'Eu só queria fazer um dinheiro extra': ele foi mula do tráfico e acabou preso na 1ª viagem com carga de cocaína
Hermes* foi detido a 4 mil quilômetros de sua casa, ficou seis meses sem ver a família e hoje tenta se reerguer
A história de Hermes da Silva*, de 38 anos, poderia ser simples, mas não é. Em 2020, ele foi preso após agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontrarem uma quantidade relevante de cocaína escondida no veículo que dirigia. “Na hora, pra te falar a verdade, deu um branco total na minha vista. Eu não conseguia enxergar nada”, relatou.
- Essa reportagem faz parte do especial Bagagem Oculta, que traz histórias e reconstrói o caminho de quem arriscou a vida por causa do tráfico de drogas. Leia o relato de Maria Solange Paulino Amorim
Nascido e criado no estado do Acre, ele e sua família nunca tiveram relação com o tráfico de drogas. Apesar de não ter crescido em meio ao luxo, nunca faltou comida e educação. Na juventude, começou a trabalhar. Bem relacionado, sempre manteve contato com diferentes tipos de classes sociais. De acordo com Hermes, a oportunidade de atuar como ‘mula’ surgiu após um revés financeiro, quando estava voltando das férias do trabalho.
“Eu trabalhava na época, tinha carteira assinada e tudo, mas estava num momento difícil financeiramente. Comecei a falar para conhecidos da cidade que precisava trabalhar e aí já viu, né? Um conhecido indica outro… Sei que, nesse momento, eles [pessoas envolvidas com o tráfico] me ofereceram o serviço”, lembrou.
“Eu aceitei porque era uma oportunidade de dinheiro extra. Estava precisando de grana, nunca tinha feito uma viagem dessas e acabei caindo por causa da ganância. Acredito que a maioria das pessoas que faz esse tipo de serviço pensa nisso também” -- Hermes da Silva*
Os contratantes foram claros sobre a tarefa. “Desde o começo, me deram ciência do serviço. Não fui enganado nem chantageado. Eles falaram: ‘Ó, o serviço é esse. Se você quiser, faz. Só peço que obedeça e siga nossas coordenadas para não ter problema’”, relembra, referindo-se às orientações sobre como agir e o que falar.
A primeira e última viagem
A missão de Hermes, segundo ele, era conduzir um veículo com droga do Acre ao Peru. Pelo trabalho, receberia R$ 15 mil, quantia que faria diferença naquele momento. À primeira vista, considerando a distância geográfica, a tarefa parecia simples. No entanto, após fechar o acordo, ele começou a pensar em desistir. “Pensei, sim. Cheguei a comentar com eles, mas já estava tudo combinado”, disse, referindo-se aos preparativos do veículo. “Não tinha escapatória, a não ser que eu arrumasse alguém para ir no meu lugar — e não consegui”.
Orientado sobre o trajeto, o que dizer e como dirigir, ele não sabia onde a droga estava. “Eu sabia que estava carregando, mas não sabia onde. Acho que não contam justamente para evitar nervosismo”, relembrou.
Após horas de estrada, faltando só 20 km para chegar ao destino, ele foi abordado pela PRF.
“Fiquei nervoso. Deu um branco total e não conseguia enxergar nada. Fui me escorando no carro. Eles perceberam o nervosismo. Comecei a gaguejar. Aí disseram: ‘Vamos voltar para a barreira, vamos fiscalizar o carro. Se não tiver nada, você está liberado’. Nessa hora, pensei: ‘Agora já era’” -- Hermes da Silva*
“Eu já estava no trecho final, mas havia uma fiscalização na estrada. Fui abordado porque estava com um carro da fronteira, e eles suspeitaram”, relembrou
“Tortura psicológica” e recomeços
Na ocasião, preso a cerca de 4 mil quilômetros de casa, o acreano viu sua vida desmoronar. Precisou acionar um advogado, que comunicou a família e passou a responder pela acusação de tráfico internacional de drogas. Dentro do sistema prisional, ele diz que “passou bem”, mas o maior desafio foi lidar com a distância da família.
“Eu só pensava na minha família, no arrependimento. Ninguém da minha família tinha passado por isso. Quem tem uma relação familiar boa sofre mais, é uma tortura psicológica. Você fica pensando no que fez, esperando o tempo passar. Mas quem mais sofre é a família. Só fui vê-los seis meses depois, e isso me marcou muito”, contou.
Após cumprir parte da pena, por ser réu primário, ter bons antecedentes, residência fixa e bom comportamento, Hermes conseguiu o direito de cumprir o restante da pena em liberdade. Fora da prisão, a família o acolheu, mas impôs uma condição: que deixasse o Acre. Hoje, ele mora no Sul do País, onde tenta reconstruir a vida. “A decisão de mudar não foi minha, foi da família. Eles decidiram que eu não voltasse. Acho que para me preservar. Lá, você acaba reencontrando as mesmas pessoas. Aqui, eu rompi totalmente os vínculos.”
“Olhando para trás, eu não faria isso. Não vale a pena. As pessoas próximas sofrem muito. A vida é curta, passa rápido. É melhor tentar viver tranquilo, porque esses problemas não valem a pena” -- Hermes da Silva*
Anos depois, ele afirma que ainda precisa manter cautela. “Como ainda estou respondendo, não posso sair da linha. Se eu fizer escândalo, posso ser penalizado.”
'Mulas do Tráfico': PF registrou 'onda' de casos
Nos últimos quatro anos, 3.023 pessoas foram presas transportando drogas no corpo ou em malas nos aeroportos do Brasil. Em 2024, foi registrado um pico de detenções de ‘mulas do tráfico’, mas em 2025, o número voltou a cair, de acordo com um levantamento exclusivo realizado pela reportagem do Terra, com base em dados coletados pela Polícia Federal.
Em 2022, por exemplo, houve 600 prisões de mulas do tráfico no Brasil. Já em 2023, a quantia passou para 769, até chegar ao pico de 2024, 965. Mas, no ano passado, pela primeira vez em quatro anos, o número apresentou recuo, batendo 689 casos. Conforme o levantamento realizado, pode-se considerar que houve 10 casos a cada 9 dias.
Embora os números de ‘mulas do tráfico’ presas em aeroportos brasileiros tenham apresentado queda após pico de 2024. Quando se usa a régua do gênero nos dados, nota-se que não existe predominância isolada entre homens e mulheres, mas sim uma sazonalidade expressiva. Mulheres foram maioria em 2022 (301) e 2024 (495), o ano do pico; já os homens, respectivamente, assumiram a liderança em 2023 (403) e 2025 (349).
A grande disparidade encontrada nos dados, apresenta-se quando faz-se o recorte de nacionalidade das ‘mulas do tráfico’. Segundo os dados levantados pela Polícia Federal, 69% dos casos registrados nos últimos quatro anos são de brasileiros, representados por 1.050 ocorrências. Em contrapartida, os estrangeiros representam 31%, com 471 casos.
Embora o país tenha registrado mais de 3 mil pessoas presas por tráfico nos aeroportos brasileiros nos últimos anos, o doutor em ciências sociais e professor de Direitos Humanos e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Cezar Bueno de Lima, apontou à reportagem que para todos os casos de crimes registrados, em geral, há subnotificações --quando não há registro para as autoridades.
“A gente chama de cifra oculta da criminalidade. Simplificando aqui, didaticamente a cada mil crimes que acontecem no Brasil menos de 3% chegam ao Poder Judiciário e isso se aplica também no caso do tráfico de drogas. Ou seja, 97% não são comunicado” -- Cezar Bueno de Lima, doutor em ciências sociais e professor de Direitos Humanos
Para o especialista, essa questão, inclusive, atrapalha a repressão do Estado contra a criminalidade, tornando-a mais simbólica do que efetiva, já que não se tem registros de todos os crimes que ocorrem no País, dificultando o planejamento para combatê-los.
*A reportagem usou nome fictício para não identificar o personagem principal que preferiu por não se identificar