Como o ataque de 7 de outubro de 2023 mudou o destino da Palestina
Em três anos, mais de 74 mil palestinos foram mortos durante a guerra sem trégua conduzida por Israel desde o dia seguinte ao ataque de 7 de outubro, realizado pelo Hamas. O território palestino também foi consideravelmente reduzido.
Após os ataques de 7 de outubro de 2023, Israel intensificou a fragmentação territorial e a redução da Palestina. Com grande parte da Faixa de Gaza destruída e sob ocupação militar ampliada, ressurgem projetos para a recolonização da área. Na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a expansão de assentamentos ilegais, o confisco de terras e o deslocamento forçado de palestinos atingiram níveis recordes. Segundo especialistas, essas ações configuram uma anexação prática que inviabiliza um Estado palestino.
Anne Bernas, da RFI
"O que acontece em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental não são incidentes isolados, mas sim um projeto colonial malicioso destinado a tornar a vida dos palestinos mais difícil em sua própria pátria e a obrigá-los a deixá-la", declarou o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, na tribuna da ONU, em 24 de setembro.
Ao contrário do que ocorre com a maioria dos países, o mapa da Palestina não para de mudar. Nos livros de história, ela costuma ser representada em quatro momentos: sob mandato britânico, em 1946; após o plano de partilha da ONU, em 1947; entre 1949 e 1967; e na configuração atual, que continua sendo alterada.
Muito antes do 7 de outubro, a área representada no mapa da Palestina - Estado reconhecido por 158 dos 193 Estados-membros da ONU - já vinha diminuindo, enquanto o território israelense se expandia.
Os territórios palestinos compreendem a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza. Juridicamente, porém, não são três territórios distintos. A Corte Internacional de Justiça considera o território palestino ocupado uma "unidade territorial única", cuja unidade, contiguidade e integridade devem ser preservadas. Uma continuidade que, na prática, hoje não existe.
Ao fim da guerra israelo-árabe de 1948-1949, Israel havia conquistado 6 mil km² adicionais de território palestino em relação aos 14 mil km² atribuídos ao Estado judeu pelo plano de partilha. Hoje, o mapa palestino se resume a territórios dispersos.
O ataque israelense à Faixa de Gaza continua
Em três anos de guerra, cerca de 5% da população de Gaza foi morta. Quase 90% do enclave foi destruído, e uma parte significativa de seu território, de 365 km², foi perdida.
Israel retirou oficialmente seus colonos de Gaza em 2005, mas continuou a exercer controle militar sobre o território a partir do exterior. A Faixa de Gaza permanece considerada ocupada enquanto Israel controlar suas entradas e saídas por terra, mar ou ar.
Hoje, Israel controla 60% do enclave e pretende ampliar esse domínio.
"Durante 20 anos, falamos disso como um desejo sem perspectiva; hoje, isso também é um plano de ação realista (...). Gaza é uma parte indissociável da Terra de Israel", declarou, em 2025, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich.
Durante anos, Gaza permaneceu, na prática, como um território fechado e cercado, cuja colonização era defendida apenas pelos setores mais extremistas ou messiânicos da sociedade israelense.
"O principal foco de atenção era a Cisjordânia. Depois do 7 de outubro, o Exército entra na Faixa de Gaza e vemos ressurgir um fenômeno que era marginal nessa parte da Palestina: o retorno dos israelenses a Gaza por meio da colonização", analisa Thomas Vescovi, pesquisador de história contemporânea especializado em Israel e Palestina.
Hoje, um terço dos israelenses afirma ser favorável ao retorno da colonização do enclave.
No fim de maio, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou ter ordenado ao Exército que não respeitasse os termos do cessar-fogo, em vigor desde outubro de 2025, e que assumisse o controle de 70% de Gaza. "Agora controlamos 60% do território da Faixa. Vocês sabem, estávamos em 50%, passamos para 60%, minha diretriz é chegar a 70%", declarou durante uma conferência.
Antes da guerra, Gaza já era um dos territórios mais densamente povoados do mundo. Hoje, seus habitantes estão concentrados em apenas um terço do território original.
Para Vescovi, a entrada do Exército israelense em Gaza depois do 7 de outubro foi "a porta aberta para todos os crimes que vimos serem cometidos". Desde então, segundo ele, Netanyahu deixou clara sua posição: "Não vamos sair de Gaza".
"Quando se fala em plano de paz etc., isso não faz sentido em um contexto de negociação com Netanyahu. Seu objetivo é evidente: permanecer em Gaza", afirma.
Em 16 de setembro, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que o Exército estava pronto para "terminar o trabalho" em Gaza e depois esvaziar o território de seus dois milhões de habitantes.
Segundo Katz, o acordo de cessar-fogo negociado sob os auspícios dos Estados Unidos permitiu o retorno dos últimos reféns mantidos em Gaza e marcou o "compromisso" de Washington de desarmar o movimento islamista que controla o território. Mas, acrescentou, "o Exército está pronto, quando receber a ordem, para eliminar o Hamas, terminar o trabalho, para que também possamos implementar o plano de migração".
O futuro da Faixa de Gaza é, portanto, incerto. O mesmo vale para a Cisjordânia ocupada.
A Cisjordânia ocupada, cada vez mais anexada e fragmentada
Nos últimos três anos, a colonização da Cisjordânia ocupada atingiu um ritmo sem precedentes, acompanhado pelo aumento da violência. Ataques e incursões israelenses contra aldeias palestinas se multiplicaram.
