Fé, discurso e urna: como a religião atravessou a atual campanha presidencial
No Brasil, a religião é a gramática cultural dominante. Mais do que uma simples expressão de fé individual, a religião opera na política como um registro sociolinguístico de ordem e autoridade
A disputa presidencial de 2026 expõe a religião como a principal linguagem cultural da política nacional, com Lula e Flávio Bolsonaro disputando os votos de católicos e evangélicos. Segundo dados do ISER, a fé confere legitimidade aos discursos, mas o eleitorado não vota em bloco homogêneo nem segue cegamente seus líderes. Mais do que disputas morais, os fiéis rejeitam a partidarização dos templos e priorizam pautas sociais, exigindo projetos focados no bem-estar, na economia e no cuidado social.
Às vésperas das eleições de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) - os dois principais candidatos à presidência no Brasil - estiveram envolvidos em polêmicas cujo tema principal é o mesmo: religião.
No dia 23/08, no debate da Band, Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo prometendo que um de seus primeiros atos, se eleito, seria decretar que "o Brasil é do Senhor Jesus Cristo".
Semanas depois, um comentário na GloboNews sobre a reação de setores católicos a uma suposta mobilização evangélica circulou nas redes atribuindo ao candidato um plano para retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida.
Flávio desmentiu o projeto e a emissora pediu desculpas, mas a notícia circulou amplamente sem que parte da população recebesse os esclarecimentos - efeito típico das fake news.
Para se aproximar dos católicos, Flávio ergueu uma imagem da santa e participou de um podcast católico. No entanto, um dia antes, acusou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de atuar com o PT na disseminação de conteúdos sobre a padroeira.
Embora a CNBB tenha negado, a proximidade entre Lula e a Igreja Católica foi o tema da semana anterior. Bispos e arcebispos apoiaram pautas atribuídas à campanha petista, sugerindo um endosso institucional. Além disso, Lula levou ao horário eleitoral uma nota de repúdio ao episódio envolvendo Nossa Senhora: "atacar uma religião é atacar todas".
A fé como linguagem de campanha
No Brasil, a religião é a gramática cultural dominante. Mais do que uma simples expressão de fé individual, a religião opera na política como um registro sociolinguístico de ordem e autoridade. Ao recorrer a signos compartilhados — sejam citações bíblicas, o apelo à transcendência ou a defesa de ideias —, os candidatos não estão apenas fazendo proselitismo, mas transferindo a credibilidade do sagrado para seus discursos seculares.
A fé não opera no debate público apenas como um sistema de crenças individuais, mas como discurso e um marcador que classifica atos, discursos, atores e instituições . Da mesma forma, as narrativas e signos de matriz religiosa fornecem visões coletivas sobre o que é justo, autêntico e de interesse comum, funcionando como importantes dispositivos produtores de sentidos para a vida cotidiana e a ordenação social.
A pesquisa do ISER "Religião e Vida Pública no Brasil", que ouviu 15 mil pessoas em 412 municípios, mostra que católicos e evangélicos representam 79% da população. Um contingente de 73% de brasileiros declaram usar a Bíblia como fonte de ensinamentos morais e diários, e 67% consomem música gospel regularmente. Em um eleitorado com tamanha penetração da fé, acionar símbolos religiosos não é mera estratégia de engajamento, mas uma tentativa de usar a linguagem da maioria para construir pontes de legitimidade com a burocracia do Estado e com os eleitores.
O Mosaico da Fé
A pesquisa do ISER revela também um campo religioso muito mais complexo e poroso do que a divisão simplista entre "católicos de um lado e evangélicos de outro".
O grande equívoco das estratégias eleitorais está em tratar os fiéis como "blocos rígidos", quando os dados apontam para um cenário de fluxo e camadas.
O Brasil permanece majoritariamente católico, somando 50% da população (31% praticantes e 19% não praticantes), enquanto os evangélicos representam 29% (21% pentecostais, 5% protestantes e 3% sem igreja) e os sem religião chegam a 14%.
No entanto, a dinâmica interna desfaz as fronteiras estáticas: - 23% dos brasileiros já trocaram de religião ao longo da vida; - 6 em cada 10 jovens com menos de 35 anos não são católicos; - 55% das pessoas sem religião consomem música gospel no dia a dia.
A pesquisa Quaest divulgada na última segunda-feira (28/09) reflete essas tendências: Lula lidera entre católicos (48% contra 29% de Flávio), enquanto Flávio lidera entre evangélicos (46% contra 27% de Lula, que avançou em relação aos 23% da semana anterior).
Porém, estes números retratam inclinações gerais de grupos, e não um comportamento homogêneo.
A diferença entre pertencer e obedecer
O estudo do ISER ajuda a compreender por que a religião estrutura a linguagem do debate público sem necessariamente determinar a escolha do voto. A identidade religiosa não se traduz em um alinhamento automático a programas partidários ou orientações religiosas.
Embora 54% dos entrevistados se declarem conservadores, 75% apoiam o Bolsa Família e 66% defendem a taxação dos mais ricos. Esses dados indicam que o conservadorismo moral coexiste com uma forte demanda por proteção social e redistribuição econômica.
Além disso, o levantamento aponta uma rejeição majoritária dos fiéis ao uso do púlpito para fins eleitorais. A pesquisa aponta que oito em cada dez entrevistados são contrários à discussão política dentro de espaços religiosos. Essa informação desmistifica a ideia de que o eleitorado evangélico ou católico segue compulsoriamente a orientação de suas lideranças.
O segmento evangélico, por exemplo, é atravessado por clivagens de classe, gênero e região, variáveis socioeconômicas que frequentemente moldam a visão de mundo e as escolhas do eleitor com mais força do que a própria filiação institucional.
A gramática do cuidado como ponto de convergência
É preciso evitar uma falsa contradição: a religião não decide a eleição por si só, mas é o canal pelo qual as demandas do eleitorado são traduzidas. Por essa razão, a mobilização da linguagem religiosa não se limita ao pautão de costumes, mas alcança as políticas públicas do cotidiano. Um exemplo concreto dessa articulação ocorre quando a candidatura de Lula acena para as igrejas como parceiras fundamentais na execução de uma política nacional de cuidados para a população idosa.
A religião orienta a visão de mundo e os valores de grande parte dos brasileiros, mas, na hora de decidir o voto, esses valores dividem peso com preocupações materiais concretas: saúde, trabalho, renda, segurança e bem-estar familiar.
Os dados sugerem que a população não está medindo o nível de fé individual dos candidatos, mas avaliando sua capacidade de gestão e de atendimento às demandas do cotidiano. Nesse contexto, a análise das pesquisas indica que os candidatos que souberem traduzir seus projetos na gramática do cuidado, da estabilidade econômica e do amparo social — utilizando a linguagem cultural da fé sem descambar para o sectarismo — tendem a encontrar maior ressonância junto ao eleitorado.
Manuela Lowenthal não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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