Mais de 70 milhões de brasileiros estarão sob governos estaduais de partido ligado à Universal em 2027
Ligado à Igreja Universal, o Republicanos governará mais de 70 milhões de brasileiros em 2027 após vitórias em SP, MG, ES e MT nas eleições de 2026. O avanço reflete uma estratégia de atrair nomes competitivos externos à igreja, aliando a estrutura religiosa a perfis conservadores focados em segurança e livre iniciativa. Além de consolidar a força do partido no Executivo, o resultado projeta o governador paulista Tarcísio de Freitas como potencial candidato à Presidência da República em 2030.
Republicanos conseguiu resultado expressivo com eleição de Tarcísio de Freitas (SP), Cleitinho (MG) e Lorenzo Pazolini (ES). Estratégia bem-sucedida mescla aposta em novos políticos e estrutura da igreja.Mais de 70 milhões de brasileiros estarão sob governos estaduais do Republicanos a partir de janeiro de 2027. Historicamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), o partido conquistou três dos quatro estados do Sudeste nas eleições de 2026, com as vitórias de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, Cleitinho Azevedo, em Minas Gerais, e Lorenzo Pazolini, no Espírito Santo.
O resultado representa uma ampliação do poder da legenda, que passou a reunir lideranças de diferentes origens políticas sem romper seus vínculos históricos com a igreja.
Para especialistas ouvidos pela DW, as vitórias revelam uma estratégia de expansão que combina a estrutura partidária consolidada com a incorporação de candidatos competitivos, mesmo quando não possuem ligação direta com a Universal.
"Esses resultados demonstram um crescimento da legenda e, principalmente, da sua capacidade de atrair lideranças competitivas, expandindo o partido e também as suas alianças políticas", afirma a cientista política Claudia Cerqueira, que pesquisa a relação entre a Universal e o Republicanos.
O partido, que havia somado apenas dois governadores em 2022, ainda reelegeu o governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, chegando a quatro no total.
Relação da IURD com partido é histórica
A relação entre a Universal e o partido, que já teve outros nomes, é histórica e estrutural, com a presença de integrantes ligados à cúpula religiosa na direção partidária. "Foi a Igreja que criou o partido para poder ter braços políticos, para poder tentar influenciar em temas que eram do seu interesse", diz Cerqueira.
Segundo ela, a influência da IURD vai além do apoio eleitoral, refletindo na composição dos dirigentes partidários e na tomada de decisão dos membros do partido. "Não existia instâncias decisórias hierárquicas, no sentido de aqui tem uma cúpula e abaixo da cúpula a gente tem outra instância, não. Tudo vinha de cima para baixo mesmo, era até uma estrutura muito parecida com o que acontece dentro da Igreja Universal do Reino de Deus", afirma.
Essa verticalização marca uma simbiose da Igreja com o partido, que é impulsionado pela IURD por meio de forte presença territorial, alto poder de mobilização e uma estrutura centralizada — diferenciais decisivos na campanha.
A diferença para outras eleições é que, agora, o partido ampliou seu espaço no poder Executivo, deixando de lado os cargos do Legislativo — foco da disputa política de outrora. A legenda elegeu 40 deputados federais em 2022 e 41 em 2026.
Para Nara Salles, cientista política e pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da Unicamp, a conquista de três governos estaduais no Sudeste demonstra que o partido tem força, organização e capilaridade, mas também que se abriu para novas alianças e quadros. "São muitos os fatores que se relacionam com o voto, incluindo características dos próprios candidatos e da configuração da disputa em cada estado", diz.
Novos integrantes e políticas públicas
Um dos pontos que levou à expansão no Executivo foi a chegada de políticos que não vieram da IURD ao Republicanos, marcando uma abertura do partido para novas alianças.
Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor de Gestão Pública da FGV, aponta que os três governadores do Sudeste possuem perfis diferentes entre si, apesar de serem conservadores: Tarcísio é oriundo do bolsonarismo, Pazolini é político de formação e Cleitinho é um político "de luz própria".
"A gente precisa ver como o Republicanos vai organizar, a partir do partido, essa liderança nacional daqui pra frente. A interferência da Igreja Universal é dentro muito mais dos governos, em área social, que é típica da atuação da igreja, mas a estratégia política do partido passa por negociação com esses personagens que, necessariamente, não são da igreja. Então, não há aí um perfil de política pública. O perfil está muito mais associado à liderança individual", completa.
De acordo com Salles, apesar de serem lideranças distintas do Republicanos, os novos governadores do Sudeste estão em uma legenda que se apresenta como conservadora e, por isso, devem ter políticas públicas com elementos em comum.
"Os três governadores eleitos no Sudeste apresentaram posicionamentos semelhantes em algumas pautas nacionais, como a defesa da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Tarcísio e Cleitinho também defenderam explicitamente a anistia a Jair Bolsonaro. Isso indica uma convergência política e ideológica, embora não signifique necessariamente que compartilhem um projeto de governo comum", afirma.
Em relação às políticas públicas, Salles diz que a população pode esperar governos posicionados à direita, com foco na segurança pública, incentivos à iniciativa privada e posições conservadoras, especialmente em pautas relacionadas aos costumes.
"Essas são orientações que, de modo geral, estão presentes na identidade política do Republicanos e nas posições de suas lideranças. Entretanto, é importante considerar que o partido reúne políticos com trajetórias distintas e que as políticas públicas implementadas também dependem das prioridades de cada governador, das condições econômicas e sociais dos estados e das alianças políticas estabelecidas. Portanto, embora seja possível identificar algumas orientações comuns, não significa que teremos governos com agendas idênticas", diz.
Para Claudia Cerqueira, para entender como as políticas públicas poderão ou não ser moldadas pela influência da IURD, a sociedade precisa acompanhar a nomeação das equipes gestoras.
"Teríamos que ficar de olho nas nomeações, na composição das equipes, se eles vão utilizar interlocutores, se tem decisões concretas em cada governo que utilizam pessoas relevantes de dentro do núcleo da igreja, dado que o núcleo duro da igreja da igreja também está relacionado com o núcleo do partido", afirma.
Tarcísio 2030
A expansão do Republicanos também coloca a legenda em posição de participar das articulações para as eleições presidenciais de 2030. Reeleito governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas admitiu, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que poderá disputar a Presidência daqui a quatro anos, embora tenha condicionado uma eventual candidatura aos resultados de seu segundo mandato e à avaliação de seus aliados.
Para os especialistas ouvidos pela DW, uma eventual candidatura presidencial também poderá colocar em evidência os limites da influência da Universal sobre um partido que passou a reunir lideranças políticas de diferentes origens.
Cerqueira destaca que uma entrada de Tarcísio na disputa pela Presidência poderá mostrar até onde o Republicanos quer ir.
"É um político que vem do governo do maior estado do país, não tem grandes escândalos envolvendo seu nome e pode se tornar o primeiro presidente da República pelo Republicanos, o que seria um ganho e tanto para o partido", pontua. "Se acontecer em 2030, será interessante observar como a Igreja poderá se envolver ou querer se envolver, inclusive na indicação de ministros e, eventualmente, de secretários de pastas importantes. Vamos ver como isso vai se desenrolar."
Procurado, o Republicanos não quis se posicionar.
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