Maníaco do Parque diz que vai mudar de nome e se declara um "novo homem" antes de deixar a prisão
Depois de quase três décadas preso, Francisco de Assis Pereira, conhecido como o Maníaco do Parque, quer apagar o passado ao deixar a cadeia. Em entrevista concedida dentro da Penitenciária de Iaras, no interior paulista, o criminoso afirmou que pretende mudar de nome e iniciar nova vida fora do sistema prisional. "Sou um novo homem. Aquele Francisco não existe mais", declarou.
Condenado a 280 anos de prisão por uma série de assassinatos cometidos entre 1997 e 1998, Pereira será libertado em 2028. A legislação brasileira, à época de sua sentença, limita a 30 anos o tempo máximo de encarceramento. Ele não passará por progressão de regime, saindo diretamente do regime fechado para a liberdade. Por isso, não será submetido a exame criminológico, que avalia riscos de reincidência e comportamento.
Pode um criminoso mudar quem é?
A afirmação de transformação pessoal foi feita à psicóloga forense Simone Lopes Bravo, de 50 anos, com quem vem mantendo conversas desde 2023. Durante um dos encontros, o condenado relatou detalhes dos crimes cometidos. Disse que voltava aos locais dos assassinatos para se masturbar diante dos corpos. "Ficava com muitos pensamentos. Não conseguia parar de pensar. Aqueles pensamentos me excitavam", narrou.
Preso atualmente na cela 59 do Pavilhão 3, Pereira divide espaço com outros seis estupradores condenados. Na entrevista, também revelou como abordava as vítimas no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Oferecia falsas promessas de trabalho como modelo para atraí-las. Pelo menos nove mulheres foram mortas com sinais de abuso sexual. Algumas, segundo ele, foram poupadas. "Mesmo dentro da mata, resolvia não fazer nada com algumas delas. Aí eu as levava de volta até o ponto de ônibus e falava para ela ter cuidado", afirmou. E acrescentou: "Nem um beijo".
Pereira relatou ainda que sua compulsão sexual começou na infância, após encontrar revistas pornográficas no local de trabalho do avô. Na adolescência, em São José do Rio Preto (SP), onde nasceu, mantinha diversas relações enquanto patinava. "Meus pensamentos eram mais fortes que eu. Não conseguia controlar". Questionado sobre por que não matava homens, respondeu: "Porque eu me sentia atraído por mulheres, pelo corpo das mulheres".
A conversão religiosa foi outro ponto central do relato. Ele diz ter se batizado em 1999, dentro da Penitenciária de Itaí, após contato com evangélicos. Desde então, afirma viver em oração. "Até quando vou caminhar, estou meditando na palavra". Ao ser questionado sobre as famílias das vítimas, no entanto, afirmou não pediria desculpas: "Deus já me perdoou". Ainda assim, disse que aceitaria conversar com os parentes. "A conversão é o único caminho".
A aproximação com o criminoso começou quando Simone Bravo decidiu escrever um livro. Ela enviou cartas a vários detentos, mas apenas Pereira respondeu. Instalou-se então um vínculo que permitiu visitas regulares. Para ser incluída na lista de visitantes, a psicóloga usou uma brecha: como só parentes e cônjuges com comprovação legal podem visitar presos em São Paulo, ela precisou que o nome da mãe de Francisco, Maria Helena Pereira, fosse retirado da relação. Segundo relato da própria Maria Helena, a troca foi feita mediante pagamento. Simone nega qualquer envolvimento financeiro.
O livro, Maníaco do Parque, a loucura lúcida (Editora Bretas), é fruto desses encontros. Nos registros da SAP (Secretaria de Administração Penitenciária), Simone consta como "amiga" do detento.
Em 2024, Francisco foi fotografado para recadastro interno da unidade. A imagem mostra o ex-personal trainer com sobrepeso e sem dentes. Segundo um médico do sistema prisional, ele sofre de amelogênese imperfeita, uma condição genética rara que compromete a formação do esmalte dos dentes.