Professora cria 'caixa eletrônico pedagógico' para ensinar alunos do EJA em Pernambuco
Adelma Barcelos diz que alunos têm idade média entre 45 e 60 anos, e querem aprender a ler para não depender de terceiros
O uso do caixa eletrônico pode parecer simples do dia a dia, mas, para muitos adultos e idosos em processo de alfabetização, nem sempre é uma tarefa fácil. Observando essa necessidade, a pedagoga Adelma Barcelos, de 50 anos, criou o caixa eletrônica pedagógico para seus alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
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A iniciativa criada pela professora pernambucana ensina alunos adultos e idosos a manusearem operações básicas em um caixa eletrônico, como consultar saldos e sacar dinheiro. Pedagoga especializada em Neuropsicopedagogia e Psicologia Escolar, ela conta ao Terra que trazer o cotidiano para a sala de aula mostra que a escola se solidariza com as dores desses alunos.
"Para eles, o tempo é muito precioso. Eles chegam na escola cansados do trabalho pesado e com uma bagagem de vida enorme. Se eu chego com uma cartilha infantil, eu perco esse aluno na mesma hora. A alfabetização só faz sentido se vier para resolver um problema real que ele enfrenta lá fora. Ligar o ensino ao dia a dia é, antes de tudo, uma questão de respeito com a história desse trabalhador", explica.
Natural de Água Preta (PE), a pedagoga afirma que o principal ponto de alfabetização desses alunos, que costumam ter idade média entre 45 e 60 anos, é aprender a ler para não depender de terceiros, especialmente em agências bancárias, transporte público ou comércio.
"A prática é o que tira o medo. O adulto não alfabetizado muitas vezes tem vergonha e se sente muito vulnerável diante da tecnologia. Imagine a aflição de um homem ou de uma mulher do campo na fila de um banco de verdade, com medo de travar a máquina ou tendo que entregar o próprio cartão e a senha na mão de um desconhecido. Isso fere a dignidade", ressalta a professora.
Adelma mantém uma conta no Instagram onde compartilha os resultados que obtêm em sala de aula. Vídeos mostrando a rotina nas turmas do EJA viralizaram nas redes sociais, ultrapassando 150 mil visualizações.
"Com o simulador do caixa eletrônico na sala, nós quebramos esse bloqueio. Eles apertam os botões, simulam a operação, erram e tentam de novo num ambiente onde ninguém vai rir ou tentar enganá-los. Quando o aluno domina essa prática, ele ganha autonomia. Ele entende que é um cidadão com direitos, que pode sacar o dinheiro do próprio suor e ocupar os espaços da cidade com segurança", diz.
Além do caixa eletrônico pedagógico, a professora usa outros métodos de aprendizado com os alunos adultos e idosos. Há também atividades relacionadas ao preenchimento da Carteira de Trabalho (CTPS) e do Título de Eleitor, por exemplo, além da simulação de uma urna eleitoral.
A pedagoga acrescenta que costuma usar documentos reais, como contas de luz e água, para que os alunso aprendam a localizar o valor e a data de vencimento, por exemplo. Folhetos de supermercado, encartes de produtos agrícolas e embagalagens do dia a dia para checar a validade, também são ferramentas de aprendizado em sala.
"A mudança mais forte que a gente vê não é só na ponta do lápis, é na postura física. O aluno muitas vezes chega no começo do ano olhando para o chão, com a autoestima lá embaixo, dizendo que a cabeça 'já está dura' para aprender. Já presenciei a emoção de alunos ao conseguirem ir ao banco sozinhos na cidade pela primeira vez. Quando eles conseguem ler o próprio nome num documento ou conferir a própria conta de luz, eles passam a olhar as pessoas nos olhos. O resgate da autoestima é imediato. A alfabetização devolve a voz e a coragem para essas pessoas", conclui a pedagoga.
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