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Esclerose Múltipla: um vírus ensina a neurologia a salvar células cerebrais

Trabalho liderado por brasileiros reúne evidências para propor a mielopatia causada pelo vírus HTLV-1 como um modelo humano de neurodegeneração progressiva

31 jul 2026 - 06h29
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Imagine um dia acordar com a visão embaçada, um formigamento estranho nos braços ou uma fraqueza repentina e incômoda nas pernas, sem entender direito o que está acontecendo. Passado um tempo, os sintomas somem. Mas logo depois, retornam.

Preocupado, você procura um médico, passa por uma bateria de exames e se depara com um resultado assustador: o diagnóstico de uma doença neurológica crônica.

Essa é a trajetória vivida por muitas pessoas ao saberem que têm Esclerose Múltipla (EM), uma condição em que o sistema imunológico passa a atacar e danificar as estruturas do sistema nervoso central.

Cerca de 3 milhões

Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 2,9 milhões de pessoas vivem com esclerose múltipla no mundo. Aproximadamente 40 mil delas no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

A doença atinge, principalmente, adultos jovens, entre 20 e 50 anos, com uma frequência significativamente maior em mulheres.

Chegar à confirmação diagnóstica é um grande desafio da medicina, que não depende de um único exame. Nós, neurologistas, precisamos integrar a história clínica do paciente à avaliação física, aos achados da ressonância magnética e à análise do líquor (líquido cefalorraquidiano retirado da medula óssea) para descartar diversas outras condições semelhantes.

E isso se torna ainda mais complexo nos quadros nos quais a doença aparece em formas progressivas, já com perda neural de maneira lenta, gradual e, muitas vezes, silenciosa.

O que uma doença ensina a outra

Ao buscar saber mais sobre a esclerose múltipla, pesquisadores recorrem a uma estratégia bastante consolidada: utilizar o modelo de uma doença diferente ou de causa conhecida para compreender outra mais complexa.

Foi o que fizemos ao compararmos uma inflamação crônica e progressiva da medula espinhal causada pelo vírus HTLV-1 com o mesmo quadro decorrente da Esclerose Múltipla.

De forma simples, vou traçar o paralelo entre as duas doenças. A esclerose múltipla é uma enfermidade multifatorial, associada a componentes genéticos, fatores ambientais e infecções virais, como pelo vírus Epstein-Barr. Já na infecção pelo HTLV-1, temos uma vantagem científica singular: conhecemos o gatilho inicial, que é a infecção viral persistente.

Ao estudar o HTLV-1, conseguimos entender, passo a passo, como a inflamação crônica provoca a morte dos neurônios e a perda de fibras nervosas.

Trata-se de um retrovírus da mesma família do HIV e compartilha com ele algumas vias de transmissão, mas não causa a Aids.

A maioria dos infectados permanece sem sintomas durante toda a vida, mas uma pequena parcela desenvolve essa grave inflamação na medula espinhal.

O Brasil, infelizmente, está entre os países com o maior número de pessoas infectadas pelo HTLV-1 no mundo. Por essa razão, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) construiu, ao longo de décadas, uma sólida tradição e liderança científica na investigação dessa condição.

Amparados por toda essa experiência, acabamos de publicar um estudo no renomado periódico internacional Brain, no qual propomos que a mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM/TSP) pode servir como um modelo translacional para compreender os mecanismos da neurodegeneração progressiva.

Com base nessa abordagem, buscamos identificar processos biológicos que também podem contribuir para doenças como a esclerose múltipla progressiva. E com isso, abrir caminho para o desenvolvimento de novas estratégias neuroprotetoras.

Não se trata de um experimento clínico direto com intervenção em pacientes, mas sim, de uma abrangente revisão científica na qual analisamos criticamente décadas de pesquisas publicadas entre 1990 e 2025 em plataformas como PubMed e Embase.

Liderança brasileira

É a primeira vez que um trabalho liderado por brasileiros reúne de forma integrada evidências de imunologia, neuroimagem, biologia molecular e biomarcadores para propor a mielopatia pelo HTLV-1 como um modelo humano de neurodegeneração progressiva.

A grande mensagem do estudo aponta para o futuro da neurologia. Hoje, a minha especialidade já consegue controlar, de forma bastante eficaz, os surtos agudos da esclerose múltipla, mas o desafio continua sendo deter sua piora lenta e contínua que incapacita o paciente ao longo dos anos.

Embora o HTLV-1 e a esclerose múltipla comecem por caminhos distintos, já que um é uma infecção viral e a outra, uma doença autoimune, ambos chegam ao mesmo destino biológico: uma inflamação persistente que destrói o sistema nervoso.

Nosso trabalho não lança um novo medicamento de imediato, mas fornece um caminho conceitual inovador que auxilia na compreensão dos mecanismos compartilhados. Também abre portas importantes para antecipar a evolução da doença por meio de biomarcadores e acelerar o teste de medicamentos mais direcionados para a fase progressiva.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marcus Tulius Silva não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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