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Michel Foucault, cem anos depois: pensar o presente a partir do Rio de Janeiro

No centenário do filósofo francês, colóquio na UFRJ reúne pesquisadores do mundo inteiro para discutir a atualidade de uma obra que transformou nossa maneira de pensar o poder, a verdade e a produção dos sujeitos

1 set 2026 - 15h05
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Resumo
Pesquisadores internacionais reúnem-se no Rio de Janeiro para revisitar a obra de Michel Foucault por meio de colóquio e curso sobre suas origens intelectuais. O evento propõe utilizar seu pensamento não como dogma, mas como caixa de ferramentas para questionar o presente. Foucault revolucionou as ciências humanas ao demonstrar que saber e poder são historicamente construídos e produtivos, deixando um método crítico essencial para analisar e transformar as relações de força e controle atuais.

Como se formam as verdades que organizam uma sociedade? De que maneira instituições, saberes e práticas passam a definir o que somos e como devemos nos comportar? Essas são algumas das perguntas que fazem da obra de Michel Foucault uma referência que continua provocando as ciências humanas décadas depois de sua morte.

É a partir dessas questões que pesquisadores de diferentes países estão reunidos no Rio de Janeiro para revisitar a obra do filósofo francês. Entre 31 de agosto e 2 de setembro, o Colóquio Internacional Sujeito, poder e desejo. Qual é a ironia do dispositivo hoje? discutirá as relações entre sujeito, poder e desejo no presente. Na sequência, nos dias 3 e 4 de setembro, o filósofo Orazio Irrera ministrará o curso A filosofia e a etnologia da nossa cultura (vinculado ao PPGCOM/ECO/UFRJ), gratuito, em francês, dedicado às relações entre filosofia, etnologia e ciências humanas na formação do pensamento foucaultiano. Orazio Irrera é professor e pesquisador da Université Paris 8 e do GRAF (Groupe de Recherche sur les Archives Foucaldiennes).

A atividade é significativa porque Irrera investiga um momento decisivo da formação do pensamento de Foucault: a relação entre filosofia, etnografia e ciências humanas nos anos 1960. O curso parte da tensão entre Sartre, Merleau-Ponty e Lévi-Strauss até chegar às obras As palavras e as coisas e o ainda pouco conhecido Le Discours philosophique, publicado recentemente. Além disso, recupera materiais do curso ministrado por Foucault em Túnis em 1966-1967, editado por Irrera e Daniele Lorenzini, cuja publicação pela Gallimard está prevista para este ano.

Não se trata de celebrar um filósofo-monumento, mas de repetir o gesto de sua própria filosofia: usar o pensamento para interrogar aquilo que, no presente, parece evidente demais para ser questionado.

Por que Foucault ainda importa?

Nascido em Poitiers em 1926 e morto em Paris em 1984, Foucault atravessou a filosofia, a história e a psiquiatria. Livros como História da loucura, As palavras e as coisas, Vigiar e punir e História da sexualidade transformaram a maneira como pensamos instituições, saberes e formas de governo.

Talvez o mais importante de seu legado não seja uma teoria acabada, mas um conjunto de ferramentas para produzir distância em relação ao presente. Em vez de perguntar "o que é o poder?", ele perguntava como determinadas relações de poder passaram a funcionar dessa maneira, como certas condutas se tornaram objeto de conhecimento. O que hoje parece natural — uma classificação médica, uma forma de organizar uma prisão, uma concepção de sujeito — possui uma história. E, se possui uma história, poderia ter sido diferente. É nesse sentido que Foucault falava em arqueologia e genealogia: reconstruir as condições que tornaram possível determinada maneira de pensar, sentir e agir.

Uma recepção latino-americana marcada pela urgência

Essa maneira de pensar ajuda a entender por que Foucault teve recepção tão intensa na América Latina. Seus textos circularam amplamente nos anos 1970, quando a região vivia sob ditaduras militares, censura e violência estatal, enquanto universidades e movimentos sociais discutiam marxismo, psicanálise e novas formas de intervenção política. No Brasil, em 1973, no Rio de Janeiro, Foucault pronunciou na PUC-Rio as conferências publicadas como A verdade e as formas jurídicas, nas quais já aparecia uma questão central em sua obra: como práticas sociais concretas produzem novos saberes e novas formas de verdade.

