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Depoimento especial: Ciência e literatura, um emaranhamento possível

Na vivência de um cientista, escritor e poeta, a percepção de que arte e ciência se encontram de verdade quando não se reduzem uma à função decorativa da outra

28 abr 2026 - 10h30
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Em geral, somos levados a imaginar a vida intelectual como uma bifurcação. De um lado, a ciência: método, rigor, hipótese, demonstração. De outro, a arte: imaginação, sensibilidade, metáfora, abertura ao indizível.

Como no célebre poema de Robert Frost, The Road Not Taken, parece que, em algum momento da vida, precisamos escolher um caminho, e deixar o outro para trás. Mas essa oposição talvez seja menos real do que aprendemos a supor. Os caminhos não trilhados não desaparecem necessariamente.

Às vezes, permanecem adormecidos, à espera do momento em que voltarão a nos chamar. Essa imagem, que aparece de forma explícita em Vidas Emaranhadas, meu primeiro romance, ajuda a pensar também minha própria trajetória entre laboratório e literatura.

Passei grande parte da vida nos laboratórios, entre a medicina, a bioquímica, a pesquisa sobre câncer e doenças neurodegenerativas, a formação de alunos, os congressos e a escrita de artigos científicos.

Mas, em paralelo a essa existência orientada pela investigação, sempre houve em mim um leitor atento, um apaixonado pela poesia, pelo romance, pelo cinema, pela música, pela linguagem em seu poder de criar mundos.

Essa dimensão encontrou expressão também na escrita de meus livros de poesia — Quase Poesia (2016), Cinzas de Luz (2023) e Poema de Papel (2025) —, que precederam a publicação de Vidas Emaranhadas.

Na entrevista que dei por ocasião do lançamento do romance, afirmei que o livro buscava justamente conciliar minha trajetória científica com minha experiência poética. Afirmei que as referências à ciência, à literatura e ao mito deveriam surgir de forma orgânica, como uma "respiração interna" do texto, nunca como ilustração didática. Isso me parece fundamental: arte e ciência só se encontram de verdade quando não se reduzem uma à função decorativa da outra.

Artigo na Nature

Essa convicção ganhou para mim um peso simbólico particular ao ler, na véspera do lançamento do romance, o artigo da Nature com o subtítulo "Science with Poetic Licence". O texto reúne depoimentos de médicos, pesquisadores e cientistas que recorrem à poesia não como ornamento, mas como forma de conhecimento e de elaboração da experiência.

A médica e pesquisadora Danielle Chammas, por exemplo, publicou um poema no periódico científico Jama Oncology após despedir-se de uma paciente com câncer, e descreve a poesia como parte constitutiva de sua própria prática clínica.

A reportagem argumenta que ciência e poesia não são domínios opostos: a poesia pode ajudar a atravessar o luto, a vulnerabilidade, a ambiguidade e a complexidade humana; pode também ampliar a percepção e oferecer novas maneiras de pensar fenômenos difíceis de traduzir apenas em linguagem técnica.

O artigo recupera ainda Ada Lovelace e sua noção de "poetical science", essa ciência poética em que abstração matemática e imaginação criadora se entrelaçam.

Foi impossível não reconhecer, nesse argumento, algo que me acompanha há muito tempo. Em Vidas Emaranhadas, a ciência não aparece como adorno intelectual, nem a poesia como enfeite verbal. O romance tenta construir um mundo em que física quântica, memória, desejo, tecnologia, ancestralidade e amor participam de uma mesma tessitura narrativa.

Nas páginas iniciais, Ada Lovelace é evocada como figura que reuniu a poesia do pai, Lord Byron, com a matemática, fazendo nascer uma "ciência poética". Mais adiante, o livro insiste em dissolver fronteiras entre cálculo e imaginação, entre laboratório e sonho, entre rigor do pensamento e vertigem do afeto. Não se trata de confundir os campos, mas de reconhecer que, em certos momentos, um ilumina o outro.

Ciência e artes

Talvez eu tenha começado a aprender isso não apenas nos livros, mas sobretudo no convívio universitário. Tive a sorte de ser formado e depois atuar por décadas em um ambiente em que alguns mestres recusavam essa divisão rígida entre conhecimento e sensibilidade, especialmente no Departamento, atual Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Entre eles, Leopoldo de Meis ocupa um lugar central em minha memória. Cientista brilhante, de reconhecimento internacional, Leopoldo foi também alguém que compreendeu profundamente que a formação científica não se esgota em protocolos, números e resultados. Havia nele uma vocação rara para fazer a ciência transbordar em outras linguagens: pintura, teatro, música, vídeo, literatura.

Mais do que praticar pessoalmente esse trânsito, ele criava condições para que outros também o experimentassem. Envolvia alunos, colegas e jovens pesquisadores numa atmosfera em que criar e investigar não eram movimentos incompatíveis. Em certo sentido, ele intuía que a universidade adoece quando separa demais o saber objetivo da imaginação sensível.

