Jovens se mobilizam contra o serviço militar na Alemanha
Governo alemão considera retomar a conscrição para reforçar o efetivo militar. Incerteza acelera as solicitações de "objeção de consciência", usadas para evitar a convocação mesmo em caso de defesa nacional.O alemão Phil Werring pensa em se recusar a prestar serviço militar. Ele não quer, de jeito nenhum, ir para a Bundeswehr, as Forças Armadas da Alemanha. "Sempre dizem que é sobre defesa", conta o estudante à DW. "Mas eu não vejo essa situação de ameaça e, por isso, também não tenho interesse em cumprir um serviço obrigatório."
Por enquanto, o serviço militar é voluntário no país, mas isso pode mudar em breve. Em dezembro, o parlamento alemão aprovou um novo modelo de registro e triagem e estabeleceu uma meta de ampliar suas fileiras em ao menos 80 mil soldados adicionais até 2035. Caso o número de voluntários seja muito baixo, os parlamentares poderão posteriormente decidir sobre um sistema de recrutamento obrigatório baseado na demanda.
Especialistas militares concordam, porém, ser improvável que tantas pessoas se apresentem voluntariamente neste período. "É só uma questão de tempo até que o serviço militar obrigatório seja introduzido", avalia Phil Werring.
Junto com pessoas que pensam como ele, o estudante organiza manifestações escolares nacionais contra o serviço militar obrigatório. Phil, que cursa o ensino médio na cidade de Münster e faz 18 anos em maio, é um dos porta-vozes da iniciativa.
Atualmente, a Bundeswehr envia a todos os jovens homens, por volta do 18º aniversário, um questionário que deve ser preenchido e devolvido.
"Você tem, em princípio, interesse em se tornar soldado de forma voluntária?", pergunta o formulário. A resposta deve ser dada em uma escala de zero a dez. Zero significa "nenhum interesse". Outras perguntas tratam da aptidão física e do nível de escolaridade.
Mas preencher o questionário não encerra o processo. Sob as novas regras, mesmo quem marca "zero interesse" na carreira militar ainda não escapa do exame médico de aptidão física da Bundeswehr. Para homens nascidos a partir de 2008, esse procedimento se tornou obrigatório desde o início do ano. O objetivo é estabelecer quem poderia ser convocado em caso de conflito.
A campanha agressiva de recrutamento da Bundeswehr, a possível volta do serviço obrigatório e o debate sobre um eventual ataque russo ao território da Otan têm levado muitos jovens a considerarem um pedido de objeção de consciência. Quem é oficialmente reconhecido nessa categoria, não pode ser convocado para o serviço militar nem mesmo em caso de defesa nacional.
Objeção de consciência: um direito garantido pela Constituição
"Ninguém pode ser obrigado, contra sua consciência, a prestar serviço militar com armas", diz a Constituição alemã. O artigo é uma reação às experiências de duas guerras mundiais e da ditadura nazista. A medida vale independentemente de haver ou não serviço militar obrigatório em vigor.
Não apenas quem nunca serviu pode apresentar objeção, mas também soldados ativos e reservistas. A alternativa era popular até 2011, data em que o serviço obrigatório foi suspenso. Na ocasião, a Bundeswehr foi reduzida, e poucas pessoas continuaram a apresentar pedidos de objeção, já que apenas voluntários passaram a ser convocados.
Desde o ataque em grande escala da Rússia contra a Ucrânia, em 2022, porém, o número de pedidos de objeção vem crescendo de forma contínua. O receio de um futuro recrutamento obrigatório levou esse total a um novo recorde no ano passado: 3.879 jovens pediram a dispensa de servir, segundo informou à Deutsche Welle uma porta-voz do órgão responsável, o Escritório Federal para Família e Tarefas da Sociedade Civil (BAFzA). A tendência continuou nos dois primeiros meses deste ano: até o fim de fevereiro, quase 2.000 solicitações já haviam sido registradas.
Apresentar um pedido desses não é trivial e exige preparação. É aí que entram os centros de aconselhamento, que registram um aumento nas consultas. A Sociedade Alemã pela Paz - União de Opositores ao Serviço Militar (DFG‑VK) montou uma rede nacional com mais de 200 consultores voluntários.
Conflitos pessoais de consciência
Em Berlim, Lothar Eberhardt tem conduzido, nas últimas semanas, inúmeras sessões de aconselhamento para a DFG‑VK. O foco é o núcleo do pedido: a justificativa pessoal de por que alguém, por motivos de consciência, não pode prestar serviço militar.
"Qual é o conflito de consciência e o elemento individual que levou a pessoa a dizer não à guerra?" É isso que ele tenta extrair dos candidatos, conta Eberhardt à DW. Uma conversa pode durar até uma hora e meia. Ele próprio é objetor reconhecido e atua como consultor há cerca de 50 anos.
Em tese, motivos de ordem religiosa, moral, humanística ou filosófica podem fundamentar a rejeição, mas modelos de texto genéricos não ajudam. A argumentação precisa convencer os avaliadores. "Se alguém refletiu sobre sua justificativa e formulou de forma convincente seus conflitos e dilemas de consciência, normalmente nada deve impedir o reconhecimento", diz o consultor. Ainda assim, pedidos são rejeitados com certa frequência.
Phil Werring também considera apresentar um pedido de objeção de consciência. Ele imagina se unir a amigos ou colegas para declarar, juntos, que se recusam ao serviço militar. "Assim, mostraríamos publicamente que não temos interesse em ser enviados para uma guerra." Quando receber o questionário da Bundeswehr, ele marcará, sem dúvida, "zero interesse".