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Lenha ainda faz parte da cozinha brasileira, mas não apenas entre os mais pobres

No Nordeste, famílias de baixa renda ainda recorrem à lenha e ao carvão para cozinhar. No Sul, porém, o uso também aparece entre pessoas de maior renda. Um sinal de que a transição energética brasileira…

31 ago 2026 - 11h46
(atualizado às 11h53)
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Resumo
A permanência do uso de lenha e carvão no Brasil reflete tanto a pobreza energética quanto hábitos culturais, variando entre a necessidade econômica no Nordeste e a tradição no Sul. Essa prática acarreta riscos à saúde por poluição interna, sobrecarga doméstica feminina e danos ambientais. Para avançar na transição energética e cumprir a Agenda 2030, as políticas públicas precisam integrar saúde, meio ambiente e as particularidades regionais para além da mera questão da renda.

No Nordeste, famílias de baixa renda ainda recorrem à lenha e ao carvão para cozinhar. No Sul, porém, o uso também aparece entre pessoas de maior renda. Um sinal de que a transição energética brasileira envolve pobreza, mas também cultura e hábitos regionais.

A transição para combustíveis mais limpos na cozinha brasileira ainda está longe de ser completa. No Nordeste, 13,1% das famílias de baixa renda utilizam lenha ou carvão como combustível principal e 18,5% fazem uso complementar desses combustíveis.

No Sul, porém, o cenário é diferente. Cerca de 13,3% das pessoas com renda superior a cinco salários mínimos também utilizam lenha e carvão para cozinhar.

Os números revelam um aspecto pouco discutido da transição energética brasileira: embora a renda seja um importante determinante do uso de combustíveis sólidos, ela não explica sozinha a permanência da lenha nos domicílios.

Em algumas regiões, fatores culturais, climáticos e tecnológicos também parecem desempenhar um papel importante.

Fogões a lenha e churrasqueiras, por exemplo, fazem parte dos hábitos de consumo de determinados grupos e regiões. Assim, parte do uso de biomassa observado no país pode refletir preferências e práticas culturais locais, e não necessariamente restrições econômicas ou falta de acesso a combustíveis modernos.

No Centro-Oeste e no Sudeste, em contrapartida, observam-se os menores índices de consumo, tanto para uso principal quanto complementar. O cenário sugere maior acesso e disponibilidade de combustíveis modernos. Ainda assim, o uso complementar de lenha ou carvão persiste em diferentes faixas de renda.

O retrato que emerge é fruto de um estudo do Departamento de Química da PUC-Rio sobre dados que cruzamos levantados junto a Empresa de Pesquisa Energética, vinculada ao do Ministério de Minas e Energia, ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O cenário é mais complexo do que a ideia de que apenas famílias pobres utilizam lenha. Para alguns grupos, ela representa uma alternativa diante do custo dos combustíveis modernos. Para outros, está associada a hábitos culturais e formas tradicionais de preparar alimentos.

Quando cozinhar com lenha é uma questão de pobreza energética

A pobreza energética ajuda a compreender parte dessa realidade. Ela ocorre quando indivíduos ou famílias não possuem acesso seguro, regular e financeiramente viável a serviços energéticos modernos, como eletricidade e gás de cozinha, essenciais para uma vida digna, saudável e produtiva.

No Brasil, esse problema ainda é pouco captado pelas estatísticas tradicionais. Ter acesso à rede elétrica ou a um combustível moderno não significa necessariamente conseguir utilizá-lo de maneira regular. O custo da energia e a possibilidade de recorrer a alternativas mais baratas também precisam ser considerados.

A limitação do poder aquisitivo é um dos principais determinantes do uso da lenha, contribuindo para a pobreza energética.

Para famílias de baixa renda, a lenha pode ser obtida sem custo, seja pela extração de florestas nativas, com possível contribuição para o desmatamento, seja pela coleta de resíduos florestais, como troncos e galhos caídos.

Mas o preço que não aparece na compra do combustível pode ser pago de outras maneiras.

Em muitos casos, os locais de coleta ficam distantes das residências, impondo deslocamentos longos e extenuantes, realizados principalmente por mulheres e crianças.

A atividade envolve riscos de acidentes, esforço físico e perda de tempo que poderia ser destinado à educação ou ao trabalho remunerado. A lenha ainda precisa ser cortada e preparada antes do uso, ampliando a carga de trabalho doméstico.

O combustível que entra pela cozinha e chega aos pulmões

Há também uma dimensão de saúde pública. A queima da lenha pode liberar gases tóxicos, como monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx) e compostos orgânicos voláteis (COV), além de material particulado, como MP2,5 e MP10, no interior das residências.

A quantidade de poluentes depende, entre outros fatores, do tipo de fogão e das condições de ventilação. A exposição pode ser prolongada, já que o tempo necessário para cozinhar tende a ser maior com combustíveis sólidos do que com alternativas modernas, como o gás liquefeito de petróleo (GLP) e o gás natural (GN).

Mulheres e crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, em parte porque permanecem por mais tempo nos ambientes domésticos. A exposição à poluição do ar dentro das residências está associada a efeitos adversos à saúde, incluindo doenças respiratórias e cardiovasculares e outros impactos crônicos.

A questão, portanto, não termina quando a comida chega ao prato. O combustível utilizado para prepará-la pode determinar também a qualidade do ar respirado dentro de casa.

Uma questão também ambiental

Os impactos ultrapassam as paredes das residências. A exploração da lenha, quando realizada sem práticas adequadas de manejo e reflorestamento, associada à sua posterior combustão, pode contribuir para as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e ampliar os impactos sobre o clima global.

O tipo de fogão também faz diferença. Equipamentos rudimentares, comuns em contextos de vulnerabilidade social, apresentam baixa eficiência energética e precisam de mais lenha para preparar a mesma quantidade de alimentos.

Estudo realizado por nós em uma comunidade quilombola na Bahia mostrou que esses equipamentos consomem, aproximadamente, 50% mais lenha do que modelos aperfeiçoados, evidenciando sua menor eficiência e o impacto associado ao uso de combustíveis sólidos.

O desafio da Agenda 2030

Garantir acesso universal a fontes de energia limpa e segura é, portanto, uma questão que ultrapassa a saúde pública. Envolve também equidade social, gênero e preservação ambiental.

A Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), entre eles o ODS 7, que trata de energia acessível e limpa.

A meta 7.1 prevê o acesso universal a serviços energéticos acessíveis, confiáveis e modernos. O indicador 7.1.2 acompanha o percentual da população que utiliza combustíveis e tecnologias limpas para cozinhar, como GLP, gás natural, eletricidade, biogás e energia solar, excluindo o uso de biomassa.

Os dados analisados mostram que o Brasil avançou no acesso a combustíveis mais limpos, mas a transição energética no setor residencial permanece incompleta e não ocorre da mesma maneira em todo o país.

Pensar na diversidade brasileira é importante para a formulação de políticas públicas. Uma estratégia que considere apenas a renda pode não explicar por que determinados grupos continuam utilizando lenha mesmo quando possuem condições econômicas para recorrer a outras fontes.

Estudos apontam relações entre pobreza energética, desigualdade de gênero, racismo ambiental e injustiça climática. Por isso, políticas públicas voltadas à transição energética precisam dialogar com energia, habitação, saúde, meio ambiente e assistência social.

A transição energética brasileira não pode ser entendida apenas como a substituição de um combustível por outro. Para algumas famílias, deixar de usar lenha depende de ter condições econômicas para comprar um combustível moderno. Para outras, significa também modificar hábitos e práticas culturais.

Garantir uma cozinha verdadeiramente limpa exige, portanto, mais do que ampliar a oferta de energia. É preciso assegurar que ela seja acessível, confiável e adequada às diferentes realidades sociais e regionais do país. Só assim a transição energética poderá ser, de fato, universal e justa.

Esta pesquisa recebe financiamento do CNPq, Faperj e Capes.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Adriana Gioda recebe financiamento do CNPq, CAPES, FAPERJ. Luiz Felipe recebe bolsa de Doutorado do CNPq.

Luiz Felipe de Menezes Correia da Silva não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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