EUA e Canadá: de parceiros históricos a uma relação marcada por tarifas e disputas de soberania
Escalada comercial entre os dois países ganhou novos contornos após Trump determinar a mudança do nome do Lago Ontário e ameaçar ampliar tarifas
As relações entre Estados Unidos e Canadá vivem grave crise, impulsionada por disputas de soberania e uma escalada de tarifas comerciais. Após Washington taxar bilhões em produtos canadenses para forçar concessões assimétricas, o Canadá aplicou retaliações equivalentes e busca diversificar parceiros com o Mercosul e a China. O impasse atual ameaça desestabilizar décadas de profunda integração econômica, comercial e de segurança entre os dois países.
As relações bilaterais entre Estados Unidos e Canadá se encontram em um dos momentos de maior tensão das últimas décadas. Um exemplo emblemático é o recente anúncio de Trump sobre a mudança do nome do Lago Ontário, que fica na fronteira entre os dois países, para Lago América.
A medida provocou reação imediata no Canadá. O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que o nome histórico do lago precede a existência dos dois países. A mudança vale apenas para referências oficiais nos Estados Unidos, mas já pode ser vista nos principais mecanismos de busca.
O episódio é simbólico, mas ilustra a deterioração de uma relação que, durante décadas, foi marcada por profunda integração econômica, militar e cultural. E ocorre poucos dias depois de Estados Unidos e Canadá encerrarem sem acordo uma rodada decisiva de negociações comerciais. Em 21 de agosto, Washington passou a aplicar tarifas adicionais de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses, atingindo itens como bebidas, equipamentos esportivos, cimento, vestuário e produtos agrícolas. Eles correspondem a cerca de 5% do volume de comércio entre os dois países.
A crise ainda promete se agravar. O Canadá anunciou tarifas de retaliação de valor equivalente sobre produtos como alumínio, móveis, frutos do mar e laticínios, que entrarão em vigor em 8 de setembro. Além disso, em 1º de janeiro de 2027, está prevista a elevação para 50% das tarifas americanas sobre veículos e autopeças canadenses. Toyota e Honda, que produzem mais de 75% dos veículos fabricados no Canadá, estão entre as empresas potencialmente mais afetadas.
Justificativa de reciprocidade
O governo americano argumenta que o Canadá usufrui de vantagens de acesso ao mercado dos Estados Unidos que não seriam recíprocas, prejudicando a produção doméstica americana em diversos setores. As tarifas, porém, também têm sido acompanhadas por tentativas de avançar outros interesses políticos e de sujeitar os parceiros de Washington a condições comerciais mais favoráveis aos EUA.
A dinâmica de acordos celebrados com outros países também mostra uma tendência de Washington buscar acordos marcados por ganhos assimétricos, que favorecem os EUA de forma desproporcional em relação aos seus parceiros. Nesse contexto, as tarifas são utilizadas como instrumento de pressão para obter concessões econômicas e políticas que atendam aos interesses americanos, sobretudo à manutenção de sua primazia global.
Além disso, as tarifas impostas ao Canadá pretendem favorecer produtores agropecuários americanos. Isso pode contribuir para melhorar a aprovação do presidente à medida que se aproximam as eleições de meio de mandato.
Disputa comercial que vem de antes
Essa não é a primeira vez que a relação comercial entre os dois países é tensionada pela tentativa de revisão dos termos de comércio. Ainda em seu primeiro mandato, Trump renegociou o NAFTA (North-America Free Trade Agreement), acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá criado em 1994. O tratado foi substituído pelo USMCA (United States, Mexico and Canada Trade Agreement).
Na nova versão, os Estados Unidos buscaram assegurar condições mais favoráveis ao país, o que entrou em tensão com a lógica que orienta os acordos de livre comércio. Esses tratados são, em geral, construídos para garantir tratamento preferencial entre os países envolvidos, facilitando os fluxos comerciais e buscando eliminar progressivamente barreiras tarifárias e não tarifárias.
Depois disso, em fevereiro de 2025, no início do seu segundo mandato, Trump determinou a aplicação de tarifas de 35% sobre importações provenientes do Canadá. A justificativa apresentada naquele momento era de que o país não estaria fazendo o suficiente para impedir o tráfico de drogas pela fronteira. Além disso, Washington impôs tarifas específicas sobre setores importantes da economia canadense, como alumínio, aço e automóveis. O principal alvo foi a indústria de laticínios canadense e outros bens agrícolas.
A Casa Branca recorreu à Seção 338 do Tariff Act de 1930, dispositivo que permite ao presidente impor tarifas para responder ao que considera tratamento discriminatório ou desigual contra o comércio americano. Criada durante a era do protecionismo, na Grande Depressão norte-americana, essa legislação nunca havia sido utilizada dessa maneira antes e sua aplicação provoca questionamentos jurídicos.
Uma relação econômica difícil de substituir
O Canadá é o segundo maior parceiro econômico dos Estados Unidos, e cerca de 70% de suas exportações são direcionadas ao mercado americano. Em 2025, o comércio de bens e serviços entre os dois países totalizou US$ 879,9 bilhões. No período, os EUA exportaram US$ 426 bilhões e importaram US$ 454 bilhões em produtos canadenses, gerando um superávit comercial para o Canadá.
O Canadá também é o maior fornecedor de energia para os Estados Unidos. Apesar das tarifas impostas desde o início da atual disputa, o comércio entre os dois países registrou aumento na comparação ano a ano.
Além disso, a integração não se restringe ao comércio. A parceria é profunda e envolve aspectos de segurança e cultura. Os dois países mantêm uma longa cooperação militar, inclusive como membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Os Estados Unidos têm demandado acesso preferencial à exploração de minerais críticos no Canadá, o que foi rejeitado pelo governo canadense. Minerais críticos e as terras raras são recursos estratégicos utilizados em setores como defesa e tecnologia. A China domina boa parte do processamento e refino de diversos desses minerais, o que dá a Pequim um importante instrumento de barganha diante da acirrada competição com os Estados Unidos pela liderança tecnológica e econômica global.
Canadá e México buscam alternativas
Segundo o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, Washington ofereceu muito pouco e fez demandas excessivas ao Canadá. Diante disso, o país tem buscado diversificar seus parceiros comerciais para reduzir sua dependência do mercado americano e aumentar a resiliência da sua economia diante das medidas tarifárias dos Estados Unidos.
Entre esses esforços, destaca-se a retomada, desde 2025, das negociações de um acordo de livre comércio com o Mercosul. Em janeiro, o Canadá também anunciou a negociação de um acordo com a China, iniciativa que levou Washington a ameaçar com tarifas de até 100% caso as negociações avançassem.
Paralelamente, o México acompanha com preocupação a deterioração das relações entre EUA e Canadá. O país também vem sendo pressionado por Washington a renegociar seus termos de comércio. Atualmente, produtos mexicanos estão sujeitos a tarifas de 50% sobre o alumínio e de 25% sobre automóveis e autopeças. O governo de Claudia Sheinbaun tenta há cerca de um ano negociar a redução dessas tarifas, mas o impasse entre os dois vizinhos ao norte aumenta a incerteza sobre as negociações mexicanas.
O que está em disputa, portanto, é o modelo de relacionamento que sustentará a economia norte-americana nos próximos anos. Por enquanto, não há uma nova rodada de negociações oficialmente marcada. O governo canadense sinaliza que pretende preservar o USMCA, mas que não está disposto a aceitar os novos termos impostos por Washington. A disputa transformou-se em um teste sobre até onde os dois vizinhos estão dispostos a alterar uma parceria que, até pouco tempo atrás, parecia uma das mais estáveis do sistema internacional.
Fernanda Brandão não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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