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Guilherme Mazieiro

Opinião: Não são as Forças Armadas que estão constrangidas, nós é que estamos

O golpe não prosperou por falta de apoio externo e interno, pela incompetência bolsonarista e pela ação de algumas instituições

22 set 2023 - 11h27
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Lula e ministro da Defesa, José Múcio, em desfile do dia 7 de Setembro de 2023
Lula e ministro da Defesa, José Múcio, em desfile do dia 7 de Setembro de 2023
Foto: Divulgação/Ministério da Defesa

O ministro José Múcio Monteiro (em destaque na foto), civil que mais parece um apaixonado militar e comanda a Defesa, assumiu a função logo no dia 2 de janeiro dizendo que as “Forças Armadas sempre se posicionaram a serviço da paz, da democracia”. Não é verdade, e imagino que ele saiba disso. A história registra que por décadas, teve militar ocupado em torturar, matar e sumir com brasileiros. Ainda assim, na maior parte das vezes em que o ministro aparece na imprensa é para defender os fardados de alguma acusação.

Múcio parece mais um porta-voz das Forças e tenta tirar dos ombros dos militares o peso que eles têm sobre o dia 8 de janeiro. Antes de seguir, faço um rápido resgate para o leitor: 

  • O governo Bolsonaro era composto, politicamente, por militares da ativa e da reserva;
  • O ministro da Defesa de Bolsonaro, um general, usou a estrutura do estado para questionar as urnas (e receber um hacker para tratar do tema secretamente);
  • O acampamento de onde saíram as bombas da tentativa de ataque no Aeroporto Internacional de Brasília e os golpistas do dia 8/1 ficava em área militar; 
  • Os militares da inteligência e do operacional não conseguiram evitar a quebradeira no Palácio do Planalto;
  • O Exército apontou tanques contra a PM do DF para impedir a prisão de golpistas no acampamento;

A última defesa de Múcio foi nesta semana. Se for lida com atenção, além de não fazer sentido algum, beira o ridículo. Na quinta-feira, 21, poucas horas após as revelações de trechos da delação de Mauro Cid, sobre Bolsonaro ter consultado comandantes das Forças sobre um golpe de Estado, Múcio disse que:

“Na realidade, isso [a delação de Cid] não mexe conosco porque trata-se de pessoas que pertenceram aqui. São pessoas que estão na reserva, os citados. Nós desejamos muito que tudo seja absolutamente esclarecido. Precisamos desses nomes”, disse.

Ora, o ministro sabe (pessoas que estão na reserva) ou não sabe (precisamos desses nomes)? Nas falas que fez ontem, empurrou a bucha para o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier, dizendo que sabia das inclinações golpistas dele e que isso eram opiniões “pessoais”. Segundo Cid, o almirante teria dito a Bolsonaro que sua tropa estaria de prontidão para agir, caso avançasse a trama.

“Evidentemente que constrange esse ambiente que a gente vive. Essa aura de suspeição coletiva nos incomoda”, disse Múcio em outro momento à imprensa.

O constrangimento não é dos militares, é da sociedade que vê os integrantes dessas instituições, cujo principal papel é cuidar da defesa nacional e das fronteiras, metidos em crimes e tentativas de golpe de Estado. O reflexo disso está na pesquisa Datafolha que mostra que a confiança nos fardados (ainda que seja a mais alta entre as instituições), despencou ao menor índice desde 2017, 34%.

Desde que o governo Lula (PT) assumiu o comando sobre os milicos, pouco se viu para esclarecer o papel dos golpistas que vivem nas Forças. Não há muita vontade política.

Fora esses pequenos trechos revelados pelo UOL e pelo jornal O Globo, a delação de Cid não veio a público e não sabemos o que corrobora suas afirmações. É preciso cuidado para não condenar previamente e tampouco inocentar previamente. Por isso mesmo causa estranheza que no depoimento, o tenente-coronel tenha poupado, justamente, a instituição onde ele trabalha e seu pai fez carreira.

Cid diz que o Exército não toparia o golpe. Se isso se comprovar verdadeiro, por que, então, o Exército cuidou dos golpistas no jardim do Quartel General? E ouviu Bolsonaro falar em golpe e não fez nada? E pior, sabendo das intenções de Bolsonaro deixou tudo correr solto? É omissão ou conveniência, ambas opções são igualmente criminosas e covardes.

“Só uma coisa eu tenho absolutamente certeza cristalina. É que o golpe não interessou em momento nenhum às Forças Armadas. São atitudes isoladas de componentes das Forças. Mas ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica, nós devemos a eles a manutenção da nossa democracia”, disse Múcio, ontem.

Não sabemos de onde ele tirou essa certeza. Pelo que conhecemos da trama até aqui (desde sua arquitetação à quebradeira), o golpe não prosperou por falta de apoio externo e interno, pela incompetência bolsonarista e por haver alguma organização institucional do governo e de órgãos de Estado para impedí-lo.

É evidente que da Defesa não podemos esperar muita coisa, além de uma retórica oca e corporativista. Aliás, o próprio ministro disse que seus familiares frequentavam o acampamento golpista. Como já escrevi em outros textos, sendo bom ou ruim, hoje quem investiga os militares é a Polícia Federal. E é essa a melhor defesa que pode haver para os militares e para sociedade civil: o processo legal para trazer à luz e ao banco dos réus quem traiu a pátria, roubou joias, fraudou contratos públicos e geriu a pandemia que causou 700 mil mortes.

Bom final de semana!

Este texto foi publicado originalmente na newsletter semanal Peneira Política, assinada por Guilherme Mazieiro. Assine aqui e receba os próximos conteúdos.

Fonte: Guilherme Mazieiro Guilherme Mazieiro é repórter e cobre política em Brasília (DF). Já trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, EPTV/Globo Campinas, UOL e The Intercept Brasil. Formado em jornalismo na Puc-Campinas, com especialização em Gestão Pública e Governo na Unicamp. As opiniões do colunista não representam a visão do Terra. 
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