Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

'Jornada nas Estrelas' aos 60 anos: na disputa entre potências, o espaço nunca foi a fronteira final

O que os 60 anos da estreia da série "Jornada nas Estrelas" nos dizem sobre corrida espacial, geopolítica, inovação, 'soft power' e alteridade

21 ago 2026 - 10h07
(atualizado às 10h13)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Criada em 1966 em meio à Guerra Fria e à corrida espacial, a franquia "Jornada nas Estrelas" tornou-se um marco cultural bilionário ao longo de seis décadas. Mais do que entretenimento e antecipação de inovações tecnológicas, a série consolidou-se como um símbolo do soft power norte-americano ao debater disputas geopolíticas, multiculturalismo e dilemas éticos, destacando-se historicamente pelo pioneirismo na representatividade e diversidade de seu elenco através de sucessivas gerações.

Quando estreou pela rede de TV estadunidense NBC, em 8 de setembro de 1966, a série "Jornada nas Estrelas" (Star Trek no original em inglês) buscava não apenas capitalizar o sucesso comercial de produções de ficção científica do pós-guerra - como "Doctor Who", lançada pela britânica BBC em 1963 -, mas também surfar algumas ondas do momento, como o processo de construção de um soft power capitalista por meio do cinema e da TV, o surgimento do multiculturalismo e o crescente interesse do grande público por tecnologia.

O mundo vivia o auge da chamada Guerra Fria, com os EUA disputando esferas de influência com a finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Mais que isso, os dois blocos protagonizavam uma corrida espacial, que começou com o lançamento do satélite Sputnik pelos soviéticos, em 1957, e naquele momento envolvia missões tripuladas ao espaço, a começar pela pioneira viagem do cosmonauta Iuri Gagarin em órbita da Terra, em 1961. Nesse sentido, o texto de abertura de "Jornada nas Estrelas" era emblemático:

"Espaço… A fronteira final… Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, para pesquisar novas formas de vida, novas civilizações… Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve!"

"Espaço…A fronteira final": de 1966 até hoje, a frase iniciou os créditos de abertura dos episódios da maioria das versões da série, e tornou-se um símbolo da história da ficção científica contemporânea.

O programa chegava, portanto, num contexto de disputa geopolítica sem precedentes, em que os EUA buscavam recuperar sua autoestima. A movimentação das principais potências imperialistas até meados do século XX se dava nos limites do globo terrestre. Mas após a Segunda Guerra Mundial, tudo mudou, com o crescimento da indústria aeroespacial, a reboque do complexo industrial bélico. Quem controlasse os satélites em órbita teria uma vantagem avassaladora, dominando as telecomunicações e abrindo caminho para a vigilância de territórios e a espionagem de inimigos.

Em 1962, depois de derrotas iniciais na corrida espacial, o então presidente John F. Kennedy havia se comprometido publicamente com um alvo que pudesse despertar o interesse público e desfazer a imagem negativa do programa espacial dos EUA: "Escolhemos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque sejam fáceis, mas porque são difíceis", disse Kennedy, em discurso histórico. Por isso, as principais redes de TV dos EUA buscavam produções que pudessem atender à parcela da audiência interessada nas possibilidades da exploração espacial.

Início turbulento

Mas nem por isso a trajetória de "Jornada nas Estrelas" ocorreu sem turbulências. O primeiro piloto, apresentado pelo criador do programa, Gene Roddenberry, em 1964, foi recusado, por ser considerado complexo demais. Executivos da NBC encrencaram com o personagem principal, o capitão Christopher Pike (interpretado por Jeffrey Hunter), e com a primeira oficial, chamada apenas de Número Um (Majel Barrett). Pike era um personagem com nuances, tinha dúvidas. A Número Um era uma mulher forte, fria, extremamente inteligente.

Foi demais para o machismo vigente. O piloto foi arquivado e a NBC encomendou outro, em que o único personagem aproveitado foi o oficial de ciências meio humano meio vulcano Spock (Leonard Nimoy), promovido a imediato de um novo comandante, James T. Kirk (William Shatner, um típico galã de TV da época).

