Menos é mais? Saiba quanto tempo deveria durar um processo seletivo
Processos seletivos extensos podem afastar bons candidatos, dizem especialistas
Sabe aquele papo 'good vibes' que diz para "confiar no processo"? Se esse processo for para uma vaga de emprego, a coisa muda de figura. Isso porque nem toda seleção parece beneficiar os candidatos. Se antes para conseguir um trabalho bastava o profissional levar o currículo e enfrentar uma ou duas fases presencialmente, com a migração dos processos seletivos para o virtual, as etapas parecem ter aumentado.
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Da triagem de currículos na plataforma de recursos humanos até a entrevista final, o candidato precisa enfrentar muito 'chão': fit cultural, teste de conhecimentos e habilidades, prova de idiomas e até joguinho online para assegurar que o que está escrito no currículo é real. Tem vaga que, só de abrir, o profissional já desiste de tentar, dada a quantidade de tempo que precisa despender.
Mas quanto tempo deve durar um processo seletivo justo para os candidatos e para os gestores de recursos humanos? Será que existe limite para a quantidade de etapas até a proposta de trabalho? O Terra ouviu especialistas experientes na área de Rh para trazer essas respostas e dar dicas de como estar bem preparado para enfrentar essa 'maratona' profissional.
O céu é o limite quando se trata de etapas?
É durante um processo seletivo que o gestor de recursos humanos conhece e direciona os candidatos mais alinhados à cultura de uma empresa. Por isso, quanto mais etapas, melhor para ter certeza da contratação, não é? Na verdade, esse pensamento pode ser uma armadilha.
Segundo especialistas, não há fórmula mágica para criar uma seleção perfeita. Existem etapas essenciais, claro, como a triagem de currículos e as entrevistas. No entanto, cada passo deve ser pensado com cuidado e deve obedecer um limite - estipulado conforme a vaga e a empresa.
De acordo com Renata Martorelli, profissional com 25 anos de experiência em gestão, os processos precisam ser, antes de tudo, coerentes com as competências exigidas pelas empresas.
"As habilidades e o alinhamento de propósitos entre empresa e candidato não estão diretamente relacionados ao número de etapas, mas sim ao nível de consciência que os gestores possuem de seu negócio e como este posicionamento se traduz na estratégia de gestão de pessoas", explica.
Renata avalia que um processo seletivo eficiente é o que proporciona as melhores condições para empresa e candidato se escolherem. É aí que a elaboração da quantidade de etapas entra.
"Vale dizer que processos muito concorridos pressupõem etapas diferenciadas e com complexidade progressiva para avaliar os melhores candidatos", destaca.
Quem também defende o limite de etapas é Fernanda Linhares, gestora de recursos humanos e CEO de uma empresa especializada em psicologia organizacional e do trabalho. Segundo a profissional, que acumula experiência de 20 anos no mercado, longos processos seletivos que contam com prazos demorados para retornos podem afastar profissionais qualificados.
"Bons candidatos não ficam muito tempo fora do mercado e logo a empresa pode perdê-los por avaliar demais pontos que, muitas vezes, não são realmente decisivos para a contratação", opina a gestora.
Renata compartilha a mesma visão: "Quanto mais exaustivo e excludente, apenas sobreviverão os mais resistentes a processos e ambientes que não necessariamente vão trazer as melhores entregas, resultados e profissionais".
Seis já é demais
Responsável por gerenciar seleções de uma empresa de jogos online em Malta, na Europa, o paulista Norton Sousa concorda com a imposição de limites para as etapas de um recrutamento e arrisca estabelecer um número. Para ele, seis já é demais.
"A extensão das etapas atrapalha o profissional em busca de emprego e o gestor de RH. A missão do recrutador é facilitar a vida do candidato, então, eu aposto em processos mais curtos e assertivos, baseados em conversas e em conhecer realmente quem é o candidato para além do currículo e do teste técnico", analisa.
O recrutador conta que já testemunhou a perda de bons profissionais por causa da extensão do processo seletivo. Quanto mais etapas, mais os candidatos perdiam o engajamento na empresa.
O aumento do número de etapas, na visão de Norton, só pode ser defendida em cargos mais elevados.
"Para um CMO ou COO, por exemplo, é até justificável. Mas para vagas de profissionais até sênior, não vejo necessidade", opina.
Processo seletivo ideal
Se tantas etapas deixam candidatos e recrutadores exaustos, qual seria o processo seletivo 'dos sonhos'? Para Norton Sousa, quatro fases bastam.
"A primeira seria o envio e análise do currículo. A segunda, uma entrevista com o recrutador para verificarmos o fit cultural e até confirmar algumas questões mais técnicas. A terceira, eu apostaria em uma entrevista com o gestor da área. Finalmente, a última etapa poderia ser um papo com os membros da equipe", sugere.
Com uma visão mais otimista, ele acredita que o mais importante no seu processo de seleção "perfeito", além da checagem de habilidades, é envolver o time naquela contratação.
A proposta é parecida com a de Fernanda Linhares. Além da etapa inicial de triagem dos currículos, a gestora aposta em outras três fases: entrevista com o recrutador, avaliações técnicas e psicológicas e entrevista final com o gestor da vaga.
"As três primeiras podem ser feitas de forma remota e em curto tempo", afirma.
Para Renata Martorelli, a empresa precisa manter um equilíbrio. Por isso, é importante se atentar à análise e às entrevistas mais objetivas, bem como observar questões mais subjetivas relacionadas aos candidatos.
"A seleção precisa de definições estratégicas, metodologia e compliance coerentes. É importante equilibrar entrevistas estruturadas e objetivas, dar atenção aos vieses inconscientes, direcionar trilhas e critérios de avaliação alinhados com os tomadores de decisão", detalha.
Dicas para um candidato bem preparado
Os especialistas também separaram dicas para os profissionais que estão dispostos a enfrentar uma verdadeira 'maratona' de seleção. Anota aí:
- Se informe sobre todas as etapas do processo seletivo no início. Pergunte ao recrutador quantas etapas existem, entenda quais são as habilidades avaliadas em cada uma e quem estará presente;
- Organize o seu tempo e se planeje com antecedência para cada fase. Isso inclui saber quando e onde cada fase ocorrerá, para que você possa se preparar mental e fisicamente;
- Lembre-se que cada etapa é uma oportunidade para mostrar suas habilidades e aprender mais sobre a empresa. Foque no aprendizado!;
- Cuide de si e tenha paciência durante o processo. Certifique-se de dormir bem antes da entrevista, comer de forma saudável e reservar tempo para atividades de relaxamento;
- Se surgir dúvidas durante o processo seletivo, não hesite em contatar o recrutador ou a pessoa responsável pela seleção;
- Tenha um plano B. Enquanto espera pelo resultado de uma etapa, é muito útil ter um segundo plano em mente, sejam outras oportunidades de emprego ou atividades que você pode realizar para melhorar suas habilidades enquanto espera.
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