Alemanha se junta à França em projeto para desenvolver 'tanque do futuro'
O parlamento da Alemanha deve se reunir nos próximos dias para aprovar ou não a aquisição da empresa de armamentos KNDS pelo governo do país. Berlim anunciou esta semana sua intenção de adquirir 40% da companhia, que é conhecida por ser a fabricante dos dois principais tanques de guerra europeus, o alemão Leopard e o francês Leclerc. O objetivo é juntar forças com o governo da França, que já é proprietário de 50% da KNDS, para trabalhar no desenvolvimento de um veículo que está sendo chamado de "tanque do futuro".
Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf
O movimento faz parte de um tabuleiro complexo que envolve a invasão da Ucrânia e a redução do poder bélico dos Estados Unidos na Europa. A aquisição significa um posicionamento estratégico da Alemanha para os próximos anos e também um reforço da parceria com a França para aumentar o poder de defesa da União Europeia, em um contexto em que a Rússia está gastando mais do que nunca em equipamentos bélicos. A KNDS é uma empresa que foi formada em 2015 com a fusão da alemã Krauss-Maffei Wegmann com a francesa Nexter.
Atualmente, o governo francês é dono de 50% da companhia, e a outra metade pertence à família alemã proprietária da Krauss-Maffei Wegmann. É essa parte, que vale em torno de € 16 bilhões, que o governo alemão pretende comprar.
A empresa anunciou nesta quarta-feira (24) uma oferta pública de ações, o chamado IPO, nas bolsas de Frankfurt e Paris. Os governos da França e da Alemanha chegaram a um acordo para equalizar suas participações na empresa.
Inicialmente, cada país deve deter cerca de 40%, com os 20% restantes destinados ao mercado. Ao longo dos anos, essa fatia estatal deverá ser reduzida para aproximadamente 30% para cada governo.
Tanques ou drones?
A importância dos tanques em um contexto de guerra moderna está no centro do debate, em um momento em que a Ucrânia ataca Moscou com drones, que são equipamentos baratos e leves, justamente o oposto de um tanque. Mas vale lembrar que a própria Ucrânia recebeu e está utilizando mais de 100 tanques alemães Leopard, justamente produzidos pela KNDS. E eles são considerados cruciais no embate com a Rússia, ainda que os drones sejam os protagonistas da guerra.
No mês de abril houve relatos de que as Forças Armadas da Ucrânia teriam alcançado um novo recorde utilizando tanques Leopard do tipo 2A6. Ele teria destruído um tanque russo T-72 B3 a uma distância de 5,5 quilômetros. Nunca antes um duelo de tanques tinha conseguido atingir uma distância tão longa. O recorde anterior era de 1991, da Guerra do Golfo, quando um tanque Challenger 1 da Guarda Real Escocesa destruiu um tanque T-55 iraquiano a uma distância de cerca de 5,1 quilômetros com um único projétil. Esses relatos do front carecem de uma comprovação exata, mas dão a dimensão da importância que os tanques de guerra ainda têm e terão num cenário de guerra europeia que a Alemanha considera certo nos próximos anos.
Quem passou pela feira militar Eurosatory, em Paris, na semana passada, foi apresentado ao protótipo de um sucessor do tanque de batalha Leopard 2. O conceito se chama MBT Vision 2032 e é criação de uma joint venture justamente entre a KNDS e a Rheinmetall, outra gigante da indústria bélica, que teve forte participação na Segunda Guerra Mundial. Como o nome indica, o MBT Vision 2032 está sendo planejado para 2032 e será uma espécie de Leopard 3, a terceira versão deste que é considerado o melhor tanque de guerra do mundo. Mas dessa vez, ele será alemão e também francês, em um cenário bastante diferente daquele da Segunda Guerra Mundial.
Retirada americana da Europa
O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse essa semana que a Europa precisa substituir rapidamente as capacidades militares que os Estados Unidos vão retirar do continente. Ele alertou que, se não forem tomadas medidas rápidas, esta retirada representará "um convite aberto" para o presidente russo, Vladimir Putin, "testar" a capacidade de dissuasão dos aliados europeus.
Em Bruxelas já é dado como certo que os Estados Unidos reduzirão sua capacidade bélica na Europa em termos materiais, não exatamente em tropas.
Guerra antes e depois da Ucrânia
A Ucrânia passou de problema a solução. As forças armadas do país estão testando todo tipo de armas e estratégias que a OTAN e a indústria bélica europeia não eram capazes de testar desde a Segunda Guerra Mundial. A KNDS construiu postos avançados de manutenção dentro do território ucraniano, não só para consertar mas também para aperfeiçoar armas de guerra em pleno combate.
A Ucrânia foi o primeiro país a receber o novo obuseiro sobre rodas RCH 155, também produzido pela KNDS. O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse também que as forças armadas da Ucrânia são "as mais fortes e poderosas da Europa" e acrescentou que "não há exército na Europa ou nos Estados Unidos capaz de conduzir uma guerra moderna" como a Ucrânia está fazendo. Ele defendeu a integração da Ucrânia na arquitetura de defesa europeia a partir de agora.
Nesta quarta-feira (24), os líderes da Alemanha, França, Itália, Polônia e Reino Unido se reúnem em Berlim, com participação remota do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, para discutir caminhos diplomáticos para o fim da guerra na Ucrânia.
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