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América Latina

Um ano de intimidação estratégica: como Donald Trump redefiniu a política externa dos EUA

Nesta terça-feira (20) faz um ano que o presidente norte-americano, Donald Trump, retornou à Casa Branca, e as piores previsões sobre a virulência do republicano se confirmam. Em 12 meses, ele redesenhou a política externa dos Estados Unidos com o retorno do uso explícito da força, o resgate de práticas intervencionistas e uma estratégia de intimidação permanente - inclusive contra aliados. Em entrevista à RFI, o professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da UnB, analisa esse primeiro ano do segundo mandato de Trump e afirma que há método por trás do caos.

19 jan 2026 - 17h19
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O método da desestabilização é, segundo o especialista da Universidade de Brasília, a chave para compreender o comportamento de Trump. "Sim, há um método nesse processo e a lógica é de desestabilização", resume Antonio Jorge Ramalho. O objetivo é manter todos - governos estrangeiros, atores econômicos e até aliados - "sempre na defensiva e divididos", o que inviabiliza qualquer articulação consistente para conter os movimentos do governo americano. Não se trata de uma estratégia de longa duração, afirma: "Não há uma visão de mundo por trás disso. É um processo de atuação tático".

O bombardeio contínuo de fatos e informações constitui a engrenagem central dessa tática. "Trump cria uma grande quantidade de informações, de fatos, de possibilidades, que obriga as pessoas a pararem tudo o que estão fazendo para reagir." Nesse processo de saturação, ele consegue impor sua agenda de curto prazo. "Pode ser desde fechar um negócio para a família, conseguir um presente milionário, movimentar os mercados - anuncia uma coisa de manhã e as ações caem; à tarde anuncia outra e elas sobem. Tudo isso permeado por inside information", afirma o professor, que descreve o método como "pressão permanente com objetivos discretos, transacionais e imediatos". "Ele circula para quem lhe financiou a campanha ou por seus próprios braços no mercado financeiro, e faz dinheiro com isso."

Convicções profundas, mas sem estratégia de longo prazo

O professor identifica, no entanto, dois pilares ideológicos que sustentam essas ações. O primeiro é a concepção de poder sem limites. "Ele tem a convicção de que o poder deve ser exercido sem freios e sem cerimônias", afirma. Para Trump, a ampla capacidade militar, econômica e política dos Estados Unidos deve servir ao engrandecimento nacional - "mas não pelo país em si". Trata-se de proteger e ampliar os interesses da parcela da sociedade "que dá as cartas", e que sustenta politicamente o republicano.

O segundo pilar é a crença nas tarifas como instrumento central de política externa, herança de um pensamento mercantilista anacrônico. "É uma visão do século 19 em curso no século 21", diz Antonio Jorge Ramalho. A imposição de tarifas seria, na visão trumpista, uma forma de aquisição de riqueza e poder. Mas, apesar de fornecer ganhos imediatos, produzirá efeitos negativos. "Vai reduzir no longo prazo o comércio e a eficiência da economia americana e global." Ainda assim, o curto prazo se impõe: "Ele consegue retornos palpáveis, e é isso que o orienta."

América Latina e a intervenção na Venezuela

O sequestro do venezuelano Nicolás Maduro por militares americanos, nos primeiros dias do ano, surpreendeu o governo brasileiro e motivou questionamentos na opinião pública sobre a possibilidade de novas ações semelhantes no continente. Entretanto, o professor da UnB afirma que a própria impossibilidade de prever os próximos passos é parte essencial da tática trumpista. "Não dá para saber, e não ficará claro, porque o método consiste justamente em alimentar a ambiguidade", explica. 

A fragilidade da estratégia de defesa brasileira

Antonio Jorge Ramalho é categórico ao afirmar que a Estratégia Nacional de Defesa do Brasil não está ajustada ao novo cenário regional. "A nossa estratégia precisa ser revista." O principal problema é a dependência estrutural das Forças Armadas brasileiras em relação aos Estados Unidos. "Há uma dependência visceral. A doutrina, os equipamentos, a formação - tudo é baseado no padrão OTAN."

