Script = https://s1.trrsf.com/update-1781903735/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

América Latina

Publicidade

No Peru, jovens indígenas pedem reconhecimento do 'genocídio da borracha'

Um coletivo de jovens de comunidades indígenas apresentou uma petição ao sistema judiciário peruano para exigir a criação de uma Comissão da Verdade e investigar o "genocídio da borracha". Há um século, o ciclo da borracha no país causou a morte de dezenas de milhares de indígenas, que foram submetidos à escravidão.

28 jun 2026 - 11h15
Compartilhar
Exibir comentários

Martin Chabal, enviado especial da RFI a Iquitos

Pintura mural em Iquitos, no Peru, pede uma Comissão da Verdade sobre o genocídio da borracha, entre os séculos 19 e 20.
Pintura mural em Iquitos, no Peru, pede uma Comissão da Verdade sobre o genocídio da borracha, entre os séculos 19 e 20.
Foto: © Martin Chabal/RFI / RFI

Todas as tardes, em Iquitos, o canto dos pássaros e o ruído das motocicletas se misturam às vozes dos guias que apresentam a cidade a grupos de turistas. Entre as atrações, estão edifícios revestidos de azulejos e com sacadas de ferro, em estilo Art Nouveau, além de um grande barco a vapor branco ancorado às margens do rio Amazonas.

Não muito longe dali, Sandro Apagueño, morador local e guia turístico há uma década, prefere apresentar uma imagem diferente: "Eu os levo a este mural e os faço refletir, porque a maioria deles não conhece os detalhes do que aconteceu aqui".

O mural retrata uma mulher de uma comunidade nativa envolta por duas seringueiras, das quais escorre uma resina branca. Ela segura uma placa com os dizeres "Comissão da Verdade".

Cidade 'construída sobre o sofrimento' 

A bela arquitetura testemunha o apogeu de Iquitos - uma época em que a cidade, apesar de isolada no meio da Amazônia peruana (e ainda hoje acessível apenas por barco ou avião), viveu uma era de ouro impulsionada pela borracha, assim como o norte do Brasil.

No início do século 20, com a indústria automobilística europeia em plena expansão, empresários britânicos, portugueses e franceses chegaram em grande número para estabelecer negócios de extração de látex, a matéria-prima da borracha, obtida a partir da resina de árvores da floresta amazônica.

"Quero que os estrangeiros que visitam o local saibam que Iquitos oferece mais do que apenas paisagens para admirar: a cidade foi construída sobre sofrimento, morte, escravidão, estupro e tráfico de pessoas", explica Sandro Apagueño.

Por trás do progresso e do crescimento econômico impulsionados pelo ciclo da borracha, esconde-se uma realidade mantida em silêncio por muito tempo - uma realidade que o coletivo Tsiuni, formado por descendentes de povos indígenas, busca trazer à luz.

Comissão da Verdade 

"Quando pedi para o meu avô me contar o que o pai dele havia passado, ele começou a chorar", relata Omar Navarro, membro do coletivo, de 19 anos. "Ele me contou que, quando era criança, seu pai saía de casa de janeiro a outubro para trabalhar nas terras de seu patrão. E, quando voltava, suas costas estavam cobertas de marcas de chicote". Embora os sobreviventes daquela época já tenham falecido, suas histórias permanecem vivas nas famílias.

O coletivo Tsiuni, cujo nome significa "escutar" na língua Kukama, trabalha para reunir esses relatos. Cerca de 40 depoimentos, como o do avô de Omar, já foram coletados.

O coletivo, formado principalmente por jovens, apresentou uma petição à Justiça peruana solicitando a criação de uma Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos contra as populações indígenas durante o ciclo da borracha. Mais do que uma exigência de justiça ou reparação, trata-se de um apelo pelo reconhecimento do sofrimento passado.

"Queremos mudar a narrativa, mostrar que aquilo não foi apenas um boom econômico, mas um genocídio", explica Omar. Historiadores estimam que cerca de 100 mil pessoas foram mortas ou deslocadas entre as décadas de 1880 e 1920.

Alertas ignorados 

O coletivo também busca abrir um debate sobre o lugar que a era do ciclo da borracha ainda ocupa na cidade de Iquitos. "Algumas ruas ainda levam o nome de César Arana, um dos barões da borracha, embora ele seja considerado o diabo em nossas comunidades", argumenta Omar.

O Peru permaneceu em silêncio por muito tempo sobre esse passado doloroso. No entanto, já na década de 1910, intelectuais alertavam as autoridades peruanas sobre o que estava acontecendo em Iquitos. "Essas atrocidades eram conhecidas e descritas como genocídio na época", observa Tomas Miranda, doutor em antropologia.

"Grandes intelectuais nacionais, como José Carlos Mariátegui, manifestaram-se contra elas com muitos detalhes". Em 1912, diplomatas britânicos elaboraram um relatório sobre os crimes cometidos nas plantações de borracha. "Tive a oportunidade de ler partes do livro El Marañón e do Blue Book, em inglês, e li sobre atrocidades que não se encontram em jornais, vídeos ou mesmo no Google", lamenta o guia Sandro Apagueño. Embora o relatório contenha evidências, ele só foi traduzido para o espanhol em 2012, um século após sua publicação.

Garimpo: a nova ameaça 

Esse movimento de reconhecimento da história dos povos indígenas da Amazônia é impulsionado pelas circunstâncias atuais. "Hoje, não temos mais o comércio da borracha, mas temos o garimpo ilegal. Há muito ouro na Amazônia, e sua extração segue a mesma lógica de desenvolvimento econômico baseado na exploração de matérias-primas muito procuradas pelo mercado internacional", observa Tomas Miranda.

Na última década, ao menos 35 lideranças indígenas foram assassinadas no Peru por defenderem seus territórios contra a extração ilegal de madeira ou o garimpo ilegal de ouro. O país é atualmente considerado o quarto mais perigoso do mundo para defensores do meio ambiente, com comunidades nativas sendo alvo específico.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra