Depois da Extrema Direita... o Extremo Centro?
Como as crises estruturais, o medo das elites e as redes sociais resgataram o radicalismo que hibernava desde o século passado
As ideologias políticas são brandidas pelos eleitores e cidadãos contemporâneos como se fossem elementos naturais, existentes desde sempre. Como se tivessem nascido com o carbono primordial de nosso planeta, em seus estimados 3,5 bilhões de anos.
Mas esquerda, direita, progressismo, conservadorismo ou fascismo não são condições naturais ou pré-existentes da vida humana. São construtos políticos recentes. Bem recentes na trajetória humana.
Os primeiros gêneros humanos, segundo a arqueologia e a antropologia modernas, contam com cerca de 2 milhões de anos. O Homo sapiens, nossa espécie, com cerca de 200 mil anos. E as ideologias políticas modernas não têm mais que 300 a 350 anos. Nestes quase quatro séculos, elas foram mudando, ocupando espaços, se alastrando ou minguando, conforme o desenrolar da História.
Os dois marcos da reação radical
Mas existem dois marcos importantes na história recente: a ascensão do fascismo no começo da década de 1920, logo após a pandemia da gripe espanhola, e a expansão da extrema direita populista após a pandemia da COVID-19, na década de 2020.
O que há em comum entre os dois processos históricos?
- Crises derivadas do esgotamento de ciclos capitalistas;
- Medo, por parte da direita liberal e conservadora, de movimentos populares reclamando direitos (associados à esquerda);
- Eclosão de tecnologias disruptivas;
- Ascensão de movimentos feministas buscando igualdade;
- Mudanças geopolíticas com a decadência de antigas potências e a ascensão de novas.
Como o historiador Eric Hobsbawm diagnosticou em sua obra A Era dos Extremos, a ascensão fascista foi, antes de tudo, uma reação de pânico da burguesia e das elites tradicionais diante da ameaça da revolução social. O medo fagocitou a moderação.
Para aplacar toda a ansiedade coletiva, para lidar com o medo do novo e enfrentar problemas econômicos e sociais reais e estruturais, nestes dois momentos um campo político ofereceu uma resposta radical: a Extrema Direita.
A algoritmização do medo e a canibalização do centro
Quase sempre apresentando respostas simplórias para problemas complexos e, não raramente, erguendo espantalhos morais para engajar seu público. Para disseminar essas illusions, a extrema direita contemporânea utiliza o que Eugênio Bucci chama de Superindústria do Imaginário, turbinada pelo ambiente digital de transparência pornográfica de Byung-Chul Han.
As redes sociais não querem o debate complexo; elas recompensam o choque, a mentira algorítmica e o espantalho moral, formatando a ansiedade coletiva em engajamento. Esse movimento é internacional e se alastrou por quase todo o Ocidente, sendo mais forte em países onde a desigualdade social grassa com mais virulência.
Esse cenário produziu um efeito colateral que se verificou tanto na Itália, Hungria e Romênia fascistas, como na Espanha franquista, no Portugal salazarista ou na Alemanha nazista: a direita tradicional foi fagocitada e o centro político esmagado.
O cientista político Cas Mudde já nos alertava: a extrema direita não morreu com a Segunda Guerra, ela apenas hibernou. Ao despertar nos anos 2020, ela não precisou criar novos partidos do zero; ela simplesmente infectou e radicalizou a direita tradicional, devorando o centro por dentro. Esse processo social se repete hoje. E o que ocorreu no nosso país?
O cenário nacional e o teste da democracia
A direita fisiológica (apelidada na Constituinte de Centrão) passa a aderir a todos os governos deste novo período democrático, mas seu compromisso com a democracia só seria testado mesmo a partir dos anos Temer.
E hoje podemos dizer que o tal Centrão não passa no teste. Tolerou a condução genocida na pandemia e as tentativas de golpe de Jair Bolsonaro e sua equipe sem mover uma palha. Desidratou, nestes últimos dez anos, os poderes orçamentários do Executivo, fosse ele de esquerda, fosse de direita.
E agora, prepara-se para entrar no barco do candidato que busca herdar o espólio do rosto da extrema direita no país.
O ensaísta Tariq Ali, em 2015, cunhou o termo The Extreme Centre (O Extremo Centro) para definir como a moderação ocidental se radicalizou na defesa intransigente do capital, esmagando alternativas democráticas. No zoológico curioso que é a política nacional, parece que descobrimos nossa própria tipologia, com requintes de fisiologismo e diferente de tudo o que se viu: o EXTREMO CENTRO.
*Alexandre Gossn é um paulistano radicado no litoral de SP, nascido em 1979, Pesquisador e Doutorando em autoritarismos contemporâneos pela Universidade de Coimbra, autor de Santo Adamastor, Fascismo Pandêmico, Chapados de Cloroquina e outros, Mestre em Direito e criador da newsletter Um olhar das Ciências Sociais.
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de Perfil Brasil.
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