A audiência na TV aberta decepcionou e a série acabou cancelada após três temporadas, apesar de protestos de fãs fiéis. Mas a venda para redes de emissoras de todo o mundo e as reprises nos anos seguintes renderam retorno substancial para a NBC, que produziu uma série de animação nos anos 1970 e retomou a franquia nos anos 1980 com "Jornadas nas Estrelas: Nova Geração". De lá para cá, foram nove séries derivadas da original e 13 longas-metragens, o que fez de "Jornada nas Estrelas" uma franquia bilionária, administrada pela Paramount.

Réplica de um dos comunicadores usados pelos personagens da série original: design inspirou celulares contemporâneos. Wikipedia, CC BY
Réplica de um dos comunicadores usados pelos personagens da série original: design inspirou celulares contemporâneos. Wikipedia, CC BY
Foto: The Conversation

Diversos estudos foram publicados a partir do sucesso de cauda longa de "Jornada nas Estrelas", incluindo o livro The Physics of Star Trek ("A Física de Star Trek"), de Lawrence M. Krauss, que ganhou prefácio de Stephen Hawking. A série é muitas vezes saudada por ter antecipado, há seis décadas, inovações importantes da vida contemporânea, como a telefonia móvel (os comunicadores usados pela tripulação da espaçonave Enterprise pareciam muito com os celulares flip), tablets, tradutores universais, sistemas de videoconferência, assistentes de voz, portas automáticas, exames médicos por imagem como ressonância magnética e tomografia computadorizada (funcionalidades de um aparelho que aparece já na série original, o tricorder), fones de ouvido sem fio e realidade virtual (os famosos holodecks, usados para recreação de tripulantes e tantas vezes incorporados a tramas de episódios).

A dinâmica de inovação industrial, contudo, evidencia que muitas dessas novidades já estavam sendo gestadas nos grandes laboratórios de tecnologia. O futurólogo Paul Saffo difundiu, já na década de 1990, a "regra dos 30 anos", segundo a qual o desenvolvimento, a disseminação e a popularização de inovações levam tempo e não ocorrem por meio de saltos abruptos. Uma inovação leva até uma geração para se estabelecer na sociedade - e nem sempre isso acontece, por conta dos mais diversos fatores.

Saffo lembra que, historicamente, desde o século XIX, cientistas beberam da fonte dos romances de ficção científica e vice-versa. Arthur C. Clarke, autor de 2001, Uma Odisseia no Espaço, por exemplo, idealizou os satélites geoestacionários e, a partir do romance O Martelo de Deus, inspirou a rede de monitoramento que hoje detecta meteoros potencialmente perigosos para a vida na Terra.

Relevância política e impacto cultural

A atriz Nichelle Nichols, a oficial de comunicações Uhura na série original, em campanha de recrutamento da Nasa nos anos 1960: tripulação já trazia uma diversidade de gênero e etnias rara para a época. Nasa
A atriz Nichelle Nichols, a oficial de comunicações Uhura na série original, em campanha de recrutamento da Nasa nos anos 1960: tripulação já trazia uma diversidade de gênero e etnias rara para a época. Nasa
Foto: The Conversation

Feita essa ressalva, qual a relevância de "Jornada nas Estrelas"? O impacto cultural da série e seus produtos derivados é enorme e vai além da divulgação científica, tecnológica e de inovação. A tripulação da série original já apresentava enorme diversidade de gênero e etnias.

Estavam lá a tenente Nyota Uhura (Nichelle Nichols), oficial de comunicações negra, os pilotos Hikaru Sulu (vivido pelo ator nipo-americano George Takei) e Pavel Chekov (personagem russo do ator Walter Koenig), o médico de sobrenome tipicamente irlandês Leonard McCoy (DeForest Kelley), o engenheiro Montgomery Scott (James Doohan), escocês, e o imediato meio vulcano Spock. Claro, todo mundo sob o comando do capitão Kirk, um homem branco decidido, que não hesitava em disparar phasers e torpedos contra os inimigos, apesar de a Enterprise estar supostamente engajada em uma missão de exploração científica.

