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Golpistas enganam peruanos para enviá-los ao front russo

7 mai 2026 - 17h10
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Rede internacional vem aliciando trabalhadores com falsas promessas de emprego para forçá-los a lutar pelo Kremlin na Ucrânia, dizem advogados e ativistas. Ao menos 15 cidadãos do Peru já morreram na guerra."Na madrugada, nos confirmaram outros dois mortos, então são quinze", diz à DW Percy Salinas, enquanto faz um café. Foram dias agitados para ele e para outros dois advogados, que denunciaram a existência de uma máfia que engana cidadãos peruanos oferecendo empregos na Rússia como mecânicos ou eletricistas. A farsa logo se revela um plano para enviar homens ao front de batalha na guerra contra a Ucrânia.

Diversos países relatam tentativa de atrair cidadãos à Rússia
Diversos países relatam tentativa de atrair cidadãos à Rússia
Foto: DW / Deutsche Welle

Os quinze mencionados por Salinas são peruanos que, após serem enganados, morreram na guerra. Há outros oito feridos, acrescenta o profissional. "A empresa que organiza tudo está na Colômbia, e as convocações são feitas pelas redes sociais", explica. "Num primeiro momento, pedem vigilantes, motoristas, eletricistas e mecânicos para trabalhar na Rússia. Quando chegam lá, retiram os documentos e os obrigam a assinar um contrato, que é a adesão às forças russas. Se não o fizerem, são agredidos e ameaçados de morte", relata.

Os três advogados defendem dezenas de famílias que exigem do governo peruano intervenção para conseguir que seus parentes retornem o quanto antes ao país. O Ministério das Relações Exteriores do país informou que 18 pessoas que chegaram à embaixada em Moscou foram acolhidas e repatriadas, mas os advogados dizem que, do outro lado do mundo, ao menos 600 homens permanecem à espera de soluções.

Não apenas peruanos são enganados

O fenômeno não ocorre apenas no Peru. Há casos relatados na Colômbia, em Cuba, na Bolívia e no Equador, entre outros países da América Latina. No Brasil, são diversos os casos relatados na imprensa de cidadãos que foram à Rússia com a perspectiva de trabalho e acabaram no front. Índia, Nepal — que chegou a proibir viagens a trabalho à Rússia —, Bangladesh, Iraque e África do Sul engrossam a lista de Estados que denunciaram que seus cidadãos acabaram sendo recrutados com falsas promessas.

O presidente do Quênia, William Ruto, afirmou que seu governo estava preocupado com a quantidade de jovens recrutados ilegalmente para lutar na guerra russa. Já em julho de 2024, durante uma visita a Moscou, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, exigiu da Rússia que dispensasse os indianos que haviam sido enganados para combater.

"O procedimento de recrutamento foi amplamente documentado em relatórios como um modelo aplicado nos países mais vulneráveis da América Latina e da África. Parece que essa rede russa atua para captar justamente pessoas de famílias em grave situação de necessidade", diz à DW Paolo Apaza, membro da organização Diálogos Humanos, que acompanha e investiga o tema.

"É mais barato contratar um latino-americano do que um norte-americano ou um europeu. Além disso, pelo menos no caso dos colombianos, pesa muito o fato de o país ter uma experiência longa e ativa de guerra civil", explica à DW Elizabeth Dickinson, vice-diretora para a América Latina do International Crisis Group. Para ela, os latino-americanos se tornaram atraentes pelo desejo de mobilidade social.

"Na migração, ouvimos histórias de pessoas que foram trabalhar alguns meses em outro país e ganharam bom dinheiro. Isso desperta interesse por essa possibilidade de mobilidade social, com a esperança de poder sustentar as famílias", observa a especialista.

"Uma oferta de 20 mil dólares é atraente. Por isso, há pessoas que assumem esses riscos e decidem ir, sem conhecer a realidade", complementa Salinas.

Mudança de estratégia

Os advogados que representam as famílias peruanas afetadas por esta situação têm sido extremamente críticos em relação às medidas adotadas pelo governo até o momento. "O mínimo que se espera do próprio país é que ele ofereça assistência jurídica — que ele proteja você — e não que diga que lhe falta orçamento para comprar passagens aéreas ou que não pode acomodá-lo na embaixada por muito tempo", explica Salinas, visivelmente frustrado. Isso, afirma ele, foi precisamente o que vivenciaram os peruanos que buscaram assistência junto à missão diplomática peruana em Moscou.

"A reação do governo tem sido tardia. Sob a ótica do direito constitucional peruano, o Estado tem a obrigação de salvaguardar seus cidadãos no exterior. Na prática, isso implica manter uma presença por meio de uma ação diligente, robusta e urgente sempre que direitos fundamentais estiverem em risco", observa Valeria del Pilar Concha, comissária da Diálogos Humanos. Ela lamenta que o Ministério das Relações Exteriores só tenha intensificado seus esforços "após os protestos realizados pelos familiares das vítimas e a subsequente repercussão midiática que estes geraram".

Esta questão é particularmente sensível porque não são apenas os peruanos atraídos para a Rússia sob falsos pretextos que correm perigo; suas famílias também têm recebido ameaças de morte, segundo o advogado Salinas. "Desde que começamos a registrar as denúncias, as famílias viram seus negócios serem ameaçados e receberam vídeos exibindo armas e munições. Meus colegas e eu, enquanto estávamos em frente à embaixada russa, recebemos telefonemas ameaçadores exigindo que fôssemos embora. A polícia e o Ministério Público devem agir imediatamente", exige ele.

Além disso, Salinas alerta que — em decorrência das denúncias públicas feitas pelos familiares — os recrutadores alteraram suas táticas enganosas. "Agora, eles alegam que a Rússia está oferecendo oportunidades educacionais e convidando pessoas para participar de torneios esportivos. No entanto, assim que as vítimas chegam lá, a história se repete: elas são levadas diretamente para a zona de combate."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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