Do kit Covid às urnas: como o negacionismo da pandemia se reflete nas eleições de 2026
Para combater a desinformação, não basta ofertar dados estatísticos adicionais, já que as negações cumprem também funções psicológicas e de conforto social para o negacionista
Pesquisa aponta que o negacionismo na pandemia não decorreu de desinformação passiva, mas da reinterpretação ativa de vivências traumáticas para manter identidades e lealdades políticas. Apoiados em bolhas sociais e discursos de lideranças, indivíduos com alta escolaridade distorceram a realidade para atenuar a dissonância cognitiva. Esse mecanismo extrapolou a crise da Covid-19, consolidando uma mentalidade conspiracionista que hoje desafia a adesão a fatos e enfraquece a confiança democrática.
Quando rememoramos o sofrimento cotidiano ao longo da pandemia de Covid-19 no Brasil, parece incompreensível que, apenas alguns anos depois, milhões de pessoas aparentemente já tenham apagado da memória a atuação do governo federal para promover a disseminação do vírus.
Mas o diagnóstico é mais profundo do que isso: mesmo durante aqueles dias, os significados da crise sanitária (inclusive das mortes), a atribuição de responsabilidades e a adoção de medidas de proteção individual e coletiva foram alvos de disputas. Não se trata de esquecimento histórico nem de ressignificação posterior, mas de disputas pelos significados dos acontecimentos em tempo real, enquanto eles se ainda se desenrolavam.
Reinterpretação das experiências diretas
Para minha pesquisa de doutorado, fiz entrevistas em profundidade com 26 pessoas com opiniões e percepções diversas sobre a realidade pandêmica, no Brasil e nos Estados Unidos. A maior parte delas apresentou atitudes de negação da gravidade da crise sanitária. Um dos achados mais marcantes da pesquisa foi a capacidade dos indivíduos de reinterpretar até mesmo suas vivências pessoais e traumas diretos.
Isso quer dizer que as experiências imediatas não serviram de freio ao negacionismo, mas, ao contrário, foram reenquadradas para atenuar a dissonância cognitiva de admitir a vulnerabilidade pessoal ou os erros dos líderes com quem essas pessoas se identificavam.
Entre os entrevistados, havia pessoas que perderam amigos e familiares para o SARS-CoV-2 e, ainda assim, não acreditavam sequer na existência do vírus; pessoas que, após violarem as recomendações de uso de máscara e distanciamento social e vivenciarem episódios brandos da doença, reforçavam a opinião de que era "apenas uma gripezinha" (e, portanto, poderiam continuar se colocando em risco).
Os entrevistados incluem também pessoas que, ao passar por internações por Covid-19 e dificuldades na recuperação, atribuíam a severidade de seu quadro ao fato de não terem feito uso do "kit Covid" antes de serem acometidas pela doença; pessoas que trabalhavam em órgãos de saúde e, diante do aumento de casos e de óbitos, achavam impossível que aqueles números assustadores fossem verdadeiros; pessoas que, mesmo atuando na área da saúde, defendiam medidas sabidamente ineficazes, como o "isolamento vertical" e a "imunidade de rebanho por contágio".
Sentimentos compartilhados, condutas opostas
Meus entrevistados eram pessoas com alta escolaridade (no mínimo, curso superior completo) que mobilizaram sua formação e seu conhecimento para justificar decisões tomadas por seu grupo político - mesmo que essas escolhas as submetessem ao risco aumentado de morte.
Apesar dos sentimentos iniciais coincidentes - medo, ansiedade, incerteza, angústia, insegurança, preocupação -, indivíduos de diferentes grupos políticos adotaram comportamentos opostos, a partir de falas e exemplos emanados pelas lideranças políticas de seus campos.
Apoiadores de governantes que minimizavam a gravidade da crise encontraram nas declarações oficiais o respaldo para abrandar a percepção de risco e justificar a recusa a medidas sanitárias. O medo inicial deu lugar à indignação e às críticas contra o distanciamento físico e o uso de máscaras - lidos não mais como proteção coletiva, mas como "ataques à liberdade individual" ou "manobras para prejudicar a economia".
A rejeição ao jornalismo profissional e o conforto cognitivo das bolhas
Nessas interpretações distorcidas, podemos perceber a ação de alguns mecanismos para lidar com eventos traumáticos: da negação frontal à distorção de detalhes que tornassem a realidade vivida menos brutal - passando, ainda, pela habituação.
As quatro mil mortes diárias, em momentos mais agudos da pandemia no Brasil, poderiam ser por outros motivos que não o SARS-CoV-2 - afinal, "hospitais ganhavam milhares de reais por declaração de óbito que tivesse a Covid-19 como causa"; poderiam ser de pessoas com comorbidades e que "morreriam de qualquer forma"; poderiam ser números fabricados pela grande mídia, num complô contra o então presidente; poderiam ser mortes de quem tivesse "menos fé". Essas foram algumas das ideias presentes nas entrevistas.
Para justificar as negações, essas pessoas recorreram a informações de seus contatos de confiança, em substituição aos veículos tradicionais de comunicação - nos quais, de modo geral, deixaram de acreditar. Nesse contexto, perdeu espaço e legitimidade a cobertura diária sobre casos e mortes - vista por muitos entrevistados como "sensacionalista" ou "destinada a prejudicar o governo".
O espaço informacional foi preenchido por grupos de mensagens no WhatsApp, canais no YouTube e postagens em redes sociais. Nesse ecossistema de desinformação, correntes sobre atestados de óbito inflados por verbas hospitalares e suspeitas sobre a segurança das vacinas ganharam força, conferindo suporte social às atitudes negacionistas.
É importante ressaltar que conteúdos (des)informativos que circulam nesses grupos sociais fazem parte de um ecossistema informacional complexo, marcado pela infodemia e pela repetição de informações falsas específicas.
Essa reiteração favorece o efeito da verdade ilusória e a reprodução de ideias que promovam o conforto cognitivo dos indivíduos do grupo (e, no caminho, legitimem e reforcem o poder dos líderes políticos que personificam determinadas ideias e posições).
Diferentes negações, um mesmo sistema de crenças
Hoje, questionamos os motivos pelos quais indicadores econômicos positivos não são percebidos por boa parte dos brasileiros, que declaram prestar atenção a temas da economia e, ao mesmo tempo, não reconhecem bons resultados quando ocorrem - a depender do governante do momento.
Talvez, olhar para as diferentes formas de distorcer (e, no limite, negar) os acontecimentos brutais da pandemia nos ajude a compreender que, por vezes, até mesmo as experiências pessoais imediatas são reinterpretadas a partir de pistas deixadas por lideranças políticas ou de filtros empregados pelos líderes de opinião legitimados em nossos grupos sociais.
A mentalidade conspiracionista e negacionista, portanto, não se restringe a um tema, mas tende a se expandir para outros elementos cognitivos dos sistemas de crenças das pessoas e a se fortalecer mediante a sensação de consenso no interior das bolhas de opinião. Nesse processo, crenças, opiniões e atitudes conformam identidades e reforçam o pertencimento a grupos.
Os desafios de resgatar uma realidade partilhada
Em um aceno à realidade, durante o debate promovido em 18/10/2026 na TV Bandeirantes, o candidato Flávio Bolsonaro admitiu que a gestão do governo de seu pai durante a pandemia teve problemas - mas afirmou que eles teriam decorrido do fato de ser um acontecimento inesperado com o qual ninguém sabia como lidar.
Essa ideia aparece nas entrevistas que fiz sobre as percepções da pandemia. A frase que melhor resumiu a impressão dos entrevistados que apoiavam Bolsonaro foi a seguinte: "se ele errou, foi tentando acertar".
Esse jogo de reconhecer elementos da realidade apenas para refutá-la encontra multidões predispostas à concordância - como vemos, por exemplo, nos questionamentos à confiabilidade das urnas eletrônicas. Os grupos sociais e ideológicos que negavam a gravidade do coronavírus e utilizavam a pandemia para justificar todos os resultados negativos do mandato de Bolsonaro são os mesmos que se recusaram a acreditar na vitória de Lula em 2022, e que hoje festejam, sem questionar o processo de votação, o triunfo da extrema direita nas urnas no primeiro turno de 2026.
Quem já se esqueceu da "fila do osso" hoje resiste a reconhecer avanços em indicadores macroeconômicos. Quem acreditava que as queimadas que bateram recorde na gestão bolsonarista eram promovidas por adversários para boicotar o então presidente tende a crer menos na influência humana sobre a emergência climática.
Todos esses elementos estão em um mesmo combo, conformando um sistema de crenças atravessado por dissonâncias cognitivas que encontram alívio na negação.
A análise do negacionismo da pandemia e de suas ramificações revela que o combate à desinformação não depende unicamente da oferta de dados estatísticos adicionais, pois as negações cumprem funções psicológicas e de conforto social. Para a preservação das instituições democráticas e o enfrentamento de futuras crises globais, o desafio reside em compreender a estrutura psicossociológica que sustenta essas crenças.
Compreender os mecanismos psicológicos que orientam condutas de parcelas expressivas da sociedade brasileira - e de outras partes do mundo - tem se revelado cada vez mais importante para enfrentarmos um desafio existencial, tanto para as democracias quanto para nossa própria sobrevivência: a busca pelo resgate de um piso mínimo de realidade factual partilhada. Sem avançar nessa compreensão, diferentes sociedades permanecem vulneráveis a discursos que alimentam o caos e corroem a confiança interpessoal e institucional.
Nayla Lopes recebeu financiamento do Programa Fulbright para o doutorado sanduíche nos Estados Unidos (de 2022 a 2023).
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.