É sintomático que boa parte das tramas da série original envolvesse dilemas relacionados à chamada Primeira Diretriz, princípio da Frota Estelar que proíbe estritamente a interferência no desenvolvimento natural, social, cultural ou tecnológico de civilizações alienígenas que não dominam a tecnologia de viagens espaciais acima da velocidade da luz.

Kirk muitas vezes burla essa regra em nome de um bem maior. Esse é evidentemente um dilema do multiculturalismo, em que a alteridade é exercitada, mas não raro a cultura de outros povos é apresentada como bárbara, primitiva, estranha, porvezes inaceitável.

Cabe destacar que a Terra do futuro é apresentada como um planeta que superou as guerras e se unificou politicamente, mas as disputas geopolíticas se transferiram para as relações diplomáticas ou embates bélicos com outras espécies sencientes. Os vulcanos são um povo de tradições milenares, evocando a cultura japonesa e seus dilemas entre o apego às tradições e a abertura ao novo. Os klingons, arqui-inimigos, são guerreiros fortes, brutos, belicistas, de pele escura, evocando estereótipos associados à negritude.

Os romulanos, primos distantes dos vulcanos, são dissimulados, misteriosos, traiçoeiros, incorporando narrativas preconceituosas do Ocidente sobre a cultura chinesa. Já os borgs, vilões de "Jornada nas Estrelas - A Nova Geração", colocam em evidência os temores do senso comum sobre o pós-humanismo e às ameaças à ideia de individualidade, tão caras ao pensamento filosófico ocidental.

Representatividade crescente

Com o tempo, a busca por representatividade foi se sofisticando. Na série derivada "Deep Space Nine", o comandante era um homem negro, Benjamin Sisko (Avery Brooks). Em "Star Trek: Voyager", uma mulher branca, Kathryn Janeway (Kate Mulgrew), estava no comando. Já em "Star Trek: Discovery", lançada em 2017, a oficial de ciências Michael Burnham (Sonequa Martin-Green), uma mulher negra, acaba se tornando capitã, e surgem o primeiro casal gay - formado pelo engenheiro Paul Stamets (Anthony Rapp) e pelo médico de bordo Hugh Culber (Wilson Cruz) -, a primeira personagem não binária, a jovem Adira Tal (Blu del Barrio), e o primeiro personagem transgênero, Gray (Ian Alexander).

Em "Strange New Worlds", que estreou em 2022, a franquia se reinventa mais uma vez e traz de volta a tripulação do piloto recusado, incluindo Pike e Número Um, brincando com a ideia de multiverso, hoje tão popular graças ao Universo Marvel. E, em sua última série derivada, "Academia Estelar", além de dar protagonismo a uma mulher branca sexagenária em posição de comando, Nahla Ake (vivida por Holly Hunter), e um jovem negro com problemas de integração social, Caleb Mir (Sandro Rosta), "Jornada nas Estrelas" oferece um interessante subtexto, com a divisão entre princípios do militarismo e a ênfase no desenvolvimento científico na formação de futuros oficiais da Frota Estelar.

Como a franquia mostra, em diferentes produtos derivados, o caminho rumo ao futuro está longe de ser linear, como o positivismo do século XIX fazia crer. Pelo contrário: é acidentado e, muitas vezes, marcado por retrocessos.

As tramas são muitas vezes convencionais, apesar de ambientadas num futuro muito, muito distante. Isso, longe de ser um problema, ajuda a estabelecer vínculos da audiência com personagens e tornar "Jornada nas Estrelas" um fenômeno pop que atravessa gerações. Mas é preciso ler a franquia para além do entretenimento, entendendo-a como uma alegoria do soft power dos EUA. Soft power que, atualmente, vive uma de suas maiores crises, com a ascensão da extrema-direita, promovendo guerras culturais que ameaçam o ideário trekkie de uma vida longa e próspera, pautada pela cartilha pacifista e não pelos tambores da guerra.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marcelo Kischinhevsky recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra