'Imperialismo Ressurrecto': O mundo sem memória de Trump
A atual política externa desenhada por Donald Trump e seus aliados opera sob essa mesma lógica espectral e perigosa
Em seu inquietante romance "Oração para desaparecer" (Companhia das Letras, 2023), a escritora brasileira Socorro Acioli nos apresenta a enigmática figura dos "ressurrectos": mortos que renascem em terra estranha, fisicamente vivos, mas despidos da memória de quem foram e das dores que viveram.
A atual política externa desenhada por Donald Trump e seus aliados opera sob essa mesma lógica espectral e perigosa. Da cobiça imobiliária explícita sobre a Groenlândia à caçada de estilo "velho oeste" contra Nicolás Maduro, passando pelas ameaças de submissão feitas ao México, Colômbia e Irã, não estamos diante de inovações disruptivas. Estamos assistindo ao renascimento de cadáveres da "Era dos Impérios", magistralmente descrita pelo historiador britânico Eric Hobsbawm.
Essas práticas do século XIX, em grande medida, são como os ressurrectos de Acioli, que voltam à vida em pleno século XXI, mas sem a memória das catástrofes que provocaram no passado. É preciso lembrar que a ordem multilateral e as instituições criadas no final dos anos 1940 (ONU, a principal delas) foram desenhadas justamente para sepultar essa lógica de "zonas de influência" e conquista territorial.
Elas serviram e serviam como travas de segurança para evitar justamente que o populismo autoritário e o expansionismo, que explodiram nas décadas de 1920 e 1930, arrastassem a humanidade novamente para o abismo.
Contudo, ao tratar nações soberanas como ativos imobiliários ou alvos de pistolagem, a nova ordem global desmantela essas defesas. O trumpismo age como um corpo sem memória histórica, ignorando que foi exatamente esse tipo de arrogância imperial que gestou as grandes guerras.
O perigo dessa amnésia é fatal: uma civilização que esquece a dor do caminho que leva à barbárie tende a repeti-lo, agora equipada com armas nucleares, marchando sorrindo para o mesmo precipício que guardou numerosas covas e sofrimento desnecessário.
* Alexandre Gossn é pesquisador em autoritarismos contemporâneos no Instituto de Investigação Interdisciplinar e Doutorando pela Universidade de Coimbra, Mestre em Direito e Advogado. É autor de Fascismo Pandêmico, Chapados de Cloroquina, Santo Adamastor e outros.
* * Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de Perfil Brasil