Funeral de jornalistas mortos em Gaza leva críticas internacionais a Israel
Moradores da Cidade de Gaza acompanharam, nesta segunda-feira (11), o cortejo fúnebre de Anas al-Sharif, jornalista da Al Jazeera, de 28 anos, morto junto a quatro colegas em um ataque aéreo israelense. O episódio, ocorrido na noite anterior, gerou condenações de jornalistas, organizações de direitos humanos, Nações Unidas e líderes políticos de vários países.
O ataque atingiu uma tenda de imprensa montada em frente ao Hospital Al-Shifa. Além de Al-Sharif, morreram o correspondente Mohammed Qreiqeh e os cinegrafistas Ibrahim Zaher, Mohammed Noufal e Moamen Aliwa, segundo a emissora. Ao todo, sete pessoas perderam a vida na ação militar.
Antes do sepultamento no cemitério Sheikh Radwan, corpos foram velados no complexo hospitalar de Al-Shifa, envoltos em lençóis brancos. Familiares, colegas e amigos se abraçaram em meio ao luto coletivo. A Al Jazeera afirmou que o jornalista deixou uma mensagem programada para ser publicada após sua morte, escrita no dia 6 de abril e divulgada nesta segunda-feira.
Israel apresentou provas das acusações?
O Exército de Israel (IDF) assumiu a autoria do ataque, alegando que Al-Sharif era líder de uma célula do Hamas, "responsável por lançar ataques com foguetes contra civis e soldados israelenses" e "recebia salário diretamente do Hamas". A Al Jazeera e o próprio jornalista haviam negado as acusações anteriormente.
Segundo os militares, documentos apreendidos comprovariam o vínculo, incluindo "listas de integrantes, registros de treinamentos, agendas telefônicas e comprovantes de pagamento". O IDF também cita publicações antigas de Al-Sharif no X e no Telegram, onde teria elogiado atentados, chamado um atirador de "herói" e usado a expressão "Cavaleiro de Jerusalém". Também foi divulgada foto dele ao lado de Yahya Sinwar, ex-líder do Hamas.
As autoridades israelenses, contudo, não apresentaram provas concretas. A relatora especial da ONU para a liberdade de opinião e expressão, Irene Khan, afirmou que as alegações eram infundadas. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) também disse que Israel não apresentou nenhuma evidênci" contra o repórter.
O escritório de Direitos Humanos da ONU classificou o caso como "grave violação ao direito internacional humanitário" e reforçou que "Israel deve respeitar e proteger todos os civis, incluindo jornalistas". O Repórteres Sem Fronteiras condenou o ataque, chamando-o de "assassinato reconhecido pelo exército israelense".
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer declarou estar "profundamente preocupado" com os ataques a profissionais de imprensa em Gaza. Já o presidente francês Emmanuel Macron voltou a criticar a intensificação da ofensiva israelense, chamando-a de "desastre esperando para acontecer" e sugerindo uma coalizão internacional sob mandato da ONU.
Para a Al Jazeera, Al-Sharif era "um dos jornalistas mais corajosos de Gaza" e sua morte foi "uma tentativa desesperada de silenciar vozes em antecipação à ocupação de Gaza".
Dados do projeto Custos da Guerra, do Instituto Watson, indicam que o conflito em Gaza já matou mais jornalistas do que as duas guerras mundiais, a Guerra do Vietnã, as guerras na Iugoslávia e a guerra no Afeganistão somadas. O governo de Gaza, controlado pelo Hamas, afirma que 238 profissionais morreram desde 7 de outubro de 2023; o CPJ confirma pelo menos 186 mortes.