Economista critica gastos militares da Alemanha com armas ultrapassadas
Presidente do Instituto Kiel diz que plano bilionário de rearmamento da Alemanha ainda prioriza sistemas militares ultrapassados pela guerra moderna, como tanques e navios, deixando de investir em drones, IA e robótica.O presidente do Instituto Kiel para a Economia Mundial (IfW), Moritz Schularick, acusou o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, de priorizar investimentos em sistemas militares que considera ultrapassados. Em entrevista ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, o economista afirmou que, em vez de direcionar os recursos da modernização das Forças Armadas para tecnologias do futuro, o governo continua concentrando gastos em tanques, fragatas e outros equipamentos convencionais.
Segundo Schularick, o programa de rearmamento da Bundeswehr (Forças Armadas alemãs), que deve alcançar 152 bilhões de euros (R$ 880 bilhões) até 2029, corre o risco de perder parte de seu impacto por causa dessas escolhas. O plano é financiado em grande medida pela dívida pública e, segundo ele, poderia também impulsionar o crescimento econômico caso fosse executado de forma diferente.
"Temos muito capital, amplo conhecimento industrial e, em alguns setores, tecnologias ainda extremamente modernas", afirmou. "O que não temos são centenas de milhares de pessoas dispostas a entrar em tanques e seguir para a linha de frente. Por isso, sempre que possível, precisamos apostar em inteligência artificial, robótica, drones e tecnologia de satélites, em vez de ampliar o número de soldados, veículos tripulados e quartéis", disse ele.
Schularick defende a criação de uma estrutura centralizada para coordenar as compras militares diretamente na Chancelaria. Na sua avaliação, um único ministério, além de operar de forma lenta, não tem capacidade para conduzir sozinho a reorganização da estratégia de defesa alemã e europeia.
"É necessário alguém com autoridade política para reunir indústria, startups e ministérios, eliminar entraves e concentrar todos os esforços em um objetivo comum", disse.
Como a DW mostrou, a disseminação de drones baratos e de fácil operação, evidenciada nos conflitos da Ucrânia e do Oriente Médio, tem levado a Alemanha a rever suas prioridades de defesa e a questionar se o aumento expressivo dos gastos militares acompanha a rápida transformação do campo de batalha. Especialistas alertam que, sem mudanças na política de compras e na organização da indústria de defesa, o reforço orçamentário pode ter impacto limitado.
Produção em massa
A proposta retoma recomendações apresentadas por Schularick em um documento estratégico elaborado no ano passado para o Ministério da Economia da Alemanha. Entre os signatários estavam o ex-presidente da Deutsche Telekom, René Obermann, e o general reformado Jürgen-Joachim von Sandrart. Agora, o economista sugere que nomes como Obermann ou o ex-presidente da Airbus, Tom Enders, poderiam assumir a função de coordenador de defesa na Chancelaria.
Na avaliação de Schularick, governo e indústria precisam reformular completamente a lógica das aquisições militares. O objetivo não deveria ser apenas comprar equipamentos sofisticados em pequenas quantidades, mas garantir capacidade industrial para produzi-los rapidamente em larga escala.
Ele argumenta que, em vez de encomendar lotes limitados de tanques altamente personalizados ou algumas centenas de mísseis antiaéreos, o Estado deveria investir em infraestrutura produtiva.
"Em outras palavras, não encomendamos apenas um equipamento, mas toda a fábrica capaz de produzi-lo. Assim, em uma situação de emergência, seria possível fabricar 2.000 mísseis por ano, e não apenas 200", afirmou.
Como a manutenção de instalações desse tipo não seria economicamente viável em tempos de paz, Schularick defende que o Estado pague incentivos para preservar essa capacidade industrial.
Ministério rejeita críticas
O Ministério da Defesa rejeitou a avaliação do presidente do IfW. Segundo um porta-voz, o debate ignora a realidade operacional das Forças Armadas, que precisam estar preparadas para responder a uma eventual agressão já em 2029.
De acordo com o ministério, não é possível esperar que todas as tecnologias mais recentes estejam disponíveis nesse prazo, embora a incorporação de inovações continue sendo um objetivo estratégico.
O governo argumenta ainda que já vem adquirindo sistemas de ponta, como os caças F-35 fabricados nos Estados Unidos. "Isso é guerra de alta tecnologia na era digital", afirmou o porta-voz.
Segundo ele, cerca de 20 bilhões de euros (aproximadamente R$ 128 bilhões) serão destinados à digitalização das Forças Armadas. Outros 35 bilhões de euros (cerca de R$ 224 bilhões) estão previstos para infraestrutura militar espacial. O orçamento inclui ainda vários bilhões de euros para drones de ataque do tipo kamikaze.
Como serão as guerras do futuro?
O debate reflete uma questão mais ampla entre especialistas: de que forma serão travados os conflitos nas próximas décadas e quais tecnologias terão papel decisivo na dissuasão militar.
Analistas alertam que a guerra na Ucrânia não deve ser vista como um modelo definitivo para os conflitos futuros. Embora drones tenham transformado o campo de batalha e ampliado a importância da coleta e análise rápida de dados, permanece em aberto se sistemas autônomos e inteligência artificial substituirão plataformas convencionais ou apenas complementarão seu uso.
"O emprego de drones é um fator decisivo da guerra moderna, sem dúvida. Mas drones sozinhos, especialmente os modelos mais simples, não decidirão as guerras do futuro", afirmou o porta-voz do Ministério da Defesa.
O presidente da fabricante de armamentos Rheinmetall, Armin Papperger, manifestou posição semelhante em entrevista ao jornal Handelsblatt no ano passado.
"O conflito atual mostra que guerras continuam sendo travadas com tanques e mísseis. Isso não vai mudar no futuro", afirmou. "Há uma narrativa segundo a qual os conflitos do futuro serão travados apenas com drones. Considero isso um equívoco."
gq (DPA, AFP, OTS)
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