Filme baseado em romance de Salman Rushdie causa polêmica no Sri Lanka
Para o desgosto de fundamentalistas hindus e muçulmanos, o Sri Lanka serviu de cenário para a versão cinematográfica do romance "Filhos da meia-noite", que alçou à fama o polêmico escritor indiano Salman Rushdie.
A filmagem começou em fevereiro deste ano e terminou no final da semana passada na cidade de Colombo e, segundo a diretora do filme, Deepa Mehta, o trabalho foi feito com discrição para evitar possíveis represálias de fundamentalistas religiosos contra Rushdie e ela mesma.
Rushdie é perseguido pelo Irã - que decretou uma ''fatwa'' o condenando à morte - por seu livro "Versos Satânicos", enquanto a indocanadense Mehta foi alvo da ira do fundamentalismo hindu por seus filmes "Fogo" e "Água".
"Ele tem os muçulmanos... e eu os hindus", ironizou Deepa Mehta em declarações ao jornal canadense "Globe and Mail".
"Queríamos fazer este filme. E o preço é o silêncio", completou a diretora.
Duas semanas após o início das filmagens, a produtora recebeu uma notificação do Governo do Sri Lanka com a revogação da permissão de gravação, segundo Mehta, por queixas das autoridades do Irã, país aliado do estado cingalês.
A diretora e seu marido, o produtor David Hamilton, foram obrigados a recorrer ao presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, que deu sinal verde à filmagem, segundo confirmaram à Agência Efe fontes oficiais e da produção do filme.
"Cada país tem suas coisas e suas queixas, mas no Sri Lanka vivemos em uma sociedade livre e não temos problemas com filmagens deste tipo", manifestou à Efe por telefone Lucien Rajakarunanayake, porta-voz do presidente cingalês.
"Talvez tenha havido algum mal-entendido... sobre se o filme poderia ferir os sentimentos de alguma comunidade religiosa", disse Ravindra Randeniya, diretor da The Film Team, companhia cingalesa associada ao projeto.
"Filhos da meia-noite", escrito em 1981 e vencedor do prêmio Booker, narra a história de Saleem Sinai, um menino nascido à meia-noite de 15 de agosto de 1947, momento em que a Índia conquistava a independência do Império britânico.
A versão cinematográfica, chamada "Winds of change", com roteiro do próprio Salman Rushdie, contará com a presença de alguns atores consagrados, como Seema Biswas, Rahul Bose e Shahana Goswami, e tem estreia prevista para a primavera de 2012.
Após seu lançamento, "Versos Satânicos" foi considerado uma blasfêmia por grupos muçulmanos e obrigou o escritor a viver escondido e protegido pela polícia durante anos, após receber uma sentença de morte do aiatolá iraniano Ali Khomeini.
Mehta esteve na mira do fundamentalismo: seu filme "Fogo" (1996) sobre um relacionamento lésbico motivou ataques contra vários cinemas na Índia, após organizações hindus o classificarem como "imoral".
Seu filme seguinte, "Água" (2005), igualmente polêmico, também foi rodado no Sri Lanka, país que havia impedido a filmagem de uma adaptação indiana escrita por Rushdie na década de 90.
Para "Winds of Change", como contou Mehta ao "Globe and Mail", o grande desafio era manter a discrição, uma questão difícil para um filme com 800 figurantes, e conseguir transferir para a tela a ambiciosa estrutura do romance.
"É o maior filme que fiz. Era um desafio logístico. Uma equipe enorme, 64 locações, três décadas. O coração e a alma do livro estão intactos, e espero que seu humor e seu conteúdo emocional", declarou Mehta.
"Esperemos que o filme seja bom", disse à Efe o porta-voz da Presidência, Rajakarunanayake, após confirmar o fim das filmagens.