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Ecossistema da direita x resistência na esquerda: redes sociais ganham protagonismo na eleição e viram peças-chave

Direita construiu uma estrutura digital ao longo dos últimos 12 anos, enquanto a esquerda ainda tenta entender como ocupar esse espaço

22 out 2026 - 05h00
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'Exército de Lula' foi criado por André Janones (PT) e tem como foto de perfil uma imagem do deputado ao lado de Lula
'Exército de Lula' foi criado por André Janones (PT) e tem como foto de perfil uma imagem do deputado ao lado de Lula
Foto: Reprodução/WhatsApp/Exército do Lula

As eleições de 2026 estão diferentes, não só pelo cenário ainda mais polarizado, mas também pelo peso ainda maior das redes sociais nas campanhas dos candidatos. A população brasileira votou e elegeu --e até reelegeu-- candidatos com forte presença digital em ambos os lados. Exemplos disso são os deputados federais Érika Hilton (PSOL), Jones Manoel (PSOL), Nikolas Ferreira (PL), Lucas Pavanato (PL) e a novata Ana Elisa (PT), que em sua primeira disputa recebeu mais de 524 mil votos. 

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Com Flávio Bolsonaro (PL) virando o 1º turno na frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da disputa pela Presidência da República, a campanha petista fez uma autocrítica e culpou a dificuldade para usar as redes sociais como um dos motivos pelos resultados ruins nas urnas. 

Ana Elisa, por exemplo, disse para a GloboNews, quatro dias depois das eleições, que ainda havia "tempo de a esquerda dominar as redes sociais” e que ficou provado o poder dessas ferramentas para o eleitorado. Ela foi um dos expoentes do investimento da campanha de Lula no mundo digital.

Porém, o maior exemplo é o canal de WhatsApp chamado ‘Exército do Lula’, administrado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), para mobilizar apoiadores da reeleição, divulgar conteúdos de campanha e incentivar o compartilhamento das publicações. O canal ultrapassou 7 milhões de seguidores, tendo mais de 1 milhão de adesões somente entre a noite de terça, 20, e madrugada desta quarta, 21. 

João Ricardo Matta, doutor em Marketing e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirmou que a direita “não surfa o hype” nas redes sociais, mas construiu uma infraestrutura nelas nos últimos 12 anos. Isso significa ter influenciadores próprios, linguagem nativa e mobilização permanente, além de pontua rque WhatsApp é um “território bolsonarista” desde 2018, ano que Jair Bolsonaro (PL) foi eleito. “O bolsonarismo vive o dia-a-dia do digital e ele vive o dia-a-dia da posição dos grupos de WhatsApp.”

“O outro contraponto é que a esquerda sempre olhou as redes como um canal de divulgação e não como um ecossistema, como a direita fez. A diferença é estrutural e não de ferramenta”, explica. 

Segundo o especialista, pode-se entender que a direita saiu na frente porque a comunicação de oposição no digital engaja mais, e o discurso é empregado com base tripé conceitual que o algoritmo “ama”: indignação, inimigo claro e frases curtas. 

Matta também pondera que as conversas de bastidores com quem estava na campanha de Lula era de que esse pleito era encarado como sendo o mais fácil da vida dele, porque Flávio era o adversário ideal, frente ao Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome cotado em 2025 para disputar a Presidência, e Michelle Bolsonaro como vice. 

Janones diz que Lula não tem que saber usar redes sociais e que volta com ‘força máxima’ para campanha:

“Isso era o pesadelo do PT. Todo mundo imaginava que o telhado de vidro do Flávio, ele jogaria tranquilamente, e não foi o que aconteceu. Quando o Flávio ficou na frente, ele [Lula] começou a fazer aquele mea culpa tradicional dele de entender que eles ficaram presos no passado, que comparação entre governo e histórico não estava trazendo resultado, e que no PT não tem ninguém com poder com menos de 55 anos”, argumenta. 

Matta usa como exemplo, Janones e Ana Elisa, que estão trabalhando arduamente na campanha do presidente para capitanear os votos daqueles indecisos. Mas será que foi só agora que o PT percebeu a importância do digital? O especialistas aponta que não, já que em 2022, o cenário foi semelhante e Janones foi escalado para entrar na jogada. . 

Nikolas Ferreira e Pablo Marçal atuam em favor de Flávio Bolsonaro na campanha presidencial
Nikolas Ferreira e Pablo Marçal atuam em favor de Flávio Bolsonaro na campanha presidencial
Foto: Divulgação/Assessoria Pablo Marçal / Estadão

“A sensação que eu tenho é que nessa hora, o que que acontece, o Lula e os seus pares de poder eles resistem a esse formato mesmo a equipe recomendando”, descreve. E a recomendação, no caso, era informalidade e lives, que são o tom da internet e que a direita e o bolsonarismo fazem muito bem.

A mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) Issaaf Karhawi também cita que a esquerda demorou mais tempo para se dar conta da importância dos influenciadores digitais da política, quase que olhando para essas figuras como se fossem só tiktokers, diminuindo um pouco o impacto delas nos debates e nas redes. Aqui podemos usar como exemplo Ana Elisa mais uma vez, que vinha, muito antes da sua candidatura, fazendo vídeo no TikTok sobre assuntos relevantes da atualidade.

Investimento e estrutura também contam

Além da atualização da comunicação, a esquerda perde também em outro ponto: o investimento financeiro. A professora da USP explica que a ala do outro lado investe mais pesado em anúncios e usa o mesmo exemplo de Matta, sobre a estrutura das redes que beneficia discursos mais simplistas e não tão complexos, e por isso, tendem a circular mais facilmente dentro das estruturas. 

A lógica polarizante das plataformas também é um fator a se considerar, já que há uma arquitetura que é feita para o ‘sim’ e para o ‘não’, seguir ou não seguir, e curtir ou não curtir. “Isso se traduz também nos discursos que circulam nesses contextos. Então, quanto mais adesão a essa estrutura das plataformas, há mais chances de uma circulação mais positiva”, explica. 

Lula gravou vídeo selfie
Lula gravou vídeo selfie
Foto: Reprodução/Instagram

Há espaço para campanha do digital

Issaaf afirma que foi neste ano que nos demos conta que não é possível pensar tanto em discussão política quanto em campanha eleitoral sem considerar o meio digital. Segundo a especialista, quem trabalha com monitoramento de eleições nos últimos anos percebeu que, mesmo quando não havia uma campanha eleitoral formal de um determinado candidato nas redes, os usuários das plataformas produziam conteúdo sobre o assunto. 

“Então é como se mesmo o vazio deixado pelas campanhas fosse preenchido pelos eleitores, pelos cidadãos. Isso porque a gente, ainda que pareça que nas redes sociais não seja possível fazer política de base, digamos assim, é nelas que as pessoas estão boa parte do tempo”, explica. 

De fato, boa parte do mundo está conectada o tempo todo, seja se deslocando para o trabalho no transporte público, esperando o elevador para pegar o delivery, no banheiro enquanto faz suas necessidades (e, por que não no banho?), assistindo TV ou até mesmo trabalhando com as redes sociais. Para a pesquisadora, hoje em dia é muito difícil dizer que esse espaço não deva ser ocupado por debates políticos ou campanhas eleitorais. 

Um exemplo disso são os nomes dos deputados citados acima. Nenhum deles tem menos de 2 milhões de seguidores no Instagram. O maior é Nikolas, com 24,5 mil, enquanto o menor é Jones, com 2,5. O posicionamento deles na internet, inclusive, pode ser observado como um reflexo nas urnas, até porque o deputado mineiro, Pavanato e Érika receberam 3,1 mi, 3 mi e 1,5 milhão de votos, respectivamente. Todos eles, muito bem engajados na internet.

Mas não é só o sucesso nas redes que explica o desempenho das urnas e também não é a combinação entre as ruas e o meio digital, até porque, segundo a especialista, ser impactado por uma campanha, até mesmo nos meios tradicionais, não gera automaticamente votos. 

O candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), e os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), participaram de um ato de campanha chamado "Bloquinho do 22", nesta segunda-feira (19), na Ponta Negra, zona oeste de Manaus (AM).
O candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), e os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), participaram de um ato de campanha chamado "Bloquinho do 22", nesta segunda-feira (19), na Ponta Negra, zona oeste de Manaus (AM).
Foto: SANDRO PEREIRA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

“Isso vai exigir, de fato, uma estratégia de comunicação que também prevê espaços físicos, as ruas, os coletivos, espaços em que as pessoas se reúnem, se encontram. Então, acho que não dá para assumir que as duas coisas estão diretamente relacionadas, mas é claro que se apoiam mutuamente”, analisa. 

Fonte: Portal Terra
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