein, neto do profeta Maomé, morto em Kerbala, no atual Iraque, no ano 680 - , baseada na ideia de sacrifício e na exaltação do martírio.

O vínculo dos moradores do sul do Líbano e do Vale do Bekaa com o Hezbollah não se explica apenas por motivos religiosos. Entre seus apoiadores há xiitas não praticantes e até ateus, que veem no grupo o herdeiro de uma longa tradição de enfrentamento com Israel, construída ao longo de décadas.

Seus dirigentes são respeitados por terem, em grande medida, se mantido afastados do sistema político libanês, frequentemente associado à corrupção, e por darem exemplo ao enviar seus próprios filhos para o combate. Vários líderes perderam filhos em conflitos com Israel, entre eles Hassan Nasrallah, cujo filho mais velho, Hadi, morreu em 1997, durante a ocupação israelense do sul do Líbano.

Apesar da dimensão das perdas recentes, a maioria da comunidade xiita continua apoiando o Hezbollah. Mas, em caso de derrota, esse cenário pode mudar. É também por isso que o grupo mantém um alto nível de mobilização e determinação no confronto.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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