Assassino de ex-premiê japonês Abe é condenado à prisão perpétua
Homem de 45 anos matou Shinzo Abe a tiros em 2022, durante um evento público
Tetsuya Yamagami foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato do ex-premiê japonês Shinzo Abe em 2022, crime que gerou comoção no Japão, expôs laços políticos com a Igreja da Unificação e motivou mudanças nas leis de armas.
O homem que matou a tiros o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, Tetsuya Yamagami, foi condenado à prisão perpétua nesta quarta-feira (21/01), três anos e meio depois do crime.
Yamagami, de 45 anos, foi acusado de disparar contra Abe - que tinha deixado o cargo dois anos antes - com uma arma caseira durante um comício de campanha em 8 de julho de 2022, em Nara, perto de Kyoto.
No início do julgamento, em outubro, Tetsuya Yamagami assumiu ter matado Abe. Os promotores do caso haviam pedido a prisão perpétua, dizendo que se tratava de um crime sem precedentes na história pós-Guerra do Japão e mencionando "consequências extremamente graves" para a sociedade.
A equipe de defesa de Yamagami disse que ainda não havia decidido se iria recorrer, o que, segundo o sistema jurídico japonês, deve ser feito em até duas semanas.
No Japão, essa sentença deixa em aberto a possibilidade de liberdade condicional, embora, na prática, muitos condenados morram na prisão, de acordo com especialistas.
Seita cristã Moon
O assassinato de Abe provocou comoção num país onde crimes com armas de fogo são extremamente raros e levou ao escrutínio sobre supostas ligações entre políticos conservadores e uma seita secreta, a Igreja da Unificação, bem como de práticas dessa organização religiosa, acusada de exercer pressão financeira sobre os seguidores.
Os promotores argumentaram que o motivo do réu para matar Abe estava enraizado em seu desejo de atingir a Igreja da Unificação.
O julgamento, que durou meses, destacou como doações da mãe de Yamagami para a igreja levaram sua família à falência e como ele passou a acreditar que "políticos influentes" estavam ajudando a igreja a prosperar. Abe havia discursado em eventos organizados por alguns dos grupos da igreja.
A Igreja da Unificação foi fundada na Coreia do Sul em 1954, e seus membros são apelidados de Moonies em referência ao fundador, Sun Myung Moon. A organização rapidamente se aproximou de políticos influentes, entre eles o ex-presidente dos EUA Richard Nixon.
O Ministério Público detalhou, durante uma audiência em outubro, que Yamagami desenvolveu um profundo ressentimento em relação à organização. "Pensou que se matasse alguém tão influente quanto o ex-primeiro-ministro Abe, poderia atrair a atenção pública para a igreja", disse a acusação no início do julgamento.
Os advogados de defesa relembraram o suicídio do pai de Yamagami, quando este tinha 4 anos, e a impotência do filho ao ver a mãe, desesperada, a procurar consolo na Igreja da Unificação.
A mãe doou perto de 100 milhões de ienes (R$ 3,4 milhões) à organização, levando a família à ruína financeira. Yamagami foi forçado a desistir de seus estudos superiores. Em 2005, ele tentou tirar a própria vida. A morte do irmão, dez anos antes, foi considerada suicídio.
"Ele começou a pensar que toda a sua vida havia sido arruinada" pela Igreja da Unificação, afirmou um dos advogados.
A investigação revelou laços estreitos entre a Igreja da Unificação e vários membros do Partido Liberal Democrático (PLD, nacionalista de direita) no Japão, levando à renúncia de quatro ministros.
Uma investigação interna do PLD, em setembro de 2022, mostrou que metade de 379 membros do Parlamento tinham ligações com a Igreja da Unificação.
Em abril de 2025, um tribunal ordenou a dissolução da filial japonesa da organização, argumentando com "danos sem precedentes" causados à sociedade japonesa.
O assassinato de Abe também evidenciou falhas no sistema de segurança. Violência com armas de fogo é tão rara no Japão que os agentes da polícia não identificaram imediatamente o som do primeiro disparo e intervieram tarde demais.
A tragédia levou ao endurecimento das leis de armas no Japão em 2024. Partilhar instruções sobre fabricação de armas ou informações sobre a venda de armas nas redes sociais é punível com até um ano de prisão.
as (Lusa, AFP, AP)