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Redação do Enem: quais são os erros que mais tiram pontos e como evitá-los?

Levantamento analisou mais de 500 mil textos; provas serão aplicadas nos dias 8 e 15 de novembro

27 out 2026 - 18h11
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Resumo
Um levantamento com 500 mil textos da plataforma Redação Nota 1000 apontou que falhas na argumentação ainda são o maior desafio no Enem, causando perda média de 80 pontos, apesar de terem caído para 41,73%. O estudo também revelou erros recorrentes de ortografia, pontuação, repetição de palavras e uso forçado de citações genéricas. Especialistas recomendam que, na reta final, os candidatos foquem em planejar o texto, articular repertórios conhecidos e revisar os próprios erros mais frequentes.

Um levantamento com mais de 500 mil textos corrigidos no primeiro semestre deste ano mostrou que, embora os estudantes tenham evoluído na argumentação, essa habilidade ainda é um dos maiores desafios para obter uma boa pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A pesquisa foi feita pela plataforma Redação Nota 1000, da Cogna Educação.

Na comparação com o mesmo período de 2025, a proporção de textos com problemas de argumentação caiu de 61,65% para 41,73%. Mesmo com a melhora, esse tipo de falha pode representar uma perda média de 80 pontos na competência que avalia a capacidade de organizar informações e defender um ponto de vista.

Os pesquisadores identificaram também dificuldades recorrentes com ortografia, pontuação e uso de referências culturais. A repetição de palavras, outro problema frequente, apareceu em 41,42% dos textos, ante 45,28% em 2025.

Embora tenha diminuído, dificuldade de desenvolver argumentos na redação ainda afeta muitos estudantes.
Embora tenha diminuído, dificuldade de desenvolver argumentos na redação ainda afeta muitos estudantes.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

As provas do Enem deste ano serão aplicadas nos dias 8 e 15 de novembro, em dois domingos consecutivos.

"Em duas semanas, talvez não seja possível transformar completamente a escrita, mas é possível tornar a redação mais consistente e estratégica, sem comprometer o bem-estar do estudante", afirma Carolina Siequeroli, gerente sênior da Redação Nota 1000.

Segundo ela, a evolução na argumentação está relacionada ao exercício da escrita, produzir textos com frequência permite ao estudante reconhecer erros recorrentes, aprimorar a argumentação, organizar melhor as ideias e desenvolver maior segurança para atender às exigências da prova.

O levantamento reúne redações de estudantes das três séries do ensino médio, com predomínio de instituições particulares, responsáveis por 99,5% dos alunos no recorte por perfil escolar. Os resultados, portanto, não representam necessariamente o desempenho de todos os estudantes brasileiros.

Dificuldade de desenvolver argumentos

Embora tenha diminuído em relação a 2025, a dificuldade de desenvolver argumentos apareceu em 208.165 ocorrências nas correções realizadas neste ano. Em geral, o problema está na apresentação de ideias que não são suficientemente explicadas ou relacionadas à tese defendida.

É o caso do estudante que faz uma afirmação, mas não demonstra suas causas, consequências ou de que maneira ela contribui para sustentar o ponto de vista apresentado na introdução.

"Essa é uma habilidade que exige prática contínua e acompanhamento de longo prazo", afirma Carolina.

O impacto na nota pode ser expressivo. Segundo a pesquisa, falhas de argumentação representam uma perda média estimada de 80 pontos na Competência III. Já problemas relacionados ao repertório e à coesão textual podem custar, em média, 40 pontos nas respectivas competências.

Na avaliação de Carolina, o candidato que ainda apresenta dificuldades nessa área deve aproveitar os últimos dias para exercitar a construção dos argumentos, procurando estabelecer relações mais claras entre as ideias e evitar afirmações genéricas.

Citações decoradas, o chamado 'repertório de bolso'

Não há problemas em recorrer a frases de filósofos, escritores ou personalidades conhecidas, exceto quando essas citações não têm relação consistente com o tema. É o chamado "repertório de bolso".

A pesquisa registrou 10.418 ocorrências desse tipo, além de 48.778 apontamentos de repertório não legitimado e 25.629 problemas de articulação entre referências e argumentos.

Carolina explica que a forma de avaliar esse tipo de recurso passou por mudanças, o que pode ajudar a compreender a queda na nota média da Competência II em relação a 2025.

