Guerra mais fria e mais funda: submarinos russos mapeiam os cabos que conectam o mundo e preocupam Otan
É pelos cabos submarinos de fibra ótica que transitam 95% do tráfego intercontinental de dados, e garantir sua segurança é uma tarefa difícil
"Nós vemos sua atividade sobre nossos cabos e nossos dutos, e qualquer tentativa de danificá-los não será tolerada e terá consequências graves." Com essa frase, em 9 de abril de 2026, o secretário de Defesa britânico John Healey encerrou o anúncio de que três submarinos russos, um de ataque classe Akula e dois da GUGI, tinham passado mais de um mês mapeando cabos e dutos no Atlântico Norte.
A GUGI é a unidade de missão especial da Marinha russa projetada para operar onde nenhum sensor alcança. A operação britânico-norueguesa envolveu uma fragata, aeronaves de patrulha marítima e centenas de militares. Nenhum cabo foi cortado. A advertência era tudo o que o Ocidente tinha a oferecer.
Londres foi além do registro operacional e acusou Moscou de ter aproveitado a atenção internacional concentrada no Oriente Médio para conduzir a manobra no Atlântico Norte. O que ficou implícito é mais revelador do que o que foi dito: o Ocidente sabe que está sendo mapeado, sabe que não pode impedir, e a única resposta disponível é tornar esse conhecimento público. Postura defensiva travestida de advertência. O mar permite isso.
O oceano que esconde o conflito
Há um hábito, antigo e difícil de corrigir, de tratar o mar como pano de fundo das relações internacionais, o espaço entre os Estados, não um espaço com dinâmica própria. O resultado é que cabos dos quais dependem 95% do tráfego intercontinental de dados ficam fora do radar político até que algo se rompe.
Já em 2017, o almirante James Stavridis, ex-Comandante Supremo Aliado da OTAN, alertava que os cabos submarinos eram "indispensáveis e inseguros": infraestrutura da qual o Ocidente depende inteiramente, depositada num ambiente que nenhum Estado sabe como defender.
Pesquisadores da Universidade de Copenhague descreveram o fenômeno como "tripla invisibilidade": os cabos passam despercebidos pelo público, estão soterrados no leito marinho e se perdem num espaço que as políticas de segurança ignoram cronicamente.
São 1,4 milhão de quilômetros de fibra óptica carregando mais de 95% do tráfego intercontinental de dados, cada segmento com pouco mais de 20 centímetros de diâmetro, sem sensores integrados, sem patrulha permanente. O oceano torna a proteção integral inviável, não por falha dos governantes, mas por propriedade da matéria. A profundidade apaga vestígios e a extensão inviabiliza patrulha. Quem ataca conta com isso.
Mapeamento russo começou antes da guerra na Ucrânia
A cobertura jornalística recente dessas atividades tende a subestimar um ponto: o problema não começou em 2022, junto com início da guerra da Ucrânia. Em outubro de 2015, o New York Times revelava que navios e submarinos russos estavam se aproximando de cabos no Atlântico com frequência, o que preocupava o Pentágono.
Em 2017, um almirante norte-americano declarou à Reuters que a atividade naval russa na Europa havia superado os níveis da Guerra Fria. O que o conflito da Rússia com a Ucrânia fez foi acelerar algo já em curso e tornar muito mais difícil para os russos negarem que estavam monitorando os cabos de países da Otan.
Essa capacidade tem raízes na doutrina naval soviética, que previa o corte de linhas transatlânticas da Otan como prioridade em cenário de conflito. O GUGI é herdeiro direto dessa tradição, e quem acompanha a atividade submarina russa sabe que a herança não é apenas doutrinária, é operacional. A unidade opera a partir da baía de Olenya, na Península de Kola, com acesso direto ao Mar de Barents e uma doca coberta que esconde os submarinos de satélites espiões.
A modernização não parou. Em 2025, a Rússia anunciou a alocação de US$ 100 bilhões para a marinha na próxima década, priorizando as classes Borei-A e Yasen-M. O Vice-Almirante Rune Andersen, comandante do quartel-general conjunto norueguês em Reitan, que monitora a Frota do Norte 24 horas por dia, reconheceu à Bloomberg que a incompetência demonstrada pelas forças terrestres russas na Ucrânia não se aplica à força submarina: "são as unidades prioritárias do aparato militar russo". O Ministro da Defesa norueguês, Tore Sandvik, foi mais direto: britânicos, americanos, franceses e alemães temem não saber onde estão esses submarinos nucleares caso escapem ao rastreamento.
O que pesquisadores chamam de "estratégia matrioska" funciona em camadas sobrepostas. Na superfície, o navio Yantar navega como embarcação de pesquisa e mapeia rotas de cabos. Ao chegar à área de interesse, lança mini-submarinos que descem milhares de metros e liberam veículos não tripulados com braços robóticos capazes de tocar, grampear ou cortar fibras no leito oceânico. Um relatório do CSIS documentou que os cabos transatlânticos mais estratégicos corriam sobre fundos onde essa presença crescia desde 2014.
A guerra desceu ao fundo do mar, e chegou à sua internet
O conflito com a Rússia migrou para um terreno que nenhuma doutrina militar convencional previu com clareza: a malha submarina que sustenta a vida digital de sociedades inteiras. As explosões no Nord Stream em 2022 foram o primeiro sinal público. Depois vieram o corte do cabo Estlink-2 no Natal de 2024 e a detenção do Fitburg.
Em abril de 2026, três submarinos russos foram interceptados mapeando cabos no Atlântico Norte. O que esses episódios colocam em risco não é abstrato: são transações financeiras, comunicações hospitalares, aquecimento doméstico no inverno báltico. O Estlink-2 ficou inoperante por cerca de seis meses, de dezembro de 2024 até junho de 2025. Custo do reparo: até 60 milhões de euros. Tudo provocado por uma âncora arrastada no Golfo da Finlândia.
Satélites não são alternativa. Constelações como o Starlink carregam menos de 5% do tráfego global de dados. A latência de uma conexão transatlântica via cabo é de cerca de 60 milissegundos; por satélite geoestacionário, ultrapassa 600. Essa diferença não é técnica: é a diferença entre uma economia que funciona e uma que trava. Cortar os cabos não deixa o Ocidente sem internet. Deixa o Ocidente com uma internet incapaz de sustentar o que precisa sustentar.
Acidente ou sabotagem? A incerteza é parte do método
A hipótese da sabotagem deliberada convive com uma leitura concorrente que a análise acadêmica precisa incorporar. Em janeiro de 2025, o Washington Post reportou, com base em fontes norte-americanas e europeias, que vários rompimentos no Báltico foram acidentes marítimos envolvendo âncoras, não operações encobertas. A distinção importa por razões metodológicas. Tratar todo incidente como sabotagem elimina a possibilidade de refutação e transforma a hipótese em dogma.
A evidência disponível aponta em duas direções, e escolher uma prematuramente é tão arriscado quanto não escolher nenhuma. Mas mesmo que a maioria dos incidentes seja acidental, a dúvida sobre a origem, combinada com a operação documentada de plataformas GUGI em rotas de cabo, já cumpre função estratégica. A ambiguidade é o instrumento, não um efeito colateral.
O que acontece no fundo do mar não chega a nenhum tribunal
O oceano garante a impunidade porque apaga a evidência. O tribunal de Helsinque que analisou o caso do Eagle S rejeitou as acusações em outubro de 2025, mas não por falta de provas de intenção, o motivo principal foi ausência de jurisdição. O incidente ocorreu na Zona Econômica Exclusiva finlandesa, fora das águas territoriais, e o tribunal entendeu que a competência era do Estado de bandeira, Ilhas Cook, ou dos países de cidadania dos tripulantes. A promotoria recorreu. O caso expõe algo que vai além do episódio: a Convenção do Direito do Mar foi pensada para um oceano que os Estados usavam, não para um oceano que conecta tudo o que os Estados precisam para funcionar. O abismo não cabe nela.
Analistas da publicação jurídica Lawfare advertiam já em 2018 que a ameaça russa aos cabos deve ser lida menos como preparação para ataque e mais como produção deliberada de incerteza. A estratégia opera em fases. Na fase de paz, frotas como o Yantar mapeiam pontos de vulnerabilidade sem violar nenhuma norma. Na fase de tensão, onde o episódio de abril de 2026 sugere que estamos, essa capacidade vira instrumento de pressão: apoiar a Ucrânia, manter sanções, expandir a OTAN tem um preço mapeado, catalogado e ao alcance de uma âncora. Em cenário de conflito aberto, cortar os cabos seria provavelmente a primeira ação, não a última.
Os submarinos do GUGI não precisam cortar nada para que a estratégia funcione. Navegam sobre os cabos, são rastreados fazendo isso e continuam. A mensagem é clara: sabemos onde estão seus cabos, e você sabe que sabemos.
A OTAN respondeu com a operação Baltic Sentry, lançada pelo Allied Command Operations em 14 de janeiro de 2025, e com o Nordic Warden britânico-norueguês, cuja face pública foi o anúncio de Healey. Tornar a operação pública foi acerto político.
Mas visibilidade não conserta um cabo partido a 3.000 metros de profundidade. O Ministério da Defesa britânico registrou aumento de 30% nas incursões de submarinos russos em águas britânicas nos últimos dois anos. O chefe da Royal Navy reconheceu à BBC que a capacidade aliada de rastreá-los no Atlântico está no limite.
O que consertaria essa situação incômoda é um acordo de implementação da Convenção do Direito do Mar que permita abordar embarcações suspeitas fora do mar territorial, e um protocolo de resposta coordenada que não dependa de cada Estado costeiro decidir sozinho se o problema é seu. Mas ainda é um acordo improvável, enquanto Rússia e China tiverem assento no Conselho de Segurança.
A declaração do secretário de Defesa britânico expressa o que o problema que o Ocidente vê. Mas, neste caso, apenas ver não basta. Os submarinos do GUGI navegam sobre os cabos, são rastreados fazendo isso, e continuam fazendo. Eles não cortam nada, não tomam nenhuma atitude hostil, mas não precisam. A opacidade do oceano já foi convertida em instrumento político, e a incerteza que ela produz já é, por si só, o dano.
Francisco Eduardo Lemos de Matos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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