Quando o legado de Pelé, o rei do futebol, se torna uma arma pela igualdade
Filha mais velha da lenda do futebol, Edson Arantes do Nascimento, Kely Nascimento compartilha a mesma paixão pelo esporte. Morando em Nova York desde meados da década de 1970, Kely, que trabalhava com projetos artísticos, tornou-se aos poucos uma ativista, uma voz importante para o futebol e para o esporte feminino em geral, e sua experiência é solicitada em diversas partes do mundo.
Filha mais velha da lenda do futebol, Edson Arantes do Nascimento, Kely Nascimento compartilha a mesma paixão pelo esporte. Morando em Nova York desde meados da década de 1970, Kely, que trabalhava com projetos artísticos, tornou-se aos poucos uma ativista, uma voz importante para o futebol e para o esporte feminino em geral, e sua experiência é solicitada em diversas partes do mundo.
Michaël Oliveira da Costa, correspondente da RFI em Nova York
A história de amor entre Kely Nascimento e o futebol parece ser algo natural. Filha mais velha de Pelé, a lenda dos campos, ela está imersa no esporte desde a infância. Mas, após uma trajetória de vida marcada por descobertas e paixões diversas foram necessários mais de 30 anos para que ela se envolvesse plenamente com o futebol, usando a modalidade como ferramenta de combate às desigualdades enfrentadas pelas mulheres e para promover melhor os esportes femininos.
Nascida em Santos, no estado de São Paulo, Kely teve uma infância tranquila, apesar da fama do pai, que fazia as defesas do mundo inteiro perderem a cabeça. "Nos anos 1970, a vida de uma celebridade não era como hoje!", ela ri. "Tínhamos uma vida muito normal, íamos à praia, vivíamos uma rotina bem básica. Eu sabia que meu pai era um ídolo, mas nunca ia ao estádio, e o contexto da ditadura também não permitia viver sob os holofotes", explica.
Seu pai estava se aproximando do fim da carreira e, em 1975, recebeu uma proposta do New York Cosmos, que estava recrutando grandes estrelas do futebol mundial. Toda a família viajou rumo aos Estados Unidos, destino: Nova York. "Minha mãe ficou super feliz, porque queria viver algo diferente, e nossa chegada ao país foi uma enorme revelação: uma cidade gigantesca, os prédios, a liberdade de expressão e uma abertura para o mundo que nunca tínhamos tido antes. Vir para cá foi um choque, no melhor sentido da palavra", ela relembra.
O desejo de se engajar, de agir pelos outros
Ela e os irmãos estudaram na escola das Nações Unidas, a maior escola internacional da cidade, e Kely se abriu para outras culturas e para a imensa criatividade que Nova York oferecia. Apaixonou-se pela arte — de Warhol a Basquiat — e as conversas em casa sobre questões sociais, como discriminação e a luta pelos direitos das mulheres, despertaram nela o desejo de se engajar, de agir pelos outros. "Naquela época, eu não pensava em futebol, era apaixonada por arte e, depois dos estudos, trabalhei para a cidade e diversas instituições promovendo arte em bairros populares. Eu já era ativista", explica.
Mas em 2012, seu cunhado lhe falou sobre uma jovem que vive no Brasil e que estava fazendo sucesso jogando em um time de futebol masculino, sonhando em mudar de vida através do esporte. E foi assim que a vida de Kely voltou a girar em torno da bola. "Comecei a ajudá-la. Sem ela, talvez eu nunca tivesse voltado ao mundo do futebol. Foi um momento decisivo que me impulsionou a me envolver com esse esporte, sem imaginar que hoje eu seria uma das vozes influentes no futebol feminino e na luta contra as desigualdades de gênero no esporte", explica a brasileira.
Kely ainda não sabia que seu futuro estava definitivamente ligado ao futebol, mas decidiu se engajar de corpo e alma nessa missão. Sem rede de contatos, ela inicialmente escolheu não usar o status de "filha de Pelé" para avançar em suas causas. "Foi um pouco difícil, porque eu não gostava disso e não queria jogar essa carta 'Pelé'", relembra. "Mas depois de um tempo, percebi que isso poderia me ajudar, e que era necessário, ao mesmo tempo em que ajudava a preservar o legado do meu pai, tentar promover iniciativas construtivas usando seu nome, como a luta pela igualdade de gênero no futebol e no esporte em geral."
Uma voz indispensável no futebol feminino
Ela decidiu, então, criar uma empresa chamada The Impact Game, que ajuda atletas e instituições esportivas a se envolverem nas questões sociais. Logo começou a receber convites para falar sobre o papel das mulheres no esporte em grandes instituições, como a Embaixada da França nos Estados Unidos, a FIFA, e também a poderosa ONG Laureus, que apoia centenas de projetos de desenvolvimento através do esporte ao redor do mundo. Também foi convidada pela Universidade Cornell, pelo Catar, pelo Brasil, e pelo TedxTalk para organizar debates sobre diplomacia e emancipação feminina por meio do esporte.
Assim, Kely se aproximou de estrelas do futebol feminino mundial, como as lendárias Formiga e Marta, e se tornou uma voz indispensável no cenário, uma ativista influente no meio esportivo. Mulher multifacetada, ela também produz e dirige o documentário Warriors of the Beautiful Game (Guerreiras do Jogo Bonito), com lançamento previsto para este ano, e recentemente se juntou à fundação HADAF Global (Catar), uma rede de consultores que promove o desenvolvimento por meio de projetos ligados ao esporte.
"Ninguém nunca me obrigou a estar nessa posição, mas me sinto como um peixe na água", diz ela. "Ser ativista, curiosa e lutar contra as desigualdades sempre me apaixonou, e sinto que posso ajudar a fazer a diferença. E vou continuar lutando, sempre."
Nomeada responsável por projetos sociais esportivos voltados à promoção de minorias nos estados de Nova York e Nova Jersey para a Copa do Mundo de 2026, que será realizada parcialmente nos Estados Unidos, Kely sabe que ainda há muito trabalho pela frente, apesar dos avanços conquistados na última década. "Muita coisa mudou: as jogadoras da seleção nacional recebem os mesmos salários que os homens, há mais bolsas de estudo para meninas, e o campeonato feminino gera cada vez mais receita. Tudo isso é sinal de crescimento e de que a sociedade apoia o esporte feminino", enfatiza. "Mas ainda há muito caminho pela frente, e quero ajudar para que essa causa continue avançando".