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Cidade onde Bolsonaro ganhou com um voto de diferença se divide em apoio a Lula

Moradores de Três Ranchos que votam nos principais candidatos à Presidência vivem de forma pacífica e até brincam com divergências

25 set 2022 - 03h00
(atualizado em 27/9/2022 às 19h23)
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Três Ranchos (GO): moradores divergem em apoio a candidatos:

O clima de paz entre os moradores é o que marca a cidade de Três Ranchos, no interior de Goiás, poucos dias antes do primeiro turno das eleições deste ano. A convivência pacífica parece unanimidade no município mais polarizado na eleição presidencial de 2018, onde Jair Bolsonaro, hoje no PL, venceu Fernando Haddad (PT) por apenas um voto.

A realidade é curiosa, já que em Catalão, cidade a apenas 31 quilômetros de distância, há campanhas de apoio ao atual chefe do Executivo, incluindo outdoors com a foto do candidato à reeleição instalados à beira da estrada, bandeiras e até muros de casas pintados. Mas Nelson Ribeiro, mototaxista há 26 anos, conta que os apoiadores de Bolsonaro são principalmente empresários do agronegócio, maior setor econômico de Catalão. 

"As pesquisas daqui mostram que está bem dividido. Quando ando pela cidade a trabalho, percebo que a manifestação pró-Bolsonaro está nos bairros mais ricos, com bandeiras nas casas. Mas nossa classe vai toda no Lula. Todas as mulheres que carrego na moto dizem que não votam no Bolsonaro. Como eu disse, tá bem dividido. A diferença é que os lulistas não se manifestam como os bolsonaristas, até por medo de como reagiria a oposição", destaca.  

O clima de eleição em Catalão é totalmente diferente de Três Ranchos que, com cerca de 3 mil habitantes, deu 1.183 votos para o atual chefe do Executivo em 2018. O adversário de Bolsonaro naquela eleição, Fernando Haddad (PT), teve 1.182 votos.

Arrependidos por 2018

Apesar da polarização no último pleito, não há qualquer indício de apoio a algum candidato nas casas e estabelecimentos comerciais de Três Ranchos. O que há de propaganda eleitoral, no centro da cidade, é de candidatos aos cargos de deputado e senador, com adesivos e bandeiras.  

Esse comportamento é esperado em cidades pequenas, de acordo com o cientista político Marcelo Di Giuseppe. Segundo ele, isso acontece porque o deputado tem o vereador da cidade, que o apoia e age para mostrar trabalho.

"O vereador pede para os eleitores dele e para os amigos colocarem a propaganda, para mostrar para o deputado que está trabalhando. O vereador e o prefeito são os grandes cabos eleitorais da cidade. Existe um interesse muito grande de eleger deputados", explica. 

A aposentada Maria de Deus Silva, de 79 anos, reforça que a campanha presidencial em Três Ranchos não tem muita força. Inclusive, ela diz que nem mesmo se lembra em quem votou para presidente em 2018.

"Esse ano não vou votar mais para presidente. Acho que todo candidato é igual, não tem esperança mais, não. Só se Deus mandar ao contrário", diz. 

Assim como dona Maria, Vicente de Paulo, 59 anos, revela que teme que a situação econômica do País não mude. Foi enquanto realizava o trabalho de varrer as vias da cidade, sob um calor de 36ºC, que revelou ao Terra a dificuldade em fazer o mercado do mês por causa do preço dos alimentos. Ele vai manter a mesma posição de 2018: o voto está garantido no PT. 

"O custo de vida aumentou demais. O salário tá pouco, e as coisas, muito caras; quase não dá para fazer a compra do mês com o que a gente ganha. Eu acredito que, na época do Lula, as coisas para o pobre eram melhores. Não era tudo tão caro assim. Se ele voltar igual foi nos outros mandatos, que fez as coisas boas pelos mais pobres, acredito que vai melhorar. Eu não sou fanático, voto como meu dever como cidadão", relata.

Seu colega de trabalho, Adilson da Silva, também mal conseguia falar devido ao cansaço do trabalho braçal, mas fez questão de afirmar que votará em Lula. No entanto, diferentemente do amigo, Bolsonaro foi sua opção de voto no primeiro e segundo turnos há quatro anos. 

"Acreditei que o Bolsonaro iria ser bom e mudar as coisas pra população, mas senti que no mandato dele nada melhorou pra gente. Deve ter mudança com o Lula. Acho que ele é mais simples que os outros e, por isso, se preocupa com a gente", opina.

A dona de casa Maria Helena de Marcos também admite arrependimento por votar em Bolsonaro em 2018. Em outubro, ela pretende apertar o número do PT nas urnas. O motivo? "Pra ver se melhora", diz. "Por mais que eu não entenda tanto de política, tenho esperança nele. E a maioria da minha família e do meu marido vai nele [Lula] também."

Esperança de mudança

O ex-presidente Lula parece ser unanimidade entre os mais velhos e não tão abastados de Três Ranchos. Sebastião Gregório de Lima, de 83 anos, abriu um sorriso ao dizer que sua esperança é que o petista vença as eleições deste ano. O idoso interrompeu a extenuante tarefa de limpar restos de tijolos e sujeiras de um terreno em construção próximo à Câmara Municipal para explicar sua preferência.

"Eu não voto há 20 anos porque não enxergo direito, mas torço pelo Lula. Ele já ajudou muita gente nesse mundão de meu Deus. Deu cesta básica, [acesso aos] estudos, salário-escola. Hoje, você sai com uma sacolinha pequena do mercado e é R$ 100, R$ 150. Se o Lula ganhar, vou comemorar pagando cachaça pra esses pinguços tudo, porque eu não bebo, não", diz ele, rindo.

A expectativa de seu Sebastião é que, com a eleição do ex-presidente, haja reajuste no salário mínimo e mais ajuda aos pobres. "O Bolsonaro também é bom, ele está ajudando muito, mas acho que o Lula vai ser melhor. Não gosto de praticar a política não, mas desde Ernesto Geisel pra cá, as coisas melhoraram só depois do Lula. Eu gosto dele por isso, mas quero esperar pra ver se ele vai cumprir tudo que fala", acrescenta. 

José Antônio dos Santos revela que irá votar no PT e que o posicionamento de Bolsonaro durante a pandemia influenciou sua decisão
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Foto: Isabella Lima / Redação Terra

Família dividida

Dentro de um dos poucos comércios da cidade, Adriana Rosa, de 28 anos, conta que no primeiro turno de 2018 não votou em Haddad e nem em Bolsonaro, mas no segundo turno optou em votar no atual presidente. Diferentemente dos conterrâneos, ela não se arrepende da escolha e deve repetir a preferência já no dia 2 de outubro.

"Acho que ele entrou no cargo já pegando uma fase muito ruim do governo e conseguiu fazer um bom trabalho. Se eu tivesse fechado meu açougue na pandemia, tinha quebrado economicamente. E sou meio anti-PT, porque acho que o Lula teve a oportunidade e não fez muito. O País entrou em uma crise e dívida horríveis depois dele", afirma.

Em sua família, a divisão é nítida: seu cunhado e sogro já declararam voto no candidato petista; a sogra e proprietária do açougue em frente ao seu diz que jamais votaria em Bolsonaro devido às declarações feitas durante a pandemia. Mas, para ela, as acusações contra Lula justificam o fato de ele não ser, de forma alguma, uma opção de voto.

"Fazendo uma analogia a um comércio: se eu contrato um funcionário, e ele começa a me roubar, no começo eu não vou sentir. Quando eu vou sentir? Quando a minha mercadoria começar a acabar e eu não tiver dinheiro pra rodar. Aí eu vou lá e descubro que ele está me roubando e mando-o embora. Aí depois de alguns anos eu contrato ele de novo? Não vai mudar. É a situação do Lula", compara. 

Uma moradora que preferiu não se identificar vive a mesma divisão familiar, mas garante que todos se respeitam. Embora opte por Ciro Gomes no primeiro turno, assim como fez em 2018, neste ano ela se recusa a votar em Bolsonaro no segundo turno. "Não gosto do atual presidente, parece que ele não gosta dos pobres e olha mais para o lado de quem tem dinheiro", opina.

Adir Alves Carneiro, morador de Três Ranchos há 30 anos, lembra que Ciro também foi sua primeira opção em 2018, mas acabou votando em Haddad na disputa pelo segundo turno. 

"Esse ano sou Lula. Sou anti-Bolsonaro. Ele é militarista, para mim não serve. Ele não respeita o povo, os homossexuais, não presta e não serve para nada. Para mim, o mandato dele não fez nenhuma diferença, ainda precisa mudar salário, saúde, educação", critica.

Amigos, apesar da oposição

A poucos metros de Adir, Heylon Vaz parou para ouvir o que os amigos falavam sobre as eleições. Vestindo uma camisa com símbolo militar, o prestador de serviços em uma escola da cidade se orgulha do voto em Bolsonaro.

"Na escola tem professoras petistas", disse ele, rindo. "Já eu não gosto nem de ouvir a voz do Lula. Ele ficou tanto tempo no poder, e agora vem falar que vai melhorar o Brasil? Por que não fez antes? Pelo menos o Bolsonaro mostra serviço e acabou com a mamata do PT", acrescentou.

Sebastião contou as dificuldades que enfrenta com o preço alto das coisas e diz que sua esperança é que Lula vença as eleições deste ano
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Foto: Isabella Lima / Redação Terra

O comerciante André Miguel relata que votou em Bolsonaro na eleição passada e seguirá com o voto em 2022. Ele até admite que governo Lula teve lados positivos, mas foi marcado por corrupção.

"Teve muito benefício pessoal para ele, né? E a gente tem um medo do comunismo que vemos no outros países chegar aqui. E, olha, abri meu comércio no mandato do Bolsonaro. Pra mim, foi bom, desenvolvi bem. Na minha família a maioria vai no Bolsonaro. Ele está com vários programas dando suporte para população. Só acho que é preciso rever esses programas, para garantir que esses benefícios cheguem aonde realmente precisa", avalia.

Entregador de leite José Antônio dos Santos, de 77 anos, tem uma opinião totalmente contrária à do amigo. Assim como na última eleição, ele revela que irá votar no PT. O posicionamento de Bolsonaro durante a pandemia influenciou sua decisão.

José e André riem das divergências de opinião. "Eu quero mudança. Não vou no Ciro porque ele não tem chance; senão era ele. Aqui a gente vê que quem vai no Bolsonaro é mais aqueles que têm boa situação, que não precisa muito correr atrás. E eu quero um presidente que acabe com a fome que eu estou vendo. Pra mim, as coisas não estão tão ruins, mas vejo muita gente que sofre", acrescenta José.

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Essa é uma das reportagens da série especial de eleições do Terra Votos pelo Brasil. Eleitores de nove cidades brasileiras, que se destacaram nas Eleições de 2018 e nos últimos quatro anos, contam suas percepções sobre o País e expectativas para 2 de outubro. Novas reportagens serão publicadas diariamente ao longo desta semana.

Fonte: Redação Terra
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