Lido em diálogo e tensão com o marxismo, a psicanálise e o estruturalismo, Foucault tornou-se, para muitos pesquisadores latino-americanos, uma "caixa de ferramentas" — expressão importante, pois uma ferramenta não é uma doutrina: serve para trabalhar sobre um problema concreto.

O poder também produz

Uma das maiores contribuições de Foucault foi mostrar que o poder não é apenas aquilo que proíbe. Estamos habituados a imaginá-lo como algo que alguém possui e exerce sobre outra pessoa — o Estado que proíbe, a lei que pune. Foucault mostra que essas formas não esgotam a questão: o poder também produz saberes, classificações, instituições e formas de relação consigo mesmo, como aparece em Vigiar e punir, na figura do panóptico de Jeremy Bentham, cujo funcionamento não depende de vigilância permanente, mas da simples possibilidade de ser observado. Isso não significa que "o poder entra em nós": para Foucault, ele existe em relações que podem ser modificadas — onde há relações de poder, há também possibilidades de resistência.

A sexualidade e a verdade sobre nós mesmos

Esse problema ganha dimensão complexa na obra História da sexualidade 1: A vontade de saber (que este ano também completa 50 anos). Foucault questiona a "hipótese repressiva" — a ideia de que a modernidade teria simplesmente proibido o sexo. O que ele encontra é quase o contrário: o Ocidente produziu uma quantidade extraordinária de discursos sobre a sexualidade, tornando-a uma via privilegiada para produzir uma verdade sobre o sujeito. A questão não é descobrir qual é nossa verdadeira sexualidade, mas como chegamos a nos reconhecer por meio de uma determinada verdade sobre ela — e, se é possível cartografar essa condição, também é possível transformá-la.

Uma visita ao passado para pensar o presente

O curso de Irrera não parte dos problemas das plataformas digitais: retorna aos debates dos anos 1950 e 1960 entre Sartre, Merleau-Ponty, Lévi-Strauss e Foucault para reconstruir uma questão decisiva — como uma cultura pode interrogar a si mesma sem tomar seus próprios critérios como universais? O percurso passa pela universalidade sartriana da condição humana, pela noção merleau-pontiana de "universal lateral" e pela crítica de Lévi-Strauss à filosofia da história, até a exigência foucaultiana de uma etnografia da nossa cultura — aprender a olhar o que nos é mais próximo como se fosse estranho. É esse gesto que torna Foucault tão contemporâneo.

Fazer funcionar suas ferramentas, não repetir suas respostas

Talvez seja esse o melhor modo de comemorar cem anos de seu nascimento: não procurar em seus livros respostas prontas para as redes sociais ou a inteligência artificial, o que transformaria sua obra naquilo que ela nunca quis ser, um sistema fechado. A questão é outra: que ferramentas foucaultianas ainda nos permitem ver aquilo que o presente torna difícil enxergar? Hoje vivemos em sociedades nas quais nossas ações produzem dados, os dados produzem perfis, e os perfis alimentam previsões que orientam intervenções sobre nossas próprias possibilidades de ação — o que não significa um poder absoluto, mas exige compreender as novas relações de força que estão se formando.

É nesse ponto que a pergunta que orienta os encontros do Rio ganha toda a sua força: qual é a ironia do dispositivo hoje? Talvez esteja no fato de que, quanto mais os sistemas parecem conhecer nossas singularidades, mais precisamos perguntar o que fica de fora de suas classificações.

Foucault morreu há mais de quarenta anos e não conheceu nosso mundo digital. Mas deixou uma exigência que continua viva: não aceitar como natural aquilo que uma história de relações de saber e poder tornou possível — e, portanto, ainda podemos nos tornar outros.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Senda Sferco não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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