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Corredor do HGG  Foto: Reportagem do Terra

Hospital das mulas do tráfico: como é a rotina do centro médico que possui uma ala exclusiva para atender esses pacientes?

Presos no aeroporto de Guarulhos são encaminhados para lá, quem trabalha lá, já viu de tudo; de casos simples aos mais graves

Imagem: Reportagem do Terra
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3 jun 2026 - 07h27
(atualizado às 07h56)
HGG atende milhares de pacientes, além das mulas do tráfico, diariamente. Unidade atende da maternidade à oncologia
HGG atende milhares de pacientes, além das mulas do tráfico, diariamente. Unidade atende da maternidade à oncologia
Foto: Reportagem do Terra

O vai e vem de pacientes no Hospital Geral de Guarulhos (HGG), na região metropolitana de São Paulo, é intenso. Entre atendimentos de rotina e procedimentos complexos, a equipe médica também lida com uma realidade paralela: a de pessoas que chegam à unidade com cápsulas de drogas dentro do corpo — as chamadas mulas do tráfico.

Afonso César Machado, médico cirurgião geral e diretor do HGG desde 2014, presenciou diversos atendimentos ao longo dos anos, mas alguns casos o marcaram como profissional. “Lembro de um caso em que a pessoa precisou ser operada porque a cápsula, de tamanho maior, ficou presa no estômago e não saía. Tentamos a retirada por endoscopia, mas não foi possível por causa do risco de rompimento”, relatou, em entrevista exclusiva ao Terra.

Localizado a menos de 4,9 km do Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), o HGG virou um ponto estratégico de apoio a ocorrências com passageiros suspeitos de transportar drogas no corpo. Nos últimos anos, aliás, a Polícia Federal inaugurou uma ala exclusiva para esses pacientes no local, com direito a grades, escolta sob demanda e estrutura adaptada – quem passa pelo corredor, sem dificuldade, assemelha o cômodo a uma cela de prisão.

Construído para atender à população do município, por causa da proximidade do aeroporto e pela cela exclusiva construída para as mulas do tráfico, o centro médico ganhou, no decorrer do tempo, um apelido que chama atenção: “Hospital das Mulas”.  Pode soar exagerada, principalmente se você levar em consideração que os atendimentos deste tipo representam uma quantidade mínima anual – menos que 1% – comparado aos demais serviços prestados. Porém, ainda assim, reflete uma realidade específica da unidade. 

Como é a rotina no HGG, que é referência para mulas?

No hospital, a rotina desses pacientes segue um protocolo específico. Todos eles chegam escoltados pela Polícia Federal após serem interceptados no Aeroporto Internacional de Guarulhos. A entrada ocorre pelo pronto-socorro, onde começa a avaliação clínica. “Como nós estamos próximos, o HGG é referência para o aeroporto para casos que necessitem de um auxílio médico. No caso desses pacientes, eles chegam acompanhados pela Polícia Federal, passam pela triagem e seguem para a ala, que foi criada para que possam ter a presença de uma escolta armada durante todo o processo até receber alta”, explicou ele.

"Esses pacientes [mulas], chegam acompanhados pela Polícia Federal, passam pela triagem e seguem para a ala, que foi criada para que possam ter a presença de uma escolta armada durante todo o processo até receber alta" -- Afonso César Machado

Imagem gerada em software para ilustrar a cela improvisada no HGG
Imagem gerada em software para ilustrar a cela improvisada no HGG
Foto: Reportagem Terra

Apesar da gravidade potencial, o diretor revela que o estado clínico inicial dos pacientes costuma ser estável. “O estado geral dessas pessoas costuma ser bom. Veja bem, eles são presos prestes a embarcar em um aeroporto, então, na maioria das vezes, são pessoas que estão saudáveis. A maioria deles são jovens, uma faixa etária bem mais jovem, eu diria”.

Após a admissão, os pacientes passam por exames de imagem para confirmar a presença de cápsulas. “Quando são apreendidos no aeroporto, com suspeitas de terem ingerido drogas, é preciso confirmar a presença de cápsulas e depois que são cápsulas de drogas. Para isso, nós fazemos uma tomografia computadorizada. Nela, você consegue trabalhar a imagem, você subtrai os músculos, os órgãos e fica somente o esqueleto. Com isso, como o material das cápsulas é radiopaco, aparece no exame e isso permite que a gente conte quantas cápsulas foram ingeridas, inclusive até medir o tamanho”, falou Afonso Machado.

Uma vez confirmada a presença do material no corpo, as mulas do tráfico seguem para a cela exclusiva no hospital, onde ficam encarceradas, sentadas em uma poltrona de enfermaria enquanto aguarda os remédios laxativos fazerem efeito. Na hora certa, eles têm acesso a um banheiro anexo à cela, onde também há grades – com objetivo de minimizar as fugas – e uma peneira adaptada, disponibilizada para que ele coloque na privada. Desta forma, ao dar descarga, ele descarta as fezes sem perder as cápsulas. Em caso de escassez desta peneira, o hospital disponibiliza algumas comadres ao paciente em questão. 

A escassez dos itens, bem como a presença dessas pessoas no hospital, não é diária, mas os dados e a equipe não negam, há recorrência. “Não é todo dia que atendemos este tipo de caso, mas às vezes a PF chega com 10 pessoas de uma vez”, disse uma funcionária do complexo hospitalar.

O contingente de policiais para cuidar da cela improvisada no meio do hospital também costuma mudar de acordo com a demanda de mulas. Se há uma pessoa no local, são dois policiais. Se há dois presos, são quatro agentes. Ainda nessa equação, o gênero dos policiais escalados muda conforme os detidos. “Hoje, por exemplo, estamos aqui com uma mulher [presa], então temos eu e a oficial feminina”, falou o agente da PF que fazia guarda no dia que a reportagem foi ao HGG.

“Não é todo dia que atendemos este tipo de caso, mas às vezes a PF chega com 10 pessoas de uma vez” -- Afonso César Machado

Exame de mula do tráfico admitida no HGG
Exame de mula do tráfico admitida no HGG
Foto: Imagem registrada pela reportagem do Terra

Conforme funcionários da enfermagem, que não terão seu nomes revelados, os pacientes são submetidos a exames de imagem a cada duas horas para que a equipe médica possa acompanhar se as cápsulas estão progredindo ‘bem’ no trato digestivo ou se estão ‘presas’. Segundo eles, a recorrência dos exames é importante, caso o quadro não evolua para evacuação das drogas, a pessoa precisa ser encaminhada para laparotomia para retirada do conteúdo visando reduzir as chances das capsulas romperem no organismo.

O tempo de permanência no hospital pode variar conforme o quadro clínico. Quando os sinais vitais estão estáveis – como de costume –, o tratamento é feito só com laxantes para que o próprio organismo elimine as cápsulas — um processo que pode durar de algumas horas até no máximo dois dias. Vez ou outra, a equipe ainda conta com colaboração dos próprios pacientes. “Eles falam que, antes de fazer a  viagem, passam por um treino para ingerir isso e, na hora de evacuar, não costumam ser hostis conosco. Ao contrário, eles até fazem ‘exercícios’ que ajudam a expelir, até porque, se chegassem ao destino teriam que fazer isso mesmo”, disse outro profissional que já lidou com casos de mulas do tráfico.

Uma vez eliminadas todas essas cápsulas com segurança, é feita a contagem delas com base no exame de imagem e elas são entregues para a Polícia Federal, que faz um teste para comprovar que se trata de entorpecente. “Após análise da Polícia Científica, essas cápsulas são eliminadas e a gente faz uma nova tomografia, agora comparando as imagens de entrada e de saída, confirmando que não existe mais nenhuma cápsula no organismo da pessoa. Depois, eles têm alta e estão sob total responsabilidade da Polícia Federal”, acrescentou Afonso César Machado, médico e diretor do Hospital Geral de Guarulhos.

Apesar do protocolo bem definido, os riscos são altos. Caso uma cápsula se rompa dentro do organismo, o paciente pode sofrer intoxicação grave, com risco de morte, o que exige intervenção imediata, pois, devido ao alto número de cápsulas, as chances de sobrevivência são quase nulas. “Tem pessoas que engolem 40, 50; já vi exames com mais de 100. As mulheres ainda ingerem, colocam na vagina, já vimos paciente até com cápsula no ânus”, comentou outro dos funcionários que lida diretamente com esses pacientes.

Após a alta, eles estão sob total responsabilidade da Polícia Federal” -- Afonso Machado

Ainda assim, segundo o diretor Afonso César Machado, situações mais críticas são raras. “Eu me lembro somente de um caso nos últimos anos, de uma pessoa que teve que ser operada, porque era uma cápsula de um tamanho maior, e aquilo ficou preso no estômago, não saía, tentamos retirar por endoscopia, mas também havia o risco e apreensão de aquela cápsula se romper e agravar o quadro”, lembrou o diretor do HGG.

HGG é mais que referência para mulas do tráfico

Exame de mula do tráfico após receber tratamento laxativo no HGG
Exame de mula do tráfico após receber tratamento laxativo no HGG
Foto: Imagem registrada pela reportagem do Terra

O número de casos exatos de mulas do tráfico atendidas pelo HGG, segundo Afonso, é difícil de ser mensurado por questões burocráticas. “Para nós, eles são classificados como ‘ingestão de corpo estranho’, então é difícil separar o perfil do paciente, porque entra também a população pediátrica, que engole moeda, tampa de caneta, pilha, também entra a população idosa que às vezes dá entrada após engolir prótese dentária ou outra coisa”.

Em 2025, por exemplo, foram 212 atendimentos de ‘ingestão de corpo estranho’. Mas dentro desse número estão representadas: as mulas do tráfico, a população idosa e as crianças. A partir desse índice, o diretor defende que a 'fama' por causa das mulas ’ é injusta se comparado ao número de serviços prestados. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, anualmente são 94.980 atendimentos de urgência, 10.100 internações, 5.776 cirurgias, 23.320 atendimentos ambulatoriais e 30.408 serviços de apoio diagnóstico.

"Eles não imaginam o risco de morte que estão correndo ao topar” -- Afonso Machado

Por mais que representados pela Saúde estadual dentro de uma fração de uma porcentagem minoritária, de acordo com um levantamento do Terra, com dados da PF, as ocorrências de ‘mulas’ esteve em alta de forma nacional nos últimos três anos, tendo queda apenas em 2025. 

Em 2022, por exemplo, foram registrados 600 detenções de ‘mulas do tráfico’ em aeroportos brasileiros, tendo crescimento de casos em 2023, que foi 769; até chegar ao pico histórico de 2024, 965. Em 2025, pela primeira vez em quatro anos, o número apresentou recuo, batendo 689 ocorrências. Ao todo, nesses quatro anos, foram 3.023 casos registrados de casos de ‘mulas do tráfico’ em aeroportos de solo nacional. Gráfico logo depois.

Para o diretor do HGG, boa parte do trabalho costuma ser tranquilo por envolver baixa complexidade. Entretanto, após 12 anos lidando com a presença das autoridades e com ‘mulas do tráfico’, tem coisas que ele ainda não consegue se acostumar. “Olha, não nos compete julgar as ações das pessoas, existem os órgãos que vão fazer isso [...] Mas o que nos choca é a questão social, porque na maioria das vezes são pessoas jovens e que você vê que está ali naquela situação de preso e sob escolta”, comentou Afonso.

“Eu acredito que a grande maioria nem saiba o risco que estava ocorrendo. O risco de uma das cápsulas estourar e eles morrerem é grande. Mas acho que a oferta de uma remuneração rápida e boa talvez seja o que atrai tanto esse perfil de pessoas, mas certamente eles não imaginam o risco de morte que estão correndo ao topar isso”, finalizou. Gráfico logo depois.

Fonte: Portal Terra
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