Script = https://s1.trrsf.com/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

América Latina

Publicidade

'A Bolívia não deve se submeter nem se comprometer com os EUA', diz Evo Morales

O ex-presidente boliviano Evo Morales, que governou o país entre 2006 e 2019, vive há dois anos recluso em seu reduto político no Trópico de Cochabamba, no centro da Bolívia. Procurado pela Justiça em uma investigação por suposto tráfico de menor, Morales rejeita as acusações e afirma que o processo tem motivação política. Em entrevista exclusiva à RFI, ele também criticou duramente o governo do atual presidente, Rodrigo Paz, e a aproximação de La Paz com os Estados Unidos.

15 out 2026 - 12h37
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Recluso em Cochabamba sob mandado de prisão por suposto tráfico de menor, o ex-presidente Evo Morales nega o crime e alega perseguição política. Ele condena a guinada à direita do governo de Rodrigo Paz, criticando a submissão militar e econômica da Bolívia aos EUA. Morales também defende seu legado econômico focado em nacionalizações, rejeita culpas pela crise energética atual e prefere atuar como líder e coordenador eleitoral dos movimentos sociais em vez de antecipar uma candidatura para 2030.

Nils Sabin, da RFI

RFI: Evo Morales, já faz dois anos que o senhor está recluso em seu reduto no Trópico de Cochabamba, no centro da Bolívia. Um juiz do departamento de Tarija emitiu um mandado de prisão contra o senhor por tráfico de menor. Voltaremos a esse assunto. Em alguns aspectos, sua rotina poderia ser comparada à de um fugitivo. É esse o caso?

Evo Morales: Às vezes, fontes militares ou policiais nos informam que existem planos para me prender. Por exemplo, no dia 13 de junho, o atual ministro da Defesa disse: "No dia 13, Evo deve ser preso, vivo ou morto". Então, quando recebemos esse tipo de informação, eu saio pouco daqui. E, quando nos informam que os grupos de inteligência se retiraram, então saio para participar de reuniões, trabalhar. Mas essas informações, não quero falar sobre elas, por razões de segurança.

RFI: O senhor se recusa a atender a uma convocação judicial no âmbito de uma investigação por tráfico de menor. O senhor é acusado de ter tido uma relação com uma menor de 15 anos em 2015, quando era presidente. O que responde a essas acusações? E por que não se apresenta à Justiça?

Evo Morales: Há 30, 35 anos me acusam. "Evo, terrorista." "Evo, narcotraficante." Com o ex-presidente Luis Arce, acrescentaram: "Evo, pedófilo". Nesse caso de Tarija, eu conheço a jovem? Sim. Mas ela não apresenta queixa, e a família dela também não. Portanto, se não há vítima, não há crime.

Há algumas semanas ou alguns meses, eu não sabia disso, mas a suposta vítima enviou uma carta ao juiz dizendo: "Nunca fui vítima, nunca houve tráfico". Ela enviou outra carta ao procurador, explicando: "Encerrem esta investigação, não utilizem meu nome nesse caso". Isso demonstra totalmente que se trata de uma acusação injusta. Em resumo, é um caso puramente político.

RFI: Essa é a sua versão dos fatos, mas a Justiça segue seu curso. Voltemos à situação econômica do país. Desde 2023, a Bolívia atravessa uma importante crise econômica e, há quase um ano, a direita voltou ao poder na Bolívia, depois de 20 anos de governos de esquerda. Que avaliação o senhor faz da presidência de Rodrigo Paz?

Evo Morales: Antes de tudo, a direita voltou ao governo depois de 14 anos. Eu assumi a responsabilidade de dirigir a Bolívia em 2006. Em 2019, houve o golpe de Estado. E, depois, em 2020, a ditadura. Um ano depois, exatamente no mesmo dia, recuperamos a democracia. Vencemos com 55% dos votos, com Luis [Arce] e David [Choquehuanca]. Embora depois tenhamos nos arrependido de ter aprovado a candidatura deles. Luis Arce, assim que chegou ao poder, aplicou as receitas do capitalismo, as receitas do Fundo Monetário Internacional, da direita. Portanto, não foram 20 anos de esquerda, mas 14 anos.

RFI: E agora a direita volta ao poder. 

Evo Morales: O Comando Sul [dos Estados Unidos] vem aqui passear pelos quartéis. Há a USAID, a agência americana de ajuda ao desenvolvimento; há a DEA, a agência antidrogas americana. Um integrante do governo dos Estados Unidos se reúne com nosso governo. Para que serve o governo? Ele não serve mais a [Rodrigo] Paz, mas aos Estados Unidos. E o governo se compromete a fortalecer as Forças Armadas contra o narcoterrorismo.

Antes, nos acusavam de comunismo. Agora, somos narcoterroristas. E não é apenas a Bolívia ou o Trópico [de Cochabamba], mas toda a América Latina. O que quero mostrar é que, politicamente, os Estados Unidos mandam. Economicamente, o Fundo Monetário Internacional decide.

RFI: Há um ano, o presidente Rodrigo Paz vem promovendo uma aproximação diplomática e de segurança com os Estados Unidos: a Bolívia faz parte do "Escudo das Américas" e um acordo de segurança de US$ 20 milhões foi assinado em junho. Na sua opinião, isso é um erro?

