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'Lula falava de terra raras e eleitor queria picanha', diz marqueteiro que derrotou o PT no Nordeste

Igor Paulin, que atuou nas campanhas de Raquel Lyra, em Pernambuco, e JHC, em Alagoas - aponta desconexão da campanha do petista com a 'vida real'

9 out 2026 - 05h41
(atualizado às 08h06)
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Resumo
O marqueteiro Igor Paulin, artífice das vitórias de Raquel Lyra e JHC contra aliados de Lula no Nordeste, afirma que o apoio do petista deixou de ser decisivo na região. Para Paulin, o PT perdeu força devido a uma campanha desconectada das demandas reais da população e à alta abstenção dos mais pobres, além da estratégia bem-sucedida de regionalizar as disputas locais. Ele conclui que o governo falha ao não projetar o futuro e aponta Raquel Lyra como potencial presidenciável para 2030.
O marqueteiro de Raquel Lyra e JHC, Igor Paulin
O marqueteiro de Raquel Lyra e JHC, Igor Paulin
Foto: Arnaldo Medeiros/Divulgação

O marqueteiro Igor Paulin é o nome por trás de duas derrotas simbólicas que o presidente Lula (PT) sofreu no Nordeste no último domingo, 8. Em Pernambuco, Estado natal do petista, Paulin assinou a campanha da governadora Raquel Lyra (PSD), que derrotou o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), apadrinhado por Lula e por meses tido como o favorito a vencer a disputa estadual. Também trabalhou para o ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), que desbancou Renan Filho (MDB), ex-ministro dos Transportes de Lula. Tanto Campos quanto Renan tinham apoio do PT.

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Renan Calheiros (MDB), pai do ex-ministro dos Transportes, foi outra vítima colateral do marqueteiro, que também atuou pela esposa de JHC, Marina JHC, na campanha vitoriosa ao Senado. Calheiros ficará sem mandato após 31 anos e quatro mandatos consecutivos.

Em entrevista ao Estadão, Paulin afirmou que as derrotas sugerem que o apoio de Lula deixou de ser um "fator decisório" no Nordeste, região onde o presidente saiu vitorioso no primeiro turno, mas com uma porcentagem de votos menor do que em 2022. Na avaliação do marqueteiro, a piora no desempenho é fruto de uma campanha desconectada da vida real dos nordestinos e que não apontou para o futuro.

"Enquanto o presidente falava de terras raras e soberania, o eleitor queria saber da picanha que ele prometeu e não chegou", diz Paulin, que ainda aponta a governadora Raquel Lyra como um nome a integrar a lista de presidenciáveis para 2030.

Leia os principais trechos da entrevista:

Qual sua avaliação sobre o desempenho de Lula no Nordeste?

O desempenho do Lula caiu no Nordeste. E, nas disputas mais acirradas e que não estavam vinculadas à máquina, ele não conseguiu transferir seus votos. No passado, havia muito essa ideia de "voto no cara que o Lula apadrinhar". Hoje, senti que ficou mais fácil desvincular a campanha estadual da nacional. Lula perdeu capacidade de influência no Nordeste e também perdeu, para uma parcela considerável do eleitorado, a capacidade de transmitir aquela esperança que o trouxe de volta em 2022.

Basta ver que houve uma abstenção grande entre os eleitores mais pobres, que não se mobilizaram para votar em Lula. O governo não chegou à vida dessas pessoas. Aquele clichê de que "é a economia, estúpido" valeu muito para esse eleitor. Enquanto o presidente falava de terras raras e soberania, o eleitor queria saber da picanha que ele prometeu e não chegou. Então, avalio que há uma desvinculação entre a leitura que o governo faz do cenário, trazendo números positivos da economia, e aquilo que as famílias veem na vida real.

A abstenção tem a ver com o desinteresse do eleitorado nesta eleição?

