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Avanço da ultradireita marca primeiro ano do governo Merz

6 mai 2026 - 08h41
(atualizado às 08h51)
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Em maio de 2025, Friedrich Merz assumiu o governo da Alemanha convicto de que conseguiria colocar o país nos trilhos e frear o avanço da AfD. Um ano depois, coalizão dele está em crise, e ultradireita avança.Um ano atrás, Friedrich Merz era eleito chanceler federal da Alemanha pelo Bundestag (Parlamento alemão). Ele tinha uma clara ideia do que queria: acima de tudo, fazer as coisas de forma diferente do seu antecessor, Olaf Scholz, cujo governo acabou paralisado pelas brigas internas entre os partidos da coalizão e acabou fracassando.

"É dever do chanceler federal garantir que as divergências dentro de seu gabinete sejam resolvidas internamente", disse Merz antes de assumir
"É dever do chanceler federal garantir que as divergências dentro de seu gabinete sejam resolvidas internamente", disse Merz antes de assumir
Foto: DW / Deutsche Welle

Restaurar a capacidade de ação do governo começa "com o fim das constantes disputas internas públicas", havia dito Merz. "É dever do chanceler federal garantir que as divergências dentro de seu gabinete sejam resolvidas internamente e que as decisões sejam então apresentadas ao público em conjunto."

Um governo unido e eficiente seria também a melhor resposta ao avanço do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), que havia emergido das urnas como o mais forte da oposição.

Um ano depois, nada disso é realidade. O governo Merz é marcado pelas constantes disputas internas públicas entre os conservadores da União Democrata Cristã (CDU) e de sua legenda-irmã, a União Social Cristã (CSU), e o Partido Social‑Democrata (SPD), o parceiro minoritário da coalizão, a ponto de a maioria dos alemães achar que o governo Merz vai se dissolver antes do fim do mandato. E a AfD lidera nas mais recentes pesquisas eleitorais, à frente da CDU, o partido de Merz.

Imigração em queda, mas sem ganhos para Merz

Quando assumiu o cargo, Merz estava convencido de que uma postura rígida do governo em relação à imigração minaria o avanço da AfD. Um ano depois, o governo de fato tem resultados a apresentar. A mudança na política migratória levou a uma diminuição significativa nos números de imigrantes que chegam à Alemanha, e Merz vê isso como um sucesso do seu governo.

Só que esse resultado não está se refletindo em sua popularidade nas pesquisas - o que não surpreende especialistas. "Estudos de ciência política mostram que, quando um governo coloca a questão da migração na agenda e se alinha assim com as posições de partidos populistas de direita ou adota a retórica deles, isso geralmente fortalece os populistas de direita", explica o professor de ciência política Marc Debus, da Universidade de Mannheim.

Essa lógica independe de as mudanças introduzidas na política migratória de Merz terem produzido resultados mensuráveis, afirma Debus. E mais: "O que sabemos, por meio de pesquisas, é que conflitos dentro dos governos levam à percepção de que os partidos e o governo como um todo são menos competentes para resolver problemas importantes", acrescenta.

Brigas entre os parceiros da coalizão

O governo Merz começou com uma "folga" de dez meses sem eleições estaduais pela frente - e assim sem a pressão por mostrar resultados que costuma anteceder a ida dos eleitores às urnas. Eram condições ideais para governar.

O que foi aprovado rapidamente - na verdade já em março, ainda antes de o governo começar, para aproveitar a maioria parlamentar de então - foi um "Fundo Especial para Infraestrutura" de 500 bilhões de euros para renovar vias de transporte (ferroviário, rodoviário, hidroviário), expandir a infraestrutura energética e reformar escolas e hospitais. Esse endividamento enorme contradizia promessa de campanha de Merz e gerou críticas em setores dos partidos conservadores.

E essa insatisfação seria uma das explicações para a primeira crise do governo, antes mesmo de ele tomar posse. Merz não foi eleito pelos parlamentares já na primeira votação no Bundestag, algo inédito, e precisou de uma segunda votação - o que deixou bem claro, para o governo, quão pequena é a sua maioria de 12 votos no parlamento.

As diferenças entre os parceiros de coalizão ficaram claras numa questão que deveria ser mera formalidade: a eleição de um juiz para a suprema corte alemã. A candidata indicada pelo SPD não foi aceita por setores dos conservadores, o que deu início a uma disputa de fundo ideológico que durou meses.

Enquanto isso, as reformas prometidas estavam paradas em comissões. O "outono das reformas", anunciado por Merz para o segundo semestre de 2025, com mudanças em aspectos centrais do estado de bem-estar social alemão, como aposentadorias, saúde, assistência social e redução da burocracia, não se concretizou, e o governo começou o ano de 2026 - este, sim, com várias eleições estaduais - sem ter implementado nenhuma das suas principais reformas.

As primeiras eleições, na Renânia-Palatinado e em Baden-Württemberg, se transformaram num duplo desastre para o SPD. A CDU também não saiu ilesa, perdendo, na reta final, o que parecia uma vitória certa para o Partido Verde em Baden-Württemberg.

E aí veio a próxima guerra. O presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou os ataques ao Irã, mergulhando não só a Alemanha, mas o mundo todo numa crise energética que só piorou a situação já difícil da economia alemã.

Difícil imaginar situação pior

E assim chega-se à situação atual - difícil imaginar algo pior. Diante do possível cenário de uma crise econômica global, dois parceiros de coalizão enfraquecidos pelas urnas, pelas brigas internas e pelo avanço da ultradireita nas pesquisas precisam levar adiante os seus principais projetos de reforma sob imensa pressão de tempo.

O governo precisa entregar resultados até o início de setembro, quando ocorre a próxima eleição estadual, na Saxônia-Anhalt, no Leste Alemão. Nesse estado a AfD lidera em todas as pesquisas, com índices que se aproximam dos 40%.

Os eleitores têm sido duros com Merz e seu governo. Nenhuma sondagem dá uma maioria parlamentar para um governo de CDU/CSU e SPD, e os índices de aprovação do chanceler federal estão em constante declínio. Segundo uma pesquisa do instituto Forsa divulgada nesta quarta-feira (06/05), apenas 13% dos alemães estão satisfeitos com o desempenho de Merz, enquanto 85% estão insatisfeitos. Se for considerado o governo federal como um todo, a proporção é de 11% para 87%.

Quem ganha é a AfD

A mesma pesquisa coloca a AfD na liderança da preferência do eleitorado alemão, com 27%, à frente da CDU/CSU com 22%. O Partido Verde soma 16%, quatro pontos percentuais à frente do SPD, que permanece inalterado em 12%.

Cientistas políticos alemães vêm chamando a atenção para um fenômeno: enquanto os principais partidos políticos vêm perdendo seus eleitores tradicionais e têm dificuldades para angariar novos, a AfD mantém uma base fiel, que permanece leal ao partido independentemente dos acontecimentos ou de escândalos envolvendo suas principais figuras, e vê seu eleitorado crescer, sobretudo entre os jovens.

A AfD não depende mais exclusivamente do voto de protesto. O partido, que é, em parte, considerado extremista de direita pela autoridade de vigilância constitucional da Alemanha, é um dos principais beneficiados com a crise do governo de Friedrich Merz, apenas um ano após o seu início.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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