Evo Morales: É uma submissão aberta e vergonhosa aos Estados Unidos. É claro que devemos ter relações diplomáticas com todos. Mas não submissão, não comprometimento. Infelizmente, neste momento, estão transformando o Exército [boliviano] em uma polícia que protege os recursos naturais para as multinacionais. E, portanto, o Escudo das Américas serve para submeter a América Latina militar, econômica e politicamente. 

O plano deles é se afirmar como país líder no mundo para submeter a América Latina. Para mim, entendam bem: os Estados Unidos, sem a Otan, não são uma potência militar. Os Estados Unidos, sem o dólar, não são uma potência econômica internacional. É um país que cheira mal. Provocam guerras para vender suas armas. A vida não lhes interessa. São aliados de países genocidas como Israel. Essa é a nossa diferença. E o presidente que se submete ao Escudo das Américas, aos Estados Unidos, sob o pretexto da segurança. Os Estados Unidos não ajudam. Não cooperam. Investem para roubar nossos recursos naturais.

RFI: Quando o senhor chegou ao poder, em 2006, a esquerda defendia duas reivindicações principais: recolocar o Estado no centro da economia, depois de anos de neoliberalismo, e dar existência política às populações indígenas por meio de uma nova Constituição. Olhando em retrospectiva, qual avaliação faz dessa política?

Evo Morales: Para vencer as eleições de 2005, debatemos com o povo, com diferentes setores sociais. Politicamente: a refundação, uma Assembleia Constituinte para deixar para trás o Estado colonial e criar o primeiro Estado Plurinacional. O que é a plurinacionalidade? É a unidade na diversidade. A Bolívia tem muitas culturas. Essa diversidade cultural é a riqueza da nossa identidade. Economicamente: a nacionalização. Nacionalizamos a eletricidade.

Antes, quando pagávamos, pagávamos aos estrangeiros. As telecomunicações, a empresa Entel, pagávamos aos italianos, aos estrangeiros. De 100% das receitas do gás, 82% ficavam com os estrangeiros e 18% com os bolivianos. Além disso, havia os contratos. O que diziam? O titular adquire o direito de propriedade na boca do poço. Era um saque, um roubo total.

Nós nacionalizamos, e não chegamos apenas com nossa proposta como líderes sindicais. Todos os movimentos sociais, professores, trabalhadores, o setor petrolífero, mineiros, camponeses e indígenas, todos se manifestaram pela nacionalização. E, socialmente, houve a redistribuição das riquezas. Essa redistribuição nos permitiu passar de 38% de pobreza extrema para 12%. É por isso que o povo se lembra, é por isso que Evo continua relevante. E é por isso que sofre essa perseguição política.

RFI: Apesar disso, esse balanço é criticado, especialmente por economistas que, desde 2015, quando o senhor ainda estava no poder, alertavam para os baixos investimentos na exploração de hidrocarbonetos. Hoje, as exportações de gás não passam de uma sombra do que eram, e o país enfrenta falta de dólares. O senhor, que dirigiu o país de 2006 a 2019, se sente responsável?

Evo Morales: Cerca de 18 leis foram aprovadas em 2015, e a maioria em 2017, 2018 e 2019. Aprovadas pelo Congresso. Então, acusam Evo falsamente de não ter investido. E não é só isso: Rodrigo Paz se opôs ao investimento em Tariquía. Em 16 de maio de 2018: "O prefeito da cidade de Tarija, Rodrigo Paz Pereira, em entrevista coletiva, pediu ao governo nacional que preservasse e protegesse Tariquía, evitando a exploração e o aproveitamento de hidrocarbonetos nessa reserva nacional". No próprio departamento dele, ele se opôs. Com o golpe de Estado, tudo foi cancelado. Então, quem é culpado pela atual falta de gás?

RFI: E quanto ao lítio? A Bolívia possui enormes reservas de lítio, mas a maior parte não é explorada. É preciso privatizá-las para obter lucro?

Evo Morales: Constitucionalmente, as multinacionais não podem participar da exploração dos recursos naturais do país. Seria necessário modificar a Constituição. Mas, para a industrialização, podemos ter parceiros.

RFI: Evo Morales, como o senhor imagina seu futuro político? Poderia ser candidato à eleição presidencial de 2030?

Evo Morales: Não é o momento de discutir a candidatura. Agora, precisamos pensar em como salvar a Bolívia. Mas digo: eu fiz meu trabalho. Hoje, tenho mais prazer em trabalhar na minha parcela, no meu campo. Mas, se eu me afastar desse movimento, é possível que ele se desorganize. Então sou obrigado, como líder ou sem ser líder, como candidato ou sem ser candidato, a acompanhar o movimento. Tenho consciência disso.

Chegará um momento em que todo o movimento social se reunirá. Vamos escolher quem é o melhor candidato, com todos os meus apoiadores. Eu gostaria de ser seu chefe de campanha, qualquer que seja o candidato escolhido, para poder contribuir com minha experiência e com o programa. Se for necessário realizar uma eleição primária, é possível, está previsto na Constituição. Mas, neste momento, não penso nisso de forma alguma.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra