Aumento do Bolsa Família e discurso contra bets é 'tentativa de Lula de manter eleitorado cativo', dizem especialistas
Presidente enfrenta desgaste da imagem e aposta em medidas eleitoreiras com aproximação de Flávio Bolsonaro
Com pouco mais de duas semanas para o primeiro turno das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sente os efeitos da campanha eleitoral. Embora seu percentual de intenção de votos tenha praticamente se mantido, seu oponente direto, Flávio Bolsonaro (PL), vem em uma crescente em meio a crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Eles apareceram tecnicamente empatados no 1º e 2º turno da última rodada da pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira, 17.
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Em cenário desfavorável, Lula promulgou o reajuste de cerca de 15% nos benefícios pagos pelo Bolsa Família. Com o aumento, o piso do programa sai de R$ 600 para R$ 691. Em anúncio ao lado do mandatário, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que o custo da medida é de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de R$ 22 bilhões em 2027. Todo o impacto seria absorvido pelo espaço fiscal existente em ambos os exercícios, segundo o governo.
De acordo com Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o alerta está aceso na campanha do presidente Lula. “Ele vai fazer de tudo para tentar diminuir isso, aumentar a distância que porventura ele possa ter ou diminuir a distância que ele tenha estando atrás do Flávio num segundo turno.”
Na quarta, Lula afirmou que tem como “disposição pessoal acabar com as bets”, durante o podcast Desce a Letra Show. “Obviamente que eu tenho que ouvir outras pessoas, porque eu não posso tomar uma decisão abrupta, sem pensar nas consequências dela. Mas sinceramente, as bets, hoje, é uma desgraça nesse país para o povo pobre que trabalha e que perde seu dinheiro jogando.”
Questionado se ambas as questões poderiam ser consideradas desesperadas, Prando esclarece que dá pra afirmar isso, mas que são medidas eleitoreiras para tentar diminuir a rejeição que ultrapassa os 50%.
“Questão do Bolsa Família, da taxa das blusinhas que foi colocada pelo governo e depois foi retirada, de bater pesado nas bets, claro que tudo isso são estratégias políticas eleitorais no intuito de diminuir a distância que existe entre ele e o Flávio, dar um certo conforto para um segundo turno, mas também é melhorar a avaliação.”
Para Flávia Bozza, cientista política da ESPM, o aumento do benefício é “uma tentativa do Lula de manter o seu eleitorado cativo”. A medida acontece após as últimas pesquisas mostrarem queda na intenção de votos entre os beneficiários do Bolsa Família. “Eles percebem o Bolsa Família como um direito adquirido, não um privilégio.”
“Vivemos um governo que esteve muitos anos no pode., Com isso, o governo precisa mais do que somente mostrar o que fez em termos de políticas públicas, de fato. Precisa encantar um eleitor que está profundamente insatisfeito, desconfiado, apático, desanimado em relação à política e as possibilidades que a política pode trazer para a sua vida, no sentido de melhorar a sua vida.”
É possível já mirar um candidato vitorioso?
Prando avalia que é difícil, em muitas democracias, que um presidente consiga ter uma vitória com uma desaprovação tão grande como a de Lula, mas ainda não é possível dizer que Flávio sairá vitorioso.
“Está muito parelho entre ele e o Flávio Bolsonaro, e a gente provavelmente só vai conhecer o vitorioso de fato no domingo de um segundo turno quando o Tribunal Superior Eleitoral colocar de maneira muito clara quem foi aquele eleito matematicamente. Para mim, vai ser uma disputa acirradíssima, e o presidente está lançando mão de tudo aquilo que ele puder, lembrando que o tempo é fundamental.”
De acordo com o cientista político, ainda que a crise enfrentada por Flávio na pré-campanha, mesmo que ele não tenha explicado como o dinheiro do Master foi usado na produção, foi se dissipando. “Então, para ele não tem problema nenhum, ele não explicou e ainda assim ele mantém um alto patamar de votos. Agora o Lula tentando fazer isso próximo da eleição, como o aumento do Bolsa Família, é tentar mexer com o humor, com o bolso, e com o eleitor. E, com isso, ter algum ganho de capital político que possa se reverter em votos daqui a algumas semanas”, destaca.
No olhar do cientista político Roberto Almeida, Lula já é um candidato 100% conhecido, enquanto Flávio está se tornando e vai ficar, até o dia da eleição, totalmente conhecido. Os eleitores que sempre avaliaram mal o governo do petista e que não tinham um candidato, podem escolher quem tem mais chance de derrotá-lo, que no caso seria o nome do PL.
“É por isso que [Flávio] Bolsonaro vem se fortalecendo nesse decorrer e a tendência é que continue assim”, pondera. Ele não acredita que a crise no Supremo seja um fato determinante da campanha de Flávio, mas que ajuda a desgastar a imagem do atual governo.
“Por quê? A corrupção está sempre mais associada ao governo do que à oposição. Então, ainda que tenha ocorrido no governo anterior, não importa”, explica o raciocínio direto de grande parte dos eleitores.
“A campanha está tendo efeito, ao revelar quem é o principal nome porque quem é a favor do Lula já se decidiu, vai votar no Lula. Agora, quem é contra, ainda tem um restinho ainda que está se decidindo, e a proximidade da eleição leva a essa decisão.”
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