Essa lição não vinha apenas de Leopoldo. Ao longo da minha trajetória, convivi com vários pesquisadores para os quais a arte era uma extensão natural do pensamento. Júlio Scharfstein, por exemplo, sempre me impressionou pela relação intensa com as artes plásticas.

Em outros colegas, a música surgia como segunda linguagem, não como simples passatempo, mas como forma de presença no mundo. Marcos Farina é um desses exemplos. Em Rafael Linden, via-se a proximidade com a escrita de contos. Como se o exercício científico e o narrativo pudessem coexistir numa mesma disciplina da atenção.

E há ainda aqueles que fizeram da escrita ensaística e da divulgação científica uma obra própria, como Roberto Lent e Margareth Dalcolmo, capazes de falar a públicos mais amplos sem empobrecer a complexidade dos temas. Não menciono esses nomes como curiosidades laterais, mas porque eles testemunham algo mais profundo: a universidade brasileira, apesar de tantas precariedades, também foi e continua sendo um espaço de fecundação entre linguagens.

Palavras para lidar com dor, tempo, perda, esperança e finitude

Mais recentemente, minha entrada na Academia Nacional de Medicina intensificou essa percepção. A convivência com grandes nomes da medicina brasileira me mostrou, mais uma vez, que o exercício da ciência e da clínica frequentemente se acompanha de uma necessidade de expressão artística, especialmente pela escrita, em prosa e verso.

Além de Margareth Dalcolmo, penso também em José de Jesus Camargo, em Gilberto Schwartsmann, em Natalino Salgado Filho, em Paulo Niemeyer e em tantos outros que demonstram que a palavra literária, memorialística ou ensaística não é um luxo externo à prática médica. Em muitos casos, ela é a continuação inevitável da experiência de lidar com a dor, o tempo, a perda, a esperança e a finitude.

Isso talvez ocorra porque certas dimensões da vida humana resistem à captura integral pela linguagem técnica. A ciência é insubstituível para compreender mecanismos, testar hipóteses, produzir evidências, intervir no mundo de forma objetiva. Sem ela, estaríamos entregues ao obscurantismo, ao dogma e à superstição. Mas a ciência não esgota a experiência humana.

Saber como um receptor funciona, como uma proteína se dobra ou como uma célula responde a um estímulo não nos dispensa da tarefa de atribuir sentido ao sofrimento, ao amor, ao luto, à memória, ao desejo, à beleza, ao fracasso. É nesse ponto que a arte, a poesia e a literatura se tornam decisivas. Elas não concorrem com a ciência; elas a acompanham nas zonas em que o conhecimento precisa ser também vivido, narrado e simbolizado.

O artigo da Nature sublinha justamente isso ao mostrar pesquisadores que usam a poesia para traduzir o assombro diante da natureza, elaborar experiências de perda ou encontrar novas formas de pensar problemas complexos. A própria menção à Ada Lovelace no texto não é casual. Ela representa uma figura exemplar dessa aliança entre imaginação e razão, entre matemática e invenção.

Subúrbio, ciência, amor, poesia e transformação

Em Vidas Emaranhadas, Ada retorna como signo dessa reconciliação possível. O livro nasce de um desejo antigo de entrelaçar subúrbio, ciência, amor, poesia, cultura e transformação. Há muitos anos, há em mim a ideia de um conto que emaranhasse histórias da periferia com o poder transformador do conhecimento — seja pela cultura, seja pela ciência — e que esse conto acabou se expandindo até se tornar um romance. Essa formulação vale também como uma pequena poética pessoal.

Por isso, falar em "emaranhamento" não é apenas recorrer a uma metáfora retirada da física quântica. É nomear uma experiência real de formação e de criação. Emaranham-se, em uma vida, os caminhos que pareciam separados: o pesquisador e o poeta, o professor e o romancista, o laboratório e a biblioteca, a análise e a imaginação.

Emaranham-se também as tradições de conhecimento: a ciência moderna, a filosofia, a literatura, a ancestralidade, os mitos, as artes. O romance tenta dar forma narrativa a esse tipo de convicção; mas ela não nasceu no romance. Nasceu antes, no convívio com mestres e colegas que recusaram a mutilação de si mesmos em nome de uma identidade profissional estreita.

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja aceitar que a especialização deva levar ao empobrecimento do imaginário. É evidente que a ciência exige disciplina, foco, método e profundidade. Mas nada disso obriga o cientista a tornar-se intelectualmente monolíngue.

Ao contrário: em uma época marcada por crises sanitárias, ambientais, tecnológicas e éticas de enorme escala, talvez precisemos mais do que nunca de pesquisadores capazes não apenas de produzir conhecimento robusto, mas também de imaginar futuros, comunicar complexidades e sustentar as ambiguidades humanas que nenhum gráfico resolve sozinho.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Jerson Lima Silva recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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