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Desmatamento altera regime de chuvas e impacta agricultura e exportações brasileiras, mostra estudo

16 set 2021 - 11h24
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O desmatamento para abertura de novas áreas para agricultura e pecuária vem alterando o regime de chuvas no Brasil e pode reduzir a eficiência da produção brasileira, hoje largamente apoiada em um regime de plantio de duas safras ao ano, mostra relatório da organização não governamental Planet Tracker.

14/08/2020
REUTERS/Ueslei Marcelino
14/08/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Reuters

Especializada em analisar riscos para investidores relacionadas a questões ambientais, a Planet Tracker analisou estudos de clima para mostrar que o aumento do desmatamento em determinadas regiões tem alterado o regime de chuvas, o que tem impacto direto na capacidade do país de manter o plantio de duas safras anuais, hoje responsável por boa parte do aumento de produção.

A consequência, explicam, chega até investidores em títulos soberanos do Brasil e em ações e dívidas de empresas brasileiras, já que uma redução da produção brasileira tem impacto direto nas exportações e no Produto Interno Bruto do país, o que aumenta o risco dos investimentos.

Ao analisar dados climáticos, o estudo "Sem Chuva na Planície - Desmatamento Ameaça a Exportação Agrícola Brasileira" aponta, por exemplo, uma alteração que já acontece no Estado de Rondônia.

"Evidências recentes sugerem que a temporada de chuvas está mudando nas áreas desmatadas da Amazônia. No Estado de Rondônia, o início das chuvas mudou, em média, 11 dias, nas últimas três décadas. No entanto, onde o desmatamento pesado não aconteceu, o início das chuvas não teve alteração significativa", diz o relatório.

A capacidade do Brasil de ter duas, às vezes até três safras anuais é hoje uma das razões de o país ser hoje uma das potências mundiais no mercado agrícola. As safras de soja e milho, alternadas nesse regime, foram responsáveis em 2018, de acordo com o estudo, por 2,6% do PIB brasileiro e representaram um quinto das exportações brasileiras.

No entanto, alertam os pesquisadores, a capacidade de ter mais de uma safra depende largamente do regime de chuvas. Atrasos no início das chuvas podem levar à impossibilidade de plantio de uma segunda safra. Em uma fazenda de tamanho médio no Mato Grosso, um dos maiores produtores de soja e milho no país, isso poderia representar a perda de 1/3 da renda anual.

"O impacto da redução da quantidade de chuvas no rendimento das colheitas é óbvio. Além disso, se o duração da estação chuvosa é reduzida, então o tempo para uma segunda safra amadurecer é reduzido, com mais impacto negativo no rendimento das colheitas", diz o estudo.

O relatório indica ainda que as receitas de exportação dos principais exportadores de milho e soja do país --Mato Grosso e a região do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, conhecida como Matopiba-- pode cair cerca de 2,1 bilhões de dólares até 2050, o equivalente a 6% das receitas de exportação de soja e milho em 2018.

Os autores alertam, ainda, que o estudo não considera um cenário de não retorno, em que cientistas apontam que uma redução de 20% a 25% na área atual da Amazônia poderia levar a uma alteração tal que a região deixaria de ser uma floresta tropical. O cenário considerado no estudo foi apenas de mudanças no regime de chuvas, considerando o ritmo de desmatamento até aqui.

O que altera o cenário de chuvas, mostra o estudo, é a chamada evapotranspiração --a evaporação de água do solo para o atmosfera, de cursos d'água e da própria vegetação, que retorna em forma de chuva. A falta de cobertura vegetal no cerrado e na Amazônia diminuem o processo e impactam diretamente na quantidade e no regime de chuvas no país, como já foi demonstrado por cientistas brasileiros em diversos estudos.

O cenário mais comum até hoje, de abrir novas áreas de desmatamento para aumentar a produção --um movimento defendido abertamente pelo presidente Jair Bolsonaro, que se recusa a assinar a criação de novas áreas de proteção-- pode trazer exatamente o resultado contrário: mais áreas e menos produção, impactando as exportações brasileiras e os resultados das empresas do país.

Voltado a investidores, o relatório alerta que "investidores em títulos soberanos estão em risco, assim como os investidores em ações e dívidas de empresas de toda economia brasileira".

"Em uma situação em que o desmatamento continue, não apenas os padrões de chuva e as temperaturas provavelmente serão alteradas, mas também tendem a se tornar menos previsíveis e mais extremas, e empurrar o ecossistema do Brasil perigosamente para mais perto de potenciais pontos de inflexão muito prejudiciais para o clima e a economia do país", diz o relatório. "Para o produtor rural e o setor do agronegócio de forma mais ampla, essa combinação será muito desafiadora --os riscos que enfrentam aumentarão significativamente, sem qualquer aumento nos retornos potenciais. Essas novas características de mercado irão chegar também ao investidores."

Entre as ações possíveis aos investidores, diz o relatório, está o de se unir à iniciativa de fundos de investimento para aumentar a pressão sobre o governo brasileiro, incluindo o Congresso, para rever medidas que permitem o aumento do desmatamento. Da mesma forma, pressionar as empresas brasileiras em que fazem investimentos para que adotem medidas de desenvolvimento sustentável.

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