Script = https://s1.trrsf.com/update-1784747113/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Mundo

Publicidade

A linha chinesa que vale mais que uma guerra tarifária

Enquanto Brasília e Washington encenam a guerra visível das tarifas, uma disputa muito mais silenciosa, e muito mais duradoura, foi decidida em 24 de junho. Naquele dia, a State Grid Corporation of China (SGCC) enfiou a primeira máquina no chão da maior concessão de transmissão da história do Brasil. Mil quatrocentos e sessenta e oito quilômetros de ultra-alta tensão, cortando Maranhão, Tocantins, Goiás e Minas Gerais. Cerca de R$ 20 bilhões. Trinta anos de concessão.

27 jul 2026 - 11h37
Compartilhar
Exibir comentários

Thiago de Aragão, analista político

A tarifa de 25% que o United States Trade Representative (USTR) acaba de finalizar contra o Brasil ocupa manchete, mobiliza o Itamaraty, entra na campanha eleitoral. É reversível por natureza, sujeita a negociação, a troca de governo, a decisão judicial, exatamente como foi a tarifa anterior, derrubada pela Suprema Corte americana em fevereiro. Ninguém, no entanto, aguarda o próximo ciclo eleitoral para revogar uma linha de 800 quilovolts fincada no cerrado. Washington briga por fluxo. Pequim, por concreto armado que dura três décadas de concessão e provavelmente muito mais.

Alugar e ser dono não é a mesma coisa, e essa é a diferença aqui.

A jogada chinesa é elegante porque resolve um problema real. O Nordeste brasileiro virou potência eólica e solar, mas essa energia não tinha como chegar ao Sudeste industrial. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projeta que o desperdício por falta de escoamento, o curtailment, pode encostar em 40 gigawatts por ano até 2030. Em 2025, esse desperdício já custou cerca de US$ 370 milhões. A State Grid não impõe um projeto ao Brasil. Ela preenche um vazio que o próprio Estado brasileiro se recusou a preencher.

Por isso é difícil criticar a operação sem parecer que se critica a transição energética.

A empresa leu o terreno melhor que muitos analistas em Washington. Não chegou com bandeira, chegou com engenharia. Antecipou a entrega de 2030 para março de 2028, prometeu 30 mil empregos, desviou o traçado do Parque Estadual do Jalapão, anunciou reflorestamento compensatório. Cada gesto reduz superfície de ataque político. Quando a infraestrutura entrega luz à região de Brasília e emprego a quatro estados, contestá-la sai caro para qualquer governo, seja de Lula ou de quem vier depois.

Soberania comercial

E é aqui que o debate sobre soberania comercial não alcança. A State Grid já opera mais de 16 mil quilômetros de linha no Brasil e detém 24 concessões de transmissão. Esta é a terceira linha de ultra-alta tensão que a estatal chinesa constrói no país, depois das duas fases de Belo Monte. Peça por peça, uma empresa de Estado estrangeira está se tornando dona da espinha dorsal física do sistema elétrico brasileiro. A geração muda de mão a cada leilão, todo mundo sabe. A coluna vertebral que carrega tudo é outra história, e essa a State Grid está pavimentando com nome próprio.

Vale olhar para trás para entender do que se trata. Em 1896, o Império Russo assinou com a dinastia Qing uma concessão de oitenta anos para construir e operar a Ferrovia Oriental Chinesa, atravessando a Manchúria. O regime russo caiu em 1917. Veio a guerra civil. Veio a União Soviética, teoricamente anti-imperialista, que ficou com o ativo. Veio a invasão japonesa da Manchúria em 1931. E a linha férrea continuou sendo administrada, disputada, cobiçada, até ser vendida por Moscou ao regime de Manchukuo em 1935, por 140 milhões de ienes. Trilho posto no chão sobreviveu a três impérios e a duas ideologias opostas. Quem constrói infraestrutura fixa numa jurisdição alheia compra tempo político que diplomacia nenhuma compra.

Lógica chinesa

É essa a lógica do capital estatal chinês, e ela é paciente por desenho. Washington raciocina em ciclos de mandato e em instrumentos que expiram no mandato seguinte. Pequim raciocina em concessões de trinta anos, projetadas para atravessar quatro presidentes brasileiros e provavelmente dois secretários-gerais do próprio Partido Comunista Chinês. Enquanto a tarifa americana pressiona a exportação da próxima safra, a linha chinesa vai condicionar por uma geração inteira como e por onde a eletricidade circula no país.

Há um risco embutido, e o Brasil precisa nomeá-lo agora, antes da energização, não depois. Quando um único operador estrangeiro controla parte crítica da transmissão, o país troca um gargalo técnico por uma dependência estratégica. Não é uma questão de má-fé chinesa. É uma questão de concentração. Ativo que ninguém desliga é, por definição, ativo do qual ninguém se livra sem custo enorme.

O Brasil ganhou a linha de que precisava. A pergunta que sobra, para depois de outubro de 2026, quando o barulho das tarifas tiver passado, é quem, de fato, ficou com a chave da tomada.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra