‘Voltei cheia de droga no corpo’: ex-mula do tráfico perdeu filho para o vício e virou símbolo de superação após ser notada por Madonna
Maria Solange agora cursa psicologia e se dedica a trabalhar e escrever suas memórias
“Nunca fui presa. No dia em que a gente chegou ao aeroporto do Ceará, eu vinha toda cheia de droga no corpo. Quando eu passei, tinha dois policiais com dois cachorros. Eu disse: ‘Pronto, é aqui que eu vou ficar. Eles estão olhando para mim, eles vão se tocar, mas seja o que Deus quiser, que Deus me ajude’. Aí eu passei, nem cachorro, nem policial, nem ninguém me parou”. Esse relato é de Maria Solange Paulino Amorim, de 56 anos, ex-usuária de drogas, ex-mula do tráfico e, atualmente, influenciadora, estudante de psicologia e futura escritora.
- Essa reportagem faz parte do especial Bagagem Oculta, que traz histórias e reconstrói o caminho de quem arriscou a vida por causa do tráfico de drogas
Da infância humilde à juventude vulnerável, do uso de drogas à exploração do tráfico, do ‘contato’ com Madonna à universidade, a vida de Maria Solange deu muitas voltas e renderia, com facilidade, um filme de Hollywood ou até mesmo um best-seller. Ela, inclusive, tem planos para produzir a autobiografia. Segundo a influencer, falta apenas a editora, porque a história ela já tem.
Uma Maria do Brasil
Nascida e criada em Fortaleza, no Ceará, Maria Solange teve um início de vida bastante ‘triste’, como ela mesma define. O pai morreu precocemente, aos 35 anos, e a mãe teve que trabalhar para garantir o sustento dela e da irmã, Rosângela. Ainda assim, o ambiente familiar não era convidativo. “Não tenho muitas lembranças boas da infância”, recorda.
Na juventude e adolescência, por questões familiares, viveu situação de vulnerabilidade domiciliar. “Eu morava um tempo com amigas, outro com familiares e, aí, sucessivamente”. Foi nessa época que ela teve o primeiro contato com as drogas. Em uma festa com colegas, ela foi apresentada à maconha; inicialmente, recusou, mas depois cedeu. “Me afastei, falei: ‘Nunca fumei isso. Eu fumo cigarro’. E realmente eu era fumante. Fumei, fiquei trilouca, gostei e continuei a fumar. Eu tinha uns 18 anos. Depois disso, eu conheci muitas outras drogas, cocaína e cola, graças a Deus não viciei.”
“Me acostumei e fui querendo mais e querendo mais. Hoje eu te digo com todas as letras: é difícil um cabra me pegar para um tipo desse ato. Mas, na época, não. Na época, eu era uma menina, uma menina com medo, uma menina traumatizada, uma menina angustiada” -- Maria Solange ao Terra
Foi nesse ‘miolo de tempo’ que Maria Solange teve sua primeira filha, com quem não tem contato hoje. Depois, mudou-se para Caucaia, ainda no Ceará, onde conheceu um rapaz e se casou. Foram sete anos de relacionamento até decidirem pela união civil e morar juntos. Segundo ela, os dois tinham o costume de fumar maconha, mas nada além disso. Até que, um dia, a maconha acabou e o marido apareceu com algo diferente em casa: o crack.
“O crack entrou na minha vida como um tsunami. O que me fez usar drogas, usar o crack, não foi ter sido abandonada pela família, não foi por não ter um lar próprio, não foi por falta de carinho. Entrei por curiosidade e influência” --Maria Solange
“Estava faltando maconha onde eu morava e só existia o tal crack. E aí meu marido estava em casa, usando pedra no quarto. Eu estava na abstinência, na fissura, e pedi: ‘E se eu me viciar?’. Ele disse: ‘Nem me vicio, fumo quando quero’. Mentira, fumava sem eu saber. Ali foi o meu fim. Passei 12 anos da minha vida usando crack, a gente começou a cheirar e fomos perdendo tudo. Começamos pelos móveis e terminamos na casa, vendemos tudo. Fomos morar no fundo de um quintal, na casa da minha cunhada, e foi aí onde entra Manaus.”
‘Fui mula do tráfico junto com meu filho’
Por causa da droga, Maria conhecia algumas pessoas envolvidas com o tráfico. Em certo momento, a relação ficou tão próxima que enveredou para um convite.
“Conheci esse traficante e ele me fez a proposta, me perguntou se eu tinha coragem de fazer um avião, que, no linguajar mais correto, era ser mula. A ideia não era levar drogas, mas trazê-las de Manaus. Eu topei, a grana era boa, eu sabia que eu ia usar o crack com ela. Então, planejaram tudo, ajeitaram tudo, passagem, isso aconteceu por volta de 2009”, relembra.
“Eu fui para Manaus. E, chegando lá, passei uma semana e voltei, graças a Deus, que é poderoso e onipotente, porque eu poderia ter sido presa", relembra Maria Solange antes de dar mais detalhes do sufoco que passou durante a realização do trabalho.
"Voltei de Manaus toda cheia de droga no corpo. Era um fedor tão grande que eu não sei. Eu tenho certeza de que Deus tapou o olfato daquelas pessoas. Enfim, entrei, passei por todos os detectores, passei por tudo, raio-X e outro que é para armas, cheguei no Ceará” -- Maria Solange
Bem-sucedida no trabalho, os traficantes ofereceram a Solange ‘fazer outros aviões’. Em outra viagem, levou pasta de cocaína e, pelo trabalho, recebeu R$ 2 mil. Depois, em outra missão, a carga seria bem maior e, por essa razão, ela precisaria de uma outra pessoa como aliada na viagem. Na época, ela já tinha tido seu segundo filho, Xavier, que ainda era um adolescente, e, após relutância, aceitou levá-lo como mula.
Pedi que indicassem alguém e eles falaram: ‘Leva teu filho’. Falei: ‘Não posso levar, vai que eu caio’. Não tinha como ir só eu, e esse único alguém que eu tinha era meu filho. Eu costumava dizer que tinha levado meu filho para a morte, pelo motivo do que veio a ocorrer”.
Na época, Solange e Xavier viajaram com os 80 kg de maconha nas bagagens, 40 kg para cada. Segundo ela, tudo era organizado pelos criminosos; eles apenas pegavam a mala e transportavam. O combinado, segundo a própria, era R$ 5 mil pelo serviço, mas ela e o filho não viram nem 10% dessa quantia. De volta do Paraguai, em Manaus, eles ainda demoraram para assimilar o golpe. “Quando chegamos da viagem, depois que entregamos a droga, você acredita que a única coisa que a gente recebeu foram R$ 100?”, disse.
“Conseguimos passar com esses 80 kg e, chegando de lá, o [traficante] deixou a gente no hotel, ficamos lá uma semana, depois todo mundo sumiu, nunca mais os vi”, complementou.
Maria lembra que, além dos R$ 100, também foi deixado com ela um telefone celular, que, após as diárias expirarem, ela usou para comprar drogas. Sem ajuda, ela e o filho --que, na época, tinha 15 e também era usuário --tentaram recomeçar a vida. Foram 12 anos no estado amazônico; segundo a influencer, a cada ano “se aprofundando mais na droga”.
‘A pior dor que uma mãe pode sentir’
Os anos de Maria Solange em Manaus são de perdas irreparáveis, como fica claro pela voz embargada e olhos marejados. “Quando cheguei, pesava 58 kg e, com o tempo, passei a pesar 39 kg em Manaus. Tudo por causa do óxi, que, entre aspas, é o crack de lá. As pessoas me perguntam como eu não morri, porque muitos anos de óxi [é surreal]."
O oxi é feito a partir da cocaína e funciona como uma espécie de "crack oxidado", produzido com pasta de coca misturada a combustíveis e cal virgem.
Na capital de Amazonas, Maria Solange, fez algumas amizades, como Edmar, o dono de um bar conhecido da região, e outro rapaz, que cedeu a edícula de sua casa para que ela morasse com o filho. Faziam qualquer tipo de coisa para conseguir droga: pediam aqui e ali, mentiam para uns e outros para ganhar alguma coisa, tudo por um pouco de óxi. “Passamos por muita coisa e aprendemos muito nesses 12 anos.”
Com o tempo, o filho passou a consumir mais e mais drogas, e chegou a apanhar por causa de dívidas, tudo sob os olhos de Maria Solange. Em abril de 2019, a cobrança ficou cara demais e chegou a pior notícia da vida.
“Lembro que era um dia de jogo, São Paulo contra não sei quem. Chegaram em mim e disseram que ele tinha sido assassinado” -- Maria Solange
Segundo testemunhas, Xavier estava com um grupo de conhecidos quando foi abordado por um carro e levado por homens encapuzados. Ela correu atrás dele em algumas delegacias, mas não teve sucesso. Dias depois, foi avisada de que um corpo foi encontrado na caçamba de lixo. Se era ou não Xavier, não sabe; ela nunca encontrou o corpo do filho.
“Para mim, era o fim. Eu só pensava em usar até morrer. Até que, um dia, usando no meu quarto, eu vi uma luz e parei para louvar a Deus, comecei a clamar por socorro. Não aguentava mais, não queria acabar como meu filho. Eu precisava de um resgate, de uma chance. Sabia que, se permanecesse ali, eu ia morrer”.
“Depois disso, no outro dia, por volta das 19 horas da noite, eu estava usando droga quando me deu vontade de ir ao bar ver se eu conseguia um trocadinho. A droga já estava acabando e eu estava com saudade do meu filho. E aí eu cheguei nesse bar, que é do Edmar, e disse: ‘Edmar, quero pedir a você: Coloca aí uma música para eu dançar para o Xavier, que eu quero dançar para o meu filho’. Aí ele disse: ‘Tem certeza? O pessoal vai achar que você não está nem aí para o teu filho’. Eu falei: ‘Não tô nem aí para ninguém. Ninguém sabe da minha dor, nem você sabe da minha dor, ninguém conhece a dor de ninguém’. Foi quando ele colocou a música da Madonna, nossa rainha, minha queen, linda”.
“Hoje, eu estou conformada, porque a ferida jamais, jamais fecha. Ela só está adormecida” -- Maria Solange
Assim que ressoaram as primeiras batidas de Holiday, de Madonna, Maria Solange dançou e girou. Visivelmente magra e com os olhos cheios de lágrimas, ela foi filmada por Edmar. “É pelo meu filho”, diz ela à câmera, sem parar de dançar o smash hit da Rainha do Pop. Quem via o vídeo sem contexto, sequer podia imaginar o que a hoje influencer passava. Na época, ela chegou a pedir que o vídeo não fosse compartilhado, vontade que não foi respeitada.
O vídeo viralizou nas redes sociais e chegou até a própria Madonna, que não apenas visualizou, mas comentou e compartilhou em seu perfil oficial. “Esse rapaz soltou o vídeo e, através desse vídeo, a Madonna me notou; foi através desse vídeo que Mayara Brilhante, dos Parceiros Brilhantes, me conheceu; foi através dele que consegui ajuda para custear minha viagem para São Paulo e as despesas da minha reabilitação.”
“Eu estava como indigente, não tinha RG nem certidão de nascimento, eles me ajudaram com tudo, custearam o tratamento, fora os remédios. E, lá dentro da clínica, fui estudando aquilo tudo. Pensei: ‘Vou aprender aqui porque, quando eu sair, ninguém me segura, vou voltar a estudar e ser advogada’. Mas depois mudei, agora quero ser psicóloga, porque só sendo uma psicóloga eu vou poder adquirir uma conexão mais real com as pessoas”, conta.
A chance de mudar de vida
E assim foi feito: Maria Solange se reabilitou, ganhou seguidores nas redes sociais por causa de sua história --atualmente são mais de 170 mil-- e, em 2024, ganhou ingressos VIP para assistir Madonna de pertinho. O grande encontro com a Rainha do Pop não aconteceu, mas ela não desistiu. Ainda sonha em agradecer pessoalmente pela ajuda dada.
Após a reabilitação, Maria Solange decidiu que não voltaria a Manaus, mesmo sabendo que, após o vídeo, ela se tornou popular na região. “Manaus, em peso, todos têm um carinho por mim. Muitas pessoas dizem assim: ‘Se tu vier para Manaus e se candidatar, tu ganha’. Mas deixa eu aqui mesmo, estou bem assim, mas, para mim, saber que a mulher, com quem eu sempre vibrei com os vídeos, com as músicas, tinha me notado, para mim, foi um privilégio. Eu ainda tenho essa vontade de dar um abraço nela, de gratidão, sabe?”.
Acolhida por parentes, Maria mudou oficialmente de endereço. Atualmente, ela está radicada em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Após a reabilitação, ela se realocou no mercado de trabalho, deu início ao EJA (Educação de Jovens e Adultos), o qual finalizou em 2025, e passou a mesclar compromissos de influenciadora com o serviço CLT. Ainda no passado, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para continuar o sonho de ser psicóloga; entretanto, apesar do esforço aplicado nos estudos, não conseguiu uma nota que possibilitasse uma bolsa integral em alguma universidade.
E se Madonna e os Parceiros Brilhantes --ONG que apoia Maria Solange até hoje-- foram a primeira e segunda luz que ajudaram na jornada da ex-usuária e ex-mula do tráfico, o cantor Jão foi a terceira. Em uma entrevista ao programa Sem Censura (TV Brasil), a hoje influenciadora pediu espaço a Cissa Guimarães para apelar a alguém que a apoiasse nos custos universitários.
“Eu tinha acabado de me formar no EJA e fui dar uma entrevista falando disso, eu fiz uma prova na Cruzeiro do Sul, mas, até então, só tinha ganhado 20% de bolsa e não tinha como arcar com o restante da mensalidade”, disse ela, que continuou: “Aí, quando já estava para terminar [o programa], fiz um apelo sobre a minha faculdade; o Jão, seus empresários ou alguém da equipe dele deve ter visto e avisaram. Parece que ele já me seguia, me acompanhava. Sei que foi na sexta-feira; na segunda, eu recebi uma mensagem do empresário dele falando que iam ajudar; nessa já pagaram três meses.”
A gratidão por Jão é imensa, tão grande que ela faz questão de que ele esteja na formatura. “Daqui a cinco anos, no dia da minha formatura, eu faço questão de ele estar presente; se ele não vier, eu não vou fazer minha formatura. Sem ele, eu não faço. Quando acontecer, quero segurar a mão dele e dar um abraço, pela generosidade dele.”
“Anota aí, porque eu vou construir a minha clínica de reabilitação. Esse é o meu legado. É o legado que Maria Solange Paulino Amorim vai deixar. Essa história não vai morrer” -- Maria Solange Paulino Amorim
Em meio a tantas realizações, Maria Solange segue, dia após dia, fazendo valer a segunda chance que recebeu. No dia da entrevista ao Terra, ela estava um tanto ‘murcha’, como ela mesma contou, pois tinha perdido o emprego recentemente. Mas nada disso a desviou de seus objetivos: além de arranjar um novo trabalho e se formar, ela sonha em escrever sua biografia, contar mais detalhes de sua história --acreditem, há mais para se falar-- e também poder ajudar outras Marias, que, como ela, se perderam e precisam de apoio.
