Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Do calhambeque ao GTI: como carros e músicas atravessam linhas sociais

Em entrevista ao 'De Carona com o JC', o doutor em música Thiagson fala sobre o uso dos carros como marcador social nas canções

27 out 2026 - 05h42
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A relação entre carros e gêneros como rap e funk reflete a luta contra a desigualdade e a busca por mobilidade social no Brasil. Para além do valor material, veículos citados nas letras simbolizam conquistas, liberdade e prestígio para populações marginalizadas. Segundo o músico Thiagson, a ostentação funciona como prova de superação das barreiras socioeconômicas, mostrando que o conceito de luxo varia conforme a realidade da periferia e transforma o automóvel em um forte emblema cultural.

"Liguei o Golfão 00 GTI". A frase entoada na música 'Um Pião Di Vida Loka', do Trilha Sonora do Gueto, foi o meu primeiro contato com o clássico da Volkswagen e se deu, não por coincidência, junto a um dos meus primeiros contatos com o rap e as expressões da luta social.

Sei que minha experiência não foi a única. A união entre o ronco do motor e as canções é tão antiga quanto "andar pra frente", como diria minha avó. Contudo, o mais interessante, é que a música não é apenas um passatempo durante as horas de direção. Ela exerce funções práticas em diversos âmbitos.

Essa relação fica especialmente evidente no funk, em que carros de luxo aparecem como símbolos de ascensão social.

Para Thiagson, essas referências precisam ser compreendidas considerando as desigualdades que marcam o acesso ao consumo no Brasil. "Acho que no funk a gente percebe muito os itens de consumo simbolizando muitas coisas, simbolizando inclusive questões raciais", afirma. Segundo ele, o acesso a bens de consumo é mais restrito para a população racializada, que representa a maioria da população. Nesse contexto, conquistar um automóvel desejado pode ter um significado que ultrapassa o valor material do veículo.

"Quando a gente vê um funkeiro com um carro de luxo, significa principalmente a mobilidade social, mostrar que é possível subir na vida e conseguir subir de forma considerável", diz o músico. A ostentação, portanto, também pode ser entendida como uma expressão de conquista em uma sociedade na qual a ascensão econômica permanece distante de grande parte da população. Como observa Thiagson, "o processo de ascensão social, embora seja prometido na nossa sociedade, é muito raro".

O significado dos carros nas músicas, porém, não depende apenas do preço ou do prestígio associado às marcas. Os modelos considerados luxuosos variam conforme o contexto social e as referências de cada comunidade. "Muitos funks citam carros que não são tão luxuosos, mas, na periferia, significam luxo", explica. Modelos como Megane, Hyundai HB20 e Evoque aparecem nessa discussão, mostrando que o valor simbólico de um automóvel também é construído a partir das experiências e dos desejos de quem o consome.

Assim, a música transforma o carro em um recurso de expressão cultural. Nas letras, ele pode representar liberdade, desejo, intimidade e reconhecimento, mas também evidenciar as barreiras impostas pela desigualdade. Mais do que falar de automóveis, essas músicas revelam as diferentes formas de imaginar e conquistar um lugar na sociedade.

Ouça a participação de Thiagson no "De Carona com JC" pelo link abaixo

Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra