Geração Z lidera busca por imóveis, mas trava na compra
Pesquisa mostra que 59% da Geração Z querem comprar imóveis em 2026, mas apenas 9% das famílias concluíram uma compra no último ano. Juros altos, renda em formação e dificuldade no financiamento travam o acesso à casa própria, apesar da forte intenção de compra.
Pesquisa da Brain Inteligência Estratégica mostra que 59% dos jovens entre 21 e 28 anos planejam adquirir um imóvel em 2026, mas apenas 9% das famílias brasileiras concluíram uma compra nos últimos 12 meses. Já a intenção de compra de imóveis no Brasil atingiu, no quarto trimestre de 2025, a maior taxa da série histórica iniciada em 2019: 50% dos brasileiros declaram planejar a aquisição de uma propriedade nos próximos meses.
O índice representa um crescimento de 5 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2024, quando registrava 45%, conforme levantamento da Brain Inteligência Estratégica em parceria com a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc). No centro desse movimento está a Geração Z, que lidera a demanda de intenção de compra no primeiro trimestre de 2026, um salto de dez pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior.
O descompasso entre intenção e execução expõe um conjunto de barreiras estruturais que afetam especialmente os mais jovens — renda em formação, histórico de crédito curto e dificuldade de compor a entrada exigida pelos bancos em um ambiente de taxa Selic elevada.
O crédito imobiliário ficou mais caro ao longo de 2025, e o perfil econômico típico de um jovem adulto em início de carreira raramente se encaixa nos critérios de aprovação dos financiamentos tradicionais.
Motivações e o peso do aluguel
Entre os que planejam comprar, 38% apontam o desejo de sair do aluguel como principal motivação, segundo dados da Brain.
A busca por autonomia e estabilidade patrimonial aparece como vetor central do comportamento da geração. Para 72% dos entrevistados em todas as faixas etárias, a preferência é pela casa própria — dado que contradiz a narrativa, amplamente difundida nos últimos anos, de que os jovens priorizariam a locação como estilo de vida.
O percentual de intenção de locação entre a Geração Z segue elevado — 41% —, mas especialistas do setor leem esse número como uma etapa de transição, e não como uma escolha definitiva.
Para Ana Carolina Gozzi, co-CEO do Compre & Alugue Agora, o movimento confirma uma mudança cultural que o mercado ainda processa. "A Geração Z não errou ao querer comprar. Errou na ordem: muitos buscam o imóvel antes de construir a base financeira necessária para sustentar um financiamento de 30 anos. Querem imóvel ideal, no bairro ideal, antes mesmo de terem renda compatível com esse sonho", afirma.
Imóvel compacto como porta de entrada
A preferência da Geração Z recai sobre imóveis compactos — estúdios e apartamentos de um dormitório — localizados em regiões centrais ou próximas a polos de trabalho e serviços. O perfil do produto demandado reflete tanto limitações orçamentárias quanto mudanças no estilo de vida: trabalho híbrido ou remoto, menor formação de famílias tradicionais e valorização da mobilidade urbana.
O cenário macroeconômico adiciona pressão ao processo. A Selic, que operou em níveis elevados ao longo de 2025, mantém os juros do crédito imobiliário acima do que seria necessário para ampliar o acesso de compradores de primeira viagem. Dados do setor apontam que 46% das pessoas entre 45 e 79 anos enfrentaram dificuldades com financiamento imobiliário em 2025 — e, para os mais jovens, com histórico de crédito mais curto e renda ainda em formação, o obstáculo tende a ser ainda maior.
Ana Carolina Gozzi observa que a solução passa por uma mudança de mentalidade antes mesmo de uma mudança de mercado. "O jovem que se organiza para comprar um imóvel compacto como primeiro passo está muito à frente de quem espera acumular o suficiente para comprar o apartamento dos sonhos. Patrimônio se constrói em etapas, e o mercado imobiliário brasileiro oferece caminhos para quem entende essa lógica", ressalta.
Demanda represada e perspectivas
Mesmo diante das barreiras, o horizonte de conversão da demanda não é descartado pelo setor. A pesquisa da Brain aponta que 68% dos interessados em comprar pretendem concretizar a aquisição em até dois anos, o que representa um estoque relevante de compradores potenciais no médio prazo. O Nordeste aparece como a região com maior intenção de compra (55%), seguido pelo Sudeste (47%).
O programa Minha Casa Minha Vida é apontado por especialistas como instrumento decisivo para antecipar a entrada de jovens de menor renda no mercado, por utilizar recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e operar com taxas subsidiadas, menos sensíveis às variações da Selic.
O recorde histórico de intenção de compra registrado em 2025 indica que a demanda futura do mercado imobiliário brasileiro está, em grande parte, sendo formada pela Geração Z.
"Transformá-la em vendas efetivas, no entanto, depende tanto da trajetória dos juros quanto da capacidade dos jovens compradores de estruturar seu planejamento financeiro antes de assinar um contrato de financiamento. O descompasso entre os 59% que querem comprar e os 9% que efetivamente compraram é, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior oportunidade do setor nos próximos anos", avalia Ana Carolina.
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