A gente costuma perguntar nas pesquisas quantitativas o quanto o eleitor está interessado na campanha eleitoral, tanto em nível federal quanto estadual. Geralmente, o porcentual dos que se dizem muito interessados começa mais baixo e vai crescendo ao longo do pleito. Nestas eleições, não vimos isso acontecer. A faixa dos "muito interessados" ficou na casa dos 30% ou 40%, enquanto os que demonstravam pouco ou nenhum interesse permaneceram na casa dos 60%. O nível de desinteresse está muito alto, e isso é um desafio para quem faz comunicação política. O eleitor não está querendo te ouvir. O desafio de Lula é que as pessoas não estão dispostas a ouvir o que ele está dizendo, porque não concordam com a mensagem. Há uma desconexão com a vida real e com a mensagem e as pessoas estão encasteladas na própria opinião.

Por que você avalia que o PT conseguiu manter os governos da Bahia e Ceará?

A máquina mói muito bem na Bahia e no Ceará. O PT está na Bahia há muito tempo, então é mais difícil uma disputa virar lá. Principalmente porque o candidato [da oposição], ACM Neto, já tentou e não deu certo. É uma candidatura muito mais difícil de emplacar para um eleitor que está indeciso entre um e outro, porque ele acaba indo para uma posição de neutralidade. No Ceará, Ciro fez uma manobra de aproximação com o bolsonarismo e colocou o PL na chapa.

E por que foi diferente em Alagoas e Pernambuco?

Alagoas e Pernambuco podem ser usados como um case. Nos dois Estados, nosso esforço foi, o tempo todo, tratar da disputa local e regional, fugindo ao máximo da nacionalização. O primeiro comercial de Raquel que foi ao ar dizia que ela era "pernambuquista" e que ser pernambuquista é colocar Pernambuco em primeiro lugar. A partir daí, passamos a falar do que foi o governo dela. Mostramos o tempo inteiro que ela teve uma relação muito boa com o governo Lula. Ela elogiou o presidente por deixar as portas abertas, mas sem transformar isso em endosso à candidatura e em apoio direto a ele. No caso de JHC, em Alagoas, o que trouxemos foi o cansaço com um grupo que dominava o Estado até então, com Renan Filho e Paulo Dantas no governo e os Calheiros no Congresso. Fomos pelo caminho do cansaço e da libertação do Estado dos coronéis. Isso ajudou a transformar a comunicação em algo mais regional. A questão do Ciro foi uma escolha consciente. Talvez ele tenha sentido a necessidade disso, mas, quando traz o PL para perto, é inevitável: inviabiliza a discussão sobre o Estado e nacionaliza o pleito. Isso aconteceu com o ACM Neto, que o tempo inteiro falava dos problemas do PT e se viu em circunstâncias difíceis. Eduardo Braide (no Maranhão), por exemplo, também vendeu a gestão e deu certo.

Em Pernambuco, Raquel estava sentada na cadeira de governadora. Alagoas era um caso mais complexo, porque os Calheiros estão no poder há bastante tempo... O que foi determinante?

A campanha de Alagoas deste ano lembrava a primeira eleição de Raquel em Pernambuco, em 2022, que também coordenei. Também foi sobre enfrentar o grupo que comandava o Estado havia muitos anos. Renan Filho tinha o governo, a Assembleia e quase todas as prefeituras. JHC não tinha essa estrutura, e transformamos isso em discurso: era Davi contra Golias. De um lado, o sistema e a máquina; do outro, um candidato que dependia do povo, não de acordos. Isso deu a JHC um tom antissistema que conversou com o cansaço com a política. A pré-campanha foi fundamental. O Ônibus da Mudança rodou Alagoas, apresentou JHC ao interior e construiu a ideia de mudança antes da campanha oficial. Quando o horário eleitoral chegou, o eleitor já sabia o que estava em jogo. Ajudou muito o fato de JHC ser extremamente carismático e intuitivo. Ele próprio criou marcas que caíram no gosto do alagoano, como o gesto do muque, que virou o "Faz o J". Mas cansaço sozinho não ganha eleição. O eleitor insatisfeito muitas vezes fica com o que conhece. O determinante foi mostrar uma mudança segura. O alagoano viu Maceió mudar para melhor e viu que JHC teve a maior reeleição da história da capital. A mudança deixou de ser promessa e virou prova. O conceito "Bote Fé na Mudança" falou de esperança e de levar ao Estado o que deu certo na capital. Na reta final, a urgência: se não mudar agora, fica tudo como está. A campanha ficou no campo regional, e a nacionalização não colou. Deu certo.

Com derrotas e vitórias, qual o saldo de Lula no Nordeste neste primeiro turno?

Não é um saldo negativo, porque o Nordeste foi o que manteve Lula em uma disputa de segundo turno. O Nordeste soube agradecer tudo o que o presidente Lula fez pela região, principalmente nos dois primeiros mandatos. Mas há um recado muito claro de que ele precisa se esforçar um pouco mais. O eleitor está sempre olhando para frente, para o futuro. Se você é prefeito e constrói uma UPA, ele quer saber quando vai ter médico e remédio. Se você coloca asfalto, quer saber quando vem a iluminação. Lula fez muita coisa lá atrás, e esse eleitor está perguntando: "E agora? E para frente?". Lula não comunicou. Não fez o governo chegar na vida das pessoas e não está apontando para onde vai no futuro. Você não vê, no debate e na agenda de comunicação, qual é o plano de Lula para os quatro anos. Qual é a promessa? Qual é a grande iniciativa? É o Mounjaro no SUS? Isso não bateu tanto tambor. É a escala 6x1? É o fim das bets? O eleitor está falando: "Bom, não tem nenhuma grande [proposta]".

Tem espaço para ele reagir no segundo turno, na sua opinião?

A palavra é alta abstenção. Está todo mundo olhando para isso hoje. A lição de casa é fazer as pessoas irem votar. Pessoas que votariam nele e não foram agora no domingo. Essa é a primeira grande missão do governo e da comunicação de Lula. A segunda é: o que vai ser comunicado? O papo de soberania e terras raras não funciona. É preciso entender um pouco melhor como funciona o ambiente digital e tentar dominá-lo. Isso é preponderante. Existe uma grande oportunidade do ponto de vista da comunicação. Não tem mais disputa para o Senado e para a Câmara; 20 governadores já foram eleitos. Há menos ruído de comunicação, embora estejamos vivendo um momento eleitoral com baixo grau de interesse. Tem que levar as pessoas às urnas. É a principal missão do presidente. Eu estou olhando muito para o Nordeste, que é o que estou respirando mais. E olhando para os números que ele teve em 2022 e agora, se conseguisse ter a mesma performance, recuperaria boa parte desse voto. Mas só isso não é suficiente. Precisa chegar às grandes capitais do Sudeste: periferia de São Paulo, Belo Horizonte e Rio.

Com a reeleição confirmada, quais os próximos passos de Raquel Lyra na política?

Com a reeleição, Raquel aparece na lista de presidenciáveis para 2030. Ela é a única mulher governadora eleita. Raquel é feita de um material diferente, nunca vi coisa parecida. Ela tem uma luz, tem fibra. Conseguiu fazer o governo andar e vai entregar muita coisa, tem uma série de projetos com dinheiro em caixa. Se o Brasil passar a ir para um caminho que seja "o que vem depois da polarização", ela é quem está melhor colocada para isso. O Tarcísio vem pela direita. Com Flávio eleito, ele vai para o Senado; não tem como ser candidato. Agora, Raquel vem justamente contando uma história diferente, que é o que o País vai ter que escrever: o pós-Lula e o pós-Bolsonaro. Ela é uma boa gestora, tem cuidado com a parte fiscal, o que cai muito bem na Faria Lima, mas, ao mesmo tempo, tem projetos sociais inovadores no Estado. Consegue, na prática, ter um pé em cada canoa. É um governo arrumadinho, de gestão e responsabilidade fiscal, mas também é um governo que chega na ponta com projetos de assistência social muito legais e diferentes. Agora, o mais importante é que a governadora cumpra com o que sempre disse durante a campanha aos eleitores pernambucanos: colocar Pernambuco em primeiro lugar e acelerar as entregas. Ser uma grande governadora vai credenciar Raquel para disputas futuras.

Estadão
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