Uma citação pode até ter relação com o assunto proposto, mas, se não contribuir efetivamente para a argumentação, pode impedir o candidato de alcançar os 200 pontos da competência.

Os dados mostram que a capacidade de utilizar referências de maneira produtiva melhora ao longo da vida escolar. Na primeira série do Ensino Médio, 33% dos repertórios considerados pertinentes também foram classificados como produtivos. Na terceira série, esse percentual chegou a 46,5%.

A diferença sugere que, com o avanço da escolaridade, os alunos conseguem estabelecer relações mais consistentes entre seus conhecimentos e os argumentos apresentados.

Ortografia, vírgulas e repetições

O levantamento mostrou também 967.155 apontamentos de ortografia e 945.227 relacionados ao uso da vírgula, além de falhas de concordância, acentuação, crase e regência.

Esses números correspondem às ocorrências identificadas nas correções, e não à quantidade de estudantes que cometeram cada erro. Uma mesma redação pode apresentar vários problemas.

Em 2025, erros de ortografia apareciam em 74,29% dos textos analisados, enquanto os de pontuação estavam presentes em 71,34%. Neste ano, as duas categorias permaneceram entre as mais frequentes na Competência I, que avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

Na Competência IV, responsável pela coesão textual, a repetição de palavras lidera os apontamentos. O percentual de redações com esse problema recuou de 45,28% para 41,42%, mas ainda representa uma parcela considerável dos textos.

"Para evitar essas falhas, é necessário trabalhar a articulação entre as diferentes partes do texto, diversificar adequadamente o vocabulário e observar se cada período e cada parágrafo estabelecem uma relação clara entre si", orienta Carolina.

Ela ressalta que a coesão não depende apenas do uso de conectivos. O candidato precisa garantir que as ideias avancem de um parágrafo para outro, sem repetições desnecessárias ou mudanças bruscas de raciocínio.

Falhas que zeram a nota

Nem sempre os erros mais frequentes são os mais prejudiciais. O levantamento identificou 1.487 casos de fuga total ao tema, 782 redações em branco e 295 textos com número insuficiente de linhas, situações que podem resultar em nota zero.

Também foram registrados 5.521 casos de tangenciamento, equivalentes a 1,92% do conjunto de redações considerado nessa análise. Isso acontece quando o estudante aborda apenas parte do tema solicitado, deixando de contemplar o recorte definido pela proposta.

Nesses casos, as notas das Competências II, III e V ficam limitadas a 40 pontos cada, independentemente da qualidade de outros aspectos do texto.

Por isso, Carolina recomenda atenção especial à leitura da proposta. Antes de escrever, é importante identificar o assunto central, compreender exatamente o que está sendo pedido e avaliar se os argumentos escolhidos respondem à questão apresentada.

O que ainda dá tempo de fazer?

Com pouco tempo até a prova, Carolina considera mais produtivo revisar dificuldades já identificadas do que tentar aprender uma grande quantidade de conteúdos novos.

A especialista recomenda três cuidados:

1. Treinar a interpretação do tema e o planejamento da redação

Escolher propostas de anos anteriores, identificar as palavras centrais e exercitar a elaboração de uma tese e de dois argumentos. O objetivo é ganhar segurança na compreensão do tema e na organização das ideias antes de começar a escrever.

2. Revisar a argumentação, sem decorar novas citações

Em vez de memorizar frases de autores ou referências culturais que talvez não se encaixem na proposta, vale trabalhar com conhecimentos que o estudante já domina. O mais importante é conseguir explicar por que determinada informação é relevante para a discussão e como ela sustenta o argumento.

3. Fazer uma lista dos erros mais frequentes

As últimas redações corrigidas podem servir de referência para uma revisão direcionada. A lista deve incluir problemas recorrentes de ortografia, concordância, pontuação e repetição de palavras, além de aspectos como desenvolvimento dos argumentos e conexão entre os parágrafos.

Também é importante conferir se a proposta de intervenção apresenta agente, ação, meio ou modo de execução, efeito esperado e detalhamento de pelo menos um desses elementos.

Segundo Carolina, o planejamento, a organização dos parágrafos, a redução de repetições e o uso mais adequado de referências conhecidas são aspectos que ainda podem melhorar nesse período. Já o domínio da norma-padrão, a ampliação do vocabulário e o desenvolvimento de uma argumentação mais sofisticada dependem de um trabalho de longo prazo.

Estadão
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