O fenômeno não é recente, mas se acelerou a partir de 2023. No início deste ano, o Escritório de Direitos Humanos da ONU alertou para um possível processo de "limpeza étnica" nos territórios palestinos ocupados.
Em 8 de setembro de 2026, a França e outros 11 países anunciaram a intenção de restringir o comércio com as colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.
"Para compreender essa situação, é preciso levar em conta o episódio de 2021", explica Vescovi.
Naquele ano, ocorreram revoltas em várias cidades israelenses, e cidadãos árabes de Israel se manifestaram ao lado dos palestinos após episódios ocorridos na Esplanada das Mesquitas.
"Diante de um levante geral dos colonizados, Netanyahu vai restabelecer a ordem pela força. E é exatamente isso que acontece em 2023, mas essencialmente na Cisjordânia", afirma o pesquisador, que cita como exemplo o deslocamento das forças israelenses nas semanas e meses que antecederam o 7 de outubro.
Segundo uma contagem da AFP publicada no fim de junho de 2026, pelo menos 1.085 palestinos foram mortos por soldados ou colonos israelenses, e mais de 40 mil foram deslocados à força. O crescimento das colônias israelenses atingiu, em 2025, o nível mais alto desde o início do monitoramento da ONU, em 2017.
A organização israelense Peace Now informa que 146 colônias consideradas ilegais na Cisjordânia e outras 15 em Jerusalém Oriental foram estabelecidas nos últimos dois anos. Elas abrigam cerca de 750 mil israelenses, além de quase 400 postos avançados.
Em julho de 2026, o Exército israelense assinou pelo menos 15 ordens de confisco de terras nas zonas A e C da província de Jenin.
As terras da zona A estão sob controle das autoridades palestinas desde os Acordos de Oslo. Na zona B, os palestinos administram os assuntos civis e Israel responde pela segurança. A zona C está sob controle exclusivo de Israel.
"Com um projeto como esse, Israel fragmenta deliberadamente o território, destrói as comunidades palestinas e impede sua liberdade de circulação", alertou a Anistia Internacional.
Para o Peace Now, essas práticas conduzem Israel em direção a uma "anexação não declarada dos territórios palestinos".
A colonização, porém, não se resume à construção de assentamentos. Ela envolve também a apropriação de recursos naturais e processos econômicos que beneficiam os colonos em detrimento da população palestina.
"Como se, no fundo, a colonização ali estabelecida pudesse continuar. Assim, os colonos violentos mais determinados têm, de certa forma, espaço livre para agir como quiserem. Eles sabem que têm o apoio do governo e do Exército", analisa Jean-Paul Chagnollaud, professor emérito e presidente honorário do Instituto de Pesquisa e Estudos sobre o Mediterrâneo e o Oriente Médio (iReMMO).
O governo israelense também decidiu lançar o projeto E1, uma expansão de assentamentos entre Ma'aleh Adumim e Jerusalém que dividiria a Cisjordânia em duas, tornando, na prática, impossível a criação de um Estado palestino.
O projeto é considerado uma "linha vermelha" pela comunidade internacional.
Um ponto de não retorno?
Em Jerusalém Oriental, ocupada desde 1967 e anexada à força em 1980, a colonização também se intensificou desde o 7 de outubro. Os palestinos reivindicam essa parte da cidade, sagrada para as três religiões monoteístas, como capital do futuro Estado ao qual aspiram.
"As autoridades israelenses intensificam sua política ilegal de longa data destinada a expulsar os habitantes palestinos dos bairros ao redor da Cidade Velha de Jerusalém para substituí-los por colonos israelenses", afirmou a Human Rights Watch em junho.
"Essas medidas israelenses destinadas a modificar a demografia de Jerusalém constituem crimes de guerra, possibilitados pela impunidade concedida pelos aliados próximos de Israel."
Em uma opinião consultiva emitida em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou que as políticas e práticas israelenses, incluindo os assentamentos, as expulsões forçadas e as demolições em massa de casas, violavam a proibição da transferência forçada de uma população protegida prevista no artigo 49 da Quarta Convenção de Genebra.
Segundo o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, deportar ou transferir parte ou a totalidade da população de um território ocupado, para dentro ou para fora dele, constitui crime de guerra quando praticado por uma potência ocupante.
"Essa vontade de fragmentar, de separar, é realmente uma estratégia que sempre existiu do lado israelense, mas que se alimentou, se fortaleceu e se intensificou ao longo de pelo menos duas décadas, e ainda mais desde o 7 de Outubro", afirma Vescovi.
Para o especialista, Netanyahu é "alguém perfeitamente consciente do dano que está causando atualmente aos palestinos": "Ele sabe que será pressionado e condenado. Mas, na história de Israel, será lembrado por ter resolvido um problema que ninguém havia conseguido resolver antes. Em Israel, os pioneiros de 1948, que fundaram o Estado, são idolatrados, sem que sejam levados em consideração os 800 mil palestinos expulsos de suas casas."
"Talvez, se Netanyahu conseguir vencer sua aposta, ele seja celebrado no futuro como aquele que resolveu o problema de Gaza e da Cisjordânia. Existe uma forma de continuidade."
"Chegamos hoje a um ponto de não retorno e, quanto mais cedo percebermos isso, mais cedo conseguiremos ser pragmáticos nas soluções políticas que estamos considerando para essa região e, sobretudo, nas ações políticas necessárias para alcançá-las. Esse é, na realidade, o principal desafio", conclui Vescovi.
"Se quisermos realmente um Estado palestino, será necessário impor, pela força, por meio de sanções etc., uma pressão significativa sobre Israel, uma pressão que hoje nenhum aliado ocidental parece disposto a exercer."
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