Essa dependência cria um impasse. "Se houver alguma grande confusão global, na mente dos estrategistas militares brasileiros, nós estaríamos juntos aos Estados Unidos, como estivemos na Segunda Guerra Mundial. Seria uma nova etapa, digamos, de uma cooperação e de uma relação de confiança. Pois bem, essa relação de confiança não existe mais ou não deve existir mais do ponto de vista dos militares brasileiros. Mas é muito difícil você mudar a mentalidade deles", afirma o analista em defesa. 

Além disso, os militares brasileiros continuam orientados por uma doutrina voltada para um inimigo interno inexistente, o que limita a preparação para ameaças externas - inclusive provenientes dos EUA. "Eles vão ter que começar a olhar para fora e se preparar para defender o país de uma ameaça externa, que pode ser os Estados Unidos."

A revisão dos documentos de defesa terá de priorizar a autonomia estratégica: "Você só vai ter segurança se desenvolver suas próprias armas e sua base logística. Nós não temos isso", aponta. 

Diante do precedente aberto na Venezuela e das reiteradas ameaças de Donald Trump de anexar a Groenlândia, o governo brasileiro voltou a discutir internamente a necessidade de ampliar os investimentos no Ministério das Forças Armadas. A ilha, território autônomo do Reino da Dinamarca, é vista por Washington como um ativo estratégico no Ártico - tanto por sua localização quanto por suas reservas de minerais críticos. Nessa perspectiva, o Brasil também possui riquezas que podem atrair interesses externos.

Alianças regionais e fortalecimento do multilateralismo

A reconstrução da política de defesa brasileira passa também pelo fortalecimento das alianças regionais e do multilateralismo. "Não, não há como fazer isso sem apoio dos vizinhos. Tem que haver uma construção", afirma.

O professor compara o Brasil à Europa Ocidental, que hesitou em reconhecer a ameaça representada por Trump, mas agora reage: "Ninguém queria estar fazendo isso, mas se deram conta de que o antigo aliado pode ser uma ameaça."

Na avaliação de Antonio Jorge Ramalho, que colaborou no passado com a implementação da Estratégia Nacional de Defesa e dirigiu a Escola de Defesa da Unasul, o Brasil deve se aproximar de países que compartilham valores democráticos e que defendem normas internacionais legítimas - valores que os EUA, no governo Trump, já não sustentam. 

"Este governo é um promotor e resultado de uma mudança mais profunda que vem acontecendo na sociedade americana, que está se tornando mais arbitrária, mais discriminatória, mais autoritária, mais fundamentalista, inclusive de um ponto de vista religioso, um fundamentalismo cristão mais profundo." 

O recente documento de segurança nacional produzido por Washington seria, segundo o especialista da UnB, "algo que poderia ter sido escrito pelo Hezbollah ou pelos talibãs", tamanha a carga de excepcionalismo religioso.

O analista afirma que a imagem norte-americana no mundo ocidental é hoje predominantemente negativa. "É uma visão de que não se pode confiar." A ordem liberal construída no pós-guerra dependia de confiança - algo que Trump destrói. "Muita gente não quer acreditar que isso acabou, porque era uma ordem muito próspera. Mas ele só enxerga o custo, não os benefícios que os Estados Unidos receberam dessa ordem."

Para onde deve olhar o Brasil

O acordo Mercosul-União Europeia se torna ainda mais relevante nesse cenário. "É um pacto em torno de valores e princípios", afirma, destacando que a proteção dos direitos individuais e a preocupação com a segurança humana estão no centro do acordo. A aproximação com a Europa representa, portanto, um contraponto à ascensão de blocos autoritários. "Temos uma ordem alternativa